Atalhos de Campo


7.3.16

imprinting

A luz habitava a sala enquanto os pardais rejubilavam com Bach. O pequeno-almoço, pão queijo presunto leite café manteiga, distribuído pela mesa, convidava a petiscar com preguiça, enquanto a nossa conversa ia deixando pequenos registos clandestinos pela partitura. Ouve...vês como cantam bem, e são pardais! Ele barrava a fatia de pão alentejano com manteiga, quando os olhos de repente desapareceram nalgum ponto do passado, e foi aí que começou a contar uma história. Sabes que também tive um pardal? Um dia, há já muitos anos, os meus irmãos mais novos tinham acabado de chegar a casa numa algazarra tremenda com uns amigos, e vou dar com um saco de plástico cheio de pardais mortos. Eles depois fritavam e comiam aquilo. Chamei-lhes tudo, assassinos e o que me veio à cabeça na altura, por terem andado aos ninhos e feito aquela mortandade aos passarinhos ainda sem penas, enquanto ia retirando cadáveres do saco. Mas reparei que um deles ainda se mexia, estava vivo, e comecei a alimentá-lo. Que idade tinhas nessa altura, perguntei-lhe. Uns dezassete anos, respondeu, devia estar a acabar o liceu. Consegui salvá-lo e depois ele voava atrás de mim para todo o lado. Voava dentro de casa, e entre a casa e o jardim, vinha ter comigo quando queria e pousava-me no ombro e na cabeça. Mas o mais extraordinário é que me acompanhava até à praia e seguia-me em voo, enquanto eu nadava. Eu estava estupefacta e maravilhada com a história e ia-lhe fazendo perguntas. Ele tinha o hábito de se empoleirar na porta da rua e ficava ali à minha espera. Fez isto durante dois anos, até que um dia, ao chegar a casa, reparei que ele não estava à minha espera e procurei-o em vão por todo o lado. Nunca mais voltou. Deve ter sido apanhado por algum gato... E, ao ouvi-lo dizer isto, reparei que os seus olhos muito azuis perdiam momentaneamente o brilho eléctrico, como o mar toldado por uma nuvem cinzenta. A tristeza compartilhada fez-nos emudecer conjuntamente. De súbito éramos todos adolescentes e partilhávamos à mesma mesa um desgosto antigo, que desconhecíamos. O nosso amigo é enérgico, alegre, uma fortaleza, e disfarçou, recomeçando a comer. É também caçador. Um caçador capaz de salvar e de se afeiçoar a um pardal. 

24 comentários:

  1. que bonito... tu sabes que eu e os pardais... :)

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  2. é, uma história linda, contada à mesa por um homem grande.

    Beijinho, ana.

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  3. Lindo.Muito.
    Hoje também há um pássaro e Bach na minha "casa". Os pássaros são companhia estimulante.

    Beijos esvoaçantes,Teresa :)

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    1. Querida Maria, voo para lá.

      Um beijo apardalado, não sem antes te agradecer. :)

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  4. ..lèternelle lumière du temps! Há momentos de encontro em que a memória pára o tempo na verdade de uma história de pardais....desgosto? saudades??? seje o que for... bom ler a tua história como uma memória minha também!

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    1. desgosto e saudades, como não, aos dezassete anos, quando todos nos julgamos eternamente livres? uma história de encantar, que fica assim, de um rapaz que acreditava ser pardal, e de um pardal que julgava ser pessoa.

      E para ti, a fénix renascida, um beijo enorme por me teres dito há dois dias ao telefone: escreve isso.

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  5. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Que bonito :)

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  6. Nunca tinha pensado que os pardais combinam com Bach.
    Que linda história, Teresa. E que belo pequeno-almoço!
    (a sério que tens os pardais soltos pela casa? :-) que felizes devem ser; eles também)

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    1. Os pássaros inspiram-se com música (e também com o som da água) e cantam numa espécie de competição; é lindo ouvi-los nessas alturas. Que belo pequeno-almoço (com esta história bonita, tens razão), enquanto os pardais tentavam competir com sonatas e suites de Bach e acabaram por nos inspirar a nós, três amigos à mesa, numa manhã de sol.

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  7. aos dezassete anos sabemos a verdade!... acreditar sempre nisso e continuar a libertar os passaros....o voo dos pássaros existirá para sempre enquanto formos livres...bem eu sou louca...acredito tanto nos pássaros que casei com um!

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    1. e ele, pobre pardal :), logo com uma fénix, francamente!

      P.S.
      Aos dezassete anos sabemos a verdade.

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  8. Querida Teresa Borges do Canto,
    Belo texto, como todos os seus textos. Redundante apenas a última frase. Afinal, bastaria dizer que o seu amigo é caçador.
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. Senhor Dr. Talqualmente Outro Ente,

      Incumbiu-me aqui a madama de corrigir o texto a seu contento, mas avisou-me logo que tivesse cuidado com a minha missiva dirigida a si, Tal e Qual Entidade, pessoa importante, portanto ai de mim se fizer o que me é costumeiro, põe-me outra vez dentro, ameaçou-me, está a compreender? Cá para mim mudava logo o título, pois que é isso de "imprinting", querem é armar-se em finas, eu leio Konrad Lorenz, ah, ah, e tal, se não era melhor ter posto Marca, e com maiúscula, agora usa-se isto, uma anarquia na gramática é o que é, devia fazer-se um exame como para o código da estrada, renovar a licença de escrever para não andarmos todos a seu bel-prazer, compreende, renovar a coisa para não dar nisto, cada um escreve como quer, pois não acha Senhor Doutor Outro Ente? Eu candidatava-me logo a polícia sinaleiro das palavras e havia de ser multa a torto e a direito, ah, ah, anda cá que és meu, seu palavroso, vais em excesso de velocidade, passaste um sinal vermelho, ias atropelando um peão, sim, isto é só atropelos, como sabe, cada um a querer ser mais que o Outro, e nem sequer é Ente, que não é para todos, quem é que gargareja com uma gárgula, quer é que observa por uma gárgula, quem é que vive no topo da cidade, ninguém, essa é a verdade, por isso a madama me disse vista o seu melhor fatinho e tome lá esta Pelikan, ao menos, seu papa-palavras, para não ir com essa bic roída na ponta, senão não há quem acredite em si, homem, e deixa ficar mal a quinta dos sonhos amarrotados, pois que a Smilenska está a braços a tomar notas, pois notas mesmo, não sei se me compreende, este portuga traiçoeiro, é cascas de banana por todo o lado, pois como dizia a Smilenska a arrecadar notas naquela despensa lá dela, e eu aqui a rachar lenha, a vida tem destas coisas Sr. Doutor, perdoe-me mas o seu nome é arrevesado pra caramba, e aqui a camisa também não está passada a ferro, falta-me a mão de ferro da minha Miss, uma lady das palavras, é o que é, lições de bondade, é um gosto ler aqueles textos, cá redundâncias, rotundas das palavras, coisas com prioridade que só empatam o trânsito, um sinaleiro ao seu dispor, cá o Manuel, pode-me tratar por Manel, ó Sr. doutor, vamos lá ao assunto, é lá para baixo, mesmo no fim, pois claro, está lá uma redundância, a mim parece-me que nunca é demais insistir que alguns caçadores também têm coração naquela alma de caçadores lá deles, olhe Sr. Doutor eu vou fazer como aqueles polícias que fecham os olhos, está a compreender, acho que desta vez aqui a madama tem uma certa razão, vou é riscar o título e pôr Marca, cá com a minha marca, passou aqui o zorro, o espadachim das palavras, o ás da bhic! Ela chama-me carrasco, monco caído, caídinho é o que eu estou, não desfazendo, o Sr. é um barão, conde já temos um, como sabe, e o sr. caçador é professor lá das medicinas, muito boa gente, olhe gosto muito de pavões, temos cá dois que são lindos, o Sr. também é caçador, não é, e salva os pardalitos da boca dos cães, que eu sei, então o Sr. não está também a salvo da redundância...é que as redundâncias podem às vezes ser frases de efeito, mas também de bom feito.

      Foi um prazer conhecê-lo, caro Doutor, tem aqui um admirador às suas ordens.

      Manuel Hilário

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  9. "É a música, este romper do escuro.
    Vem de longe, certamente doutros dias,
    doutros lugares. Talvez tenha sido
    a semente de um choupo, o riso
    de uma criança, o pulo de um pardal.
    Qualquer coisa em que ninguém
    sequer reparou, que deixou de ser
    para se tornar melodia. Trazida
    por um vento pequeno, um sopro,
    ou pouco mais, para tua alegria.
    E agora demora-se, este sol materno,
    fica comigo o resto dos dias.
    Como o lume, ao chegar o inverno."

    Eugénio de Andrade / Um simples pensamento

    Há caçadores que sabem ser, também eles, caçadores de poesia. Para tal, aprenderam que basta deixar que um pardal lhes suba ao coração.

    Obrigada por me emprestares as tuas asas, querida Teresa :)

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    1. «Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
      Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
      de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
      dos caracoes da terra. Certa vez encontrou uma
      voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
      tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",
      ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
      conversamentos de gaivotas. E passam navios
      caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
      Sombra-Boa tem hora que entra em pura
      decomposição lírica: "Aromas de tomilhos
      dementam cigarras". Conversava em Guató, em
      Português e em Pássaro.
      Me disse em língua de pássaro:"Anhumas premunem
      mulheres grávidas, três dias antes do inturgescer".
      Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
      "Borboletas de franjas amarelas são fascinadas por
      dejectos". Foi sempre um ente abençoado a garças.
      Nascera engrandecido de nadezas.»

      Manoel de Barros/ O livro da ignorãças


      Um grande beijinho, querida Miss Smile :)
      (elas estão um bocado esfarrapadas)

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  10. Está tão bom! Clap. Clap. Clap.
    Caro Manuel Hilário,
    O nome é arrevesado como o ser. Venham de lá esses ossos, homem de bem.
    Um abraço,
    Outro Ente.

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    1. Pelo que vejo o Manuel Hilário portou-se bem. Desta vez pelo menos.
      Acho que lhe vou aumentar o ordenado...
      Boa noite, Outro Ente.






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  11. É bonito ver homens grandes que se comovem como rapazes pequenos.

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  12. A história é apetecível, mas o seu teor é-me familiar. Já nos aconteceram situações semelhantes com pombos. Mas um dia, eles partem, talvez por uma qualquer intromissão perturbadora, quiçá?! No entanto, constato que ficam por perto. Interpreto essa circunstância como um apelo, um apelo maior do universo a que pertencem, difícil de conter.
    O que mais retiro destas histórias que não são fábulas, é que se formos sensíveis, e nos mantivermos ligados e atentos, teremos uma maior chance destes episódios ocorrerem, como se de revelações se tratassem. Senão, poderemos até pensar erradamente que a vida se esqueceu de nós.

    O caçador que caçou com o coração:)

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    1. Quanta razão! Se interagirmos com a vida ela devolve-nos mais vida.
      Eu desconhecia esta faceta deste nosso amigo, via-o só como caçador, fiquei a saber que afinal há nele um outro lado, que compensa a frieza cirúrgica do caçador.

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  13. às vezes desconfio que os pardais nã são só pardais...

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    1. pois não, são também pardocas e pardalocas; hoje foi o dia da pardaloca :)

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