Atalhos de Campo


24.3.16

fumar também salva, ou nem tanto

Eu não fumo, nunca fumei. Posso afirmá-lo apenas com uma pequena ressalva: não fumo desde os dez anos. É claro que isto é uma boutade, porém com alguma exactidão. Quando vivíamos em Moçambique o meu pai fumava. A minha mãe muito raramente pegava num cigarro, e se o fazia era quase sempre só aos fins-de-semana depois do almoço, entre amigos. Nessa altura encantava-me vê-la fumar, estudava-lhe os gestos, a atitude, a maneira como se sentava e cruzava as pernas sob a saia justa e elegante, como segurava o cigarro entre os dedos esquecendo-se dele, distraída a conversar com as mães dos meus amigos, e de como o seu olhar cinzento se perdia por vezes num ponto qualquer do fumo do próprio cigarro, nas poucas passas que lhe dava. E então punha-me a imitá-la, gesticulando, com alguma coisa que simulasse um cigarro. Não me lembro de qual de nós teve a ideia de ir à despensa tirar o primeiro maço de cigarros L&M da caixa de dez ou vinte, que vinha todos os meses com as compras grandes da cidade. Havia um quarto de brincar ao fundo do jardim onde eu costumava dar aulas aos meus irmãos, usando um quadro preto. Era aí que fumávamos, ou seja, fingíamos que fumávamos. Os cinzeiros eram as formas da praia, que iam ficando queimadas. Era provável que também tivéssemos a companhia de um sapo mascote, ou das borboletas gigantes e coloridas que caçávamos e colocávamos entre os vidros das janelas e as redes mosquiteiras, ou da cadela Queen, uma Fox terrier adoptada já adulta, e que nos seguia para todo o lado. Durante algum tempo não fomos descobertos, e aí eu pude treinar com esmero todas as poses da minha mãe, sem nunca sequer tentar travar o fumo. Foi uma sorte não gostar do sabor amargo que me ficava na boca, e, até ao merecido castigo, não ter acontecido nada de mal a nenhum de nós, uma vez que todos fumávamos, excepto o mais novo dos quatro.

Lembrei-me deste episódio por causa do Sr. Bonifácio, o senhor que vem todos os dias ajudar nos trabalhos da quinta. O Sr. Bonifácio fez um cateterismo cardíaco há uns dias. Hoje de manhã, quando lhe acenei, parou a roçadora e tirou o capacete anti-ruído para me cumprimentar. Perguntei-lhe se estava recuperado e o Sr. Bonifácio corado e sorridente disse-me que sim, que agora já não se sentia cansado, nem com aquela pressão no peito que lhe afligia os dias. Olhe, doutora, o médico disse-me que se agora controlar o colesterol, a tensão arterial, e tomar sempre os remédios, vai correr tudo bem, posso fazer a minha vida normal. Também me disse para não fumar, mas isso não era preciso porque já parei de fumar há muitos anos. E continuou, segurando o capacete só com uma mão, depois de uma breve pausa para fazer uma festa à cadelita que lhe saltou para as pernas: Não é que fumar também não possa salvar! Ainda agora um primo meu se salvou por fumar. Vinha cá passar a Páscoa e já estava a fazer o check-in no aeroporto de Bruxelas, mas como aquilo estava atrasado, tinha acabado de sair de lá com a mulher só para fumar um cigarro, quando se deram as explosões. Está a ver a doutora como eu tenho razão, que fumar é que os salvou? Dizendo isto perante as minhas interjeições de perplexidade, pareceu-me a tal ponto comovido que escondeu o rosto de novo no capacete, e baixando a viseira se despediu com um gesto simpático, voltando depressa para o seu mundo ensurdecedor, que mantém os caminhos limpos e as árvores tratadas.


Fiquei por momentos a vê-lo trabalhar, usando aquela foice motorizada que escalpeliza a terra, e a pensar que este género de situações está sempre a acontecer, coincidências incríveis que salvam vidas, ou precisamente o contrário. Mas neste caso o que verdadeiramente salvou o primo do Sr. Bonifácio não foi o facto de ele fumar, mas sim a proibição de fumar em espaços públicos fechados.            

10 comentários:

  1. há quem acredite que a nossa hora já está marcada... sinceramente, até pode ser :)
    gostei, pra lá de tanto.

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    1. não é o que não tem que ser... ouvem-se as descrições e fica-se a pensar nesse grande obreiro que é o destino.

      Obrigada, Manel, para lá de tanto.

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  2. Fantástico! Vemos o que queremos ver...
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. E por vezes fechamos os olhos, para conseguir ver melhor...

      Um dia fantástico para si.

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  3. Um amigo meu que vive em Bruxelas salvou-se porque, nesse dia, o despertador não tocou e ele não foi a tempo de apanhar o metro do costume. Neste caso, foi a impontualidade que o salvou. Estas coincidências, estes consolos posteriores transformam-se em mistérios, em revelações que cada um interpretará à sua maneira. É a partir daí que, creio, a história destas pessoas passará a ser muito maior, revestindo-se de outro significado.

    Achei uma delícia a tua história sobre o início da tua carreira de fumadora que, felizmente, não progrediu. Eu já fumei, mas já não o faço há muito, muito tempo. Mas tive uma experiência semelhante à tua, por volta dos doze anos. No meu caso, a prevaricação não foi motivada por um qualquer mimetismo (os meus pais não fumavam), mas mais por um rito iniciático que realizei com o meu irmão e umas vizinhas. Claro que o mestre Xamã, o meu pai, acabou por descobrir e aí, se bem me lembro, até deitei fumo pelas orelhas! O assunto ficou assim arrumado até aos meus vinte anos, altura em que recomecei a fumar. Mas durou pouco tempo. Nunca gostei de dependências.

    Um beijinho, querida Teresa

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    1. Quando observo um formigueiro penso muitas vezes nisso, em como o aleatório pode interferir na vida de todos nós. Somos um formigueiro, à escala. [Bendito despertador! Noutras ocasiões poderia ter sido péssimo...]


      Querida Miss Smile, tu deitaste fumo pelas orelhas e nós fomos postos em fila indiana no corredor que dava acesso ao quarto dos meus pais, onde o meu pai nos esperava com o chinelo em riste. Depois era só deitarmo-nos sobre a cama, de rabo para cima, enquanto os outros aguardavam vez. Eu era sempre a primeira a ser castigada, dado que era por ordem de idades. Só que aconteceu o insólito fenómeno de que o pó de talco do chinelo fazia revoadas, género o teu fumo, de cada vez que levava com ele no rabiosque, e o certo é que aquilo acabou em risota contida, mas dorida. Eu mereci, sem dúvida; era uma espécie d'enfant terrible, mesmo. A coisa ficou controlada com o método do inventário, e não houve mais tentações.

      Que bom quando trocamos histórias - sentadas na relva ou sobre a tua colcha.
      Um beijinho, querida Miss Independente.

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  4. O meu pai sempre fumou muito e aquele odor não me seduzia nada. Claro, experimentei aos 15 anos, mas depois deixei-me disso, só mesmo esporadicamente, até que me esqueci por completo. Não tem a ver comigo e eu sempre pensei que não me iria acrescentar nada de bom. Afinal, só a pose é que era plástica!
    No meu liceu, durante o intervalo grande havia um corrupio frenético para as casas-de-banho interiores. Era ultra-proibido e não eram muitas as que se aventuravam a tal risco. Contudo, era frequente ver a fumaça em cogumelo que progredia no intervalo entre a porta e o tecto, já para não falar das sentinelas que vigiavam a porta, enquanto se tentava abafar o impossível. Era uma animação! O pior era mesmo não se conseguir ir à casa-de-banho.

    De facto, há momentos de sorte inexplicáveis. Uma vez só não faltei a um exame das Belas-Artes, por mero acaso. Ter-me-ia feito muito transtorno. Pensarmos que possuímos um domínio sobre a vida, é pura ficção.

    Beijinhos

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    1. Lembro-me que de facto o teu pai fumava muito; muito mais do que o meu. O meu avô também, fumava logo de manhã, ainda na cama. A minha avó era uma fumadora passiva, claro. Eu não consigo sequer estar num ambiente como esse que descreves da casa-de-banho do liceu, prefiro sair logo.

      Não me recordo, de momento, de nenhuma situação determinante que se tivesse passado comigo, dessas de vida ou de morte, mas tenho o máximo respeito; é arrepiante pensarmos que podemos muitas vezes depender de segundos.

      Beijinhos, Madalena

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  5. Claro que sim. Contudo, não devemos ganhar medo, mas sim, estarmos atentos, não descurando os sinais e o nosso instinto. De resto, há que disfrutar com virtude e em harmonia, e tudo correrá bem.

    Soyez heureuse!

    Bisous

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    1. Nem penso nisso em relação a mim, mas sim aos que me são próximos.
      Coração ao largo, que viveremos melhor. A preocupação nada mudará.

      Obrigada, querida Madalena; também tu.
      Beijos

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