Atalhos de Campo


14.3.16

Chapim-real

Encontrei-o atordoado no chão do alpendre, a pedalar de patas para o ar, esforçando-se sem êxito para se pôr de pé. Olhei em volta, temendo a proximidade de algum cão, ou, pior ainda, de um dos gatos. Duraria segundos. Devia ter acabado de acontecer: um voo mal calculado, o embate no vidro e a queda desamparada. Era um passarinho mínimo, já adulto, magnificamente colorido. Uma risca preta dividia as penas amarelas do abdómen como se de um risco ao meio se tratasse, mas ao voltá-lo para o aconchegar na mão, encantou-me a máscara branca que sobressaía abaixo dos olhos muito negros, redondos como pequenas contas, que me fixavam. Senti-lhe as patas a agarrarem-me os dedos, e, sempre com ele na mão, fui buscar e forrei de palha uma gaiola onde ele pudesse recuperar. Devo ter demorado nem dez minutos nesta operação, enquanto lhe falava baixinho para o tranquilizar. Quando o coloquei lá dentro empoleirou-se imediatamente, exibindo toda a beleza das pequenas e vigorosas asas. As penas da cabeça ganharam tal volume que parecia que lhes tinha sido aplicado gel e a cauda empertigou-se, numa postura de regresso à vida. Não demonstrou medo nem me pareceu ter ficado assustado enquanto me deliciei a observá-lo com o rosto encostado às grades. Li hoje que estes pássaros são bastante arrojados, vindo inclusive comer à mão, nos parques das cidades. Ao elevar a gaiola para lhe mostrar o céu, a criatura maravilhosa que eu tinha à frente saudou a luz, com um piar de guerreiro. Já recuperaste, pensei. E sem mais demoras me dirigi para a pimenteira e lhe abri a portinhola. Em segundos a atravessou com agilidade, cortando o ar e desaparecendo por entre a folhagem. E foi também em segundos que todas aquelas cores se voltaram a camuflar na natureza, e em que o seu canto, a pouco e pouco, nela se diluiu.  

18 comentários:

  1. Que seja feliz e viva o pássaro que hoje libertaste. Os pássaros humanos que libertamos nem sempre se mostram tão agradecidos.

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    1. Desta vez viveu, tenho a certeza; outra certeza que tenho é de que não há pássaros humanos, por isso não deve haver a ilusão de libertá-los (nem tão pouco de alguém se julgar pássaro).

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  2. Sorte a dele e da Teresa também. História de salvação e emoção. :)

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    1. Há coisas que parecem postas no nosso caminho, para que caminhemos. :)

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  3. aqui há finais felizes. gosto tanto.

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    1. e não há em todo o lado?
      é só preciso não ver televisão.

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  4. Até nós ganhamos asas nesses momentos Teresa.
    Há coincidências curiosas nesta vida, dê uma vista de olhos: http://pensamentosdeumagaja.blogspot.pt/2016/01/o-chapim-real.html
    Beijinho

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    1. Se ganhamos. Eu achava que ia correr mal, mas a evolução foi tão rápida que voei com ele, confesso.
      Que ternura as fotografias, GM. O teu parece-me de facto um passarinho muito jovem, ainda a aprender a voar. Sorte!
      Beijinho

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  5. Que belo texto, Teresa! De tal maneira que nem sei o que lhe acrescentar, aliás nada, que só iria estragar.

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    1. Pois,...agarra bem no Pintas da Silva, (s'il...)
      vous plaît.

      Obrigada (por teres agarrado).

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  6. O chapim-real presenteou-te. Pudeste contemplá-lo de tão perto, salvá-lo e devolvê-lo. É quase um ai! ai! Estava a brincar. Era só para te dizer olá!

    Que sorte real!
    Descansa bem:)

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    1. Não foi mais do que isso: Ai! ai...

      A sorte real do chapim!
      e de mim :)

      Boa noite, querida Madalena.

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  7. A tua história a almoçar comigo, querida Teresa, que boa companhia!
    Faz-me bem vir sentar-me aqui, a saborear este blogue.
    Um abraço apertado, e agradecido.

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    1. Fui ver o passarinho ao google, é tão lindo!
      :-)

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    2. Agora que tinha vindo aqui para a frente com a minha chávena solitária de café, eis que te encontro, e que bom encontro, Susana. Tomemos o café juntas, a ouvir uma sinfonia de pássaros com chuva de fundo, e a D. Esmeralda a
      deitar o rabinho do olho, parece que a estou a ver a ajeitar os óculos, meninas querem mais alguma coisa?
      Um abraço apertado, embaciado, comovido, "horroroso", querida Susana, mas tão agradecido.

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  8. É comovente de tão bonito; e o canto também é bonito. Agora ando a tentar identificar os pássaros pelo canto. O Google é precioso para isso. :)

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  9. desconfio que acordo com um casal de chapins, barafustam quem leva os miúdos à escola :)

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