Atalhos de Campo


3.3.16

céu estrelado

Saí há pouco para desentorpecer as pernas. Ao vislumbrar a casa envolta em noite e estrelas, lembrei-me do meu pai. Havia no céu uma luz fixa diferente, um planeta mais próximo da terra de brilho intenso, escolhi-o, como se fosse ele. E naqueles segundos de limpidez gelada, lembrei-me de um jogo que fazíamos muitas vezes os dois. A certa altura de uma conversa qualquer que estivéssemos a ter, acabávamos por pegar numa ideia a que achávamos graça e começávamos numa esgrima em cascata, num encadeado de diálogo hilariante que nos levava à gargalhada durante muito tempo até esgotarmos completamente o assunto, exaustos de tanto rir. E valia tudo, mas tudo mesmo, menos ser mal-educado. 

8 comentários:

  1. "Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
    o sono - a ausência não te apaga como a bruma
    sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
    meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
    um país de verão aonde não chegam as guinadas
    da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

    nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
    que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
    chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
    lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
    ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

    depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
    e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
    escuro desse sonho. Não sabem

    que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
    nome - porque a memória é uma fogueira dentro
    das mãos e tu onde estás também não me respondes."

    Maria do Rosário Pedreira / Pai, Dizem-me que Ainda Te Chamo


    No céu, há sempre uma estrela mais brilhante ou um planeta de brilho mais intenso que nos devolve, por instantes, o que já fomos um dia.

    Um abraço apertado, minha querida Teresa, e um dia de sol maravilhoso :)

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    1. "Permite que feche os meus olhos,
      pois é muito longe e tão tarde!
      Pensei que era apenas demora,
      e cantando pus-me a esperar-te.

      Permite que agora emudeça:
      que me conforme em ser sozinha.
      Há uma doce luz no silêncio
      e a dor é de origem divina.

      Permite que volte o meu rosto
      para um céu maior que este mundo,
      e aprenda a ser dócil no sonho
      como as estrelas no seu rumo."

      Cecília Meireles/ Serenata

      Um abraço apertado, e uma noite divina

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  2. São esses momentos, esses encontros inesperados que num ápice nos fazem religar, envolvendo-nos calorosamente com algo que parecia ter morrido, mas que estava apenas adormecido. Algo que parece estar lá sempre a ver-nos e que nos conforta, afastando-nos de qualquer medo. Não sabemos o que é, mas existe e tem uma energia muito própria. E quando menos esperamos, surpreende-nos.

    O humor, a sensibilidade, a fleuma, o charme, e uma educação segura de limites bem delineados são características dos R.S. O teu pai era muito bem parecido e claro, muito charmoso... Mas, o que sempre mais perscrutei foi um universo refúgio, mitigado em silêncio, num bonito silêncio, que os trespassava do antes de tudo, projectando-os para um além, sempre mais além tão próprio e até inatingível...

    Com um abraço bem apertado
    Madalena

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    1. É verdade, querida Madalena, eram como gatos vivendo num mundo à parte, céus estrelados em noite silenciosa; porém concediam, ocasionalmente, a benesse da sua óptima companhia. Lá continuam.

      Bonito como um abraço.

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  3. Passa...tempo

    Passa tempo...passa, passa!
    Tempo que passa, é tempo?
    Passa, passa, meu tempo passa...
    -Que outro virá que já não passa!

    Será tempo, o tempo que passa?
    Passa tempo, ou já não passas!
    Passa então em passa...tempo
    Assim sendo ainda é tempo que passa!

    Passa tempo, passa, passa...
    Olho-te assim como passa...tempo
    Mas:

    Tempo que assim passa...
    -Já não é fruto é passa.

    Manuel Maria R.S. Jr. Abril/92

    Com o característico humor negro

    Beijinhos

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    1. Não sabia desta veia poética do teu pai.
      Fica-se assim...a olhar para a uva, mas não pode ser durante muito tempo. :)
      Humor negro, claro, sempre. Retive uma das suas últimas afirmações: "Eu gosto de cá andar."

      Beijinhos, Madalena

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  4. É verdade, ainda te lembras.
    Ele tinha um carinho especial por ti. Ele adivinhava-te. Ele sabia que a alma feminina mais terna e sensível, era passível de compreender melhor o seu universo.:)

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    1. Belo, mais uma vez, querida Madalena. Ele era o meu tio preferido, ele e a tia Teresa. Tão inteligente, sempre a sorrir, numa doce ironia. Muito especial. Perscrutava-o em silêncio, deixava que aquela onda boa que emanava dele me invadisse, mas fiquei muito aquém de o conhecer, nas poucas vezes que acabámos por estar juntos. E tenho pena. Teria certamente aprendido muito com ele. :)

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