Atalhos de Campo


11.3.16

As falas de Teresa (6)

João:
Teresa aqui está, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?

João Cabral de Melo Neto/Os Três Mal-Amados



Hoje fotografei flores. Sentei-me no chão, aproximei-me delas, da sua alma. Eram de seda, de veludo, eram azuis, transparentes, tinham luz própria. Senti-as. Algumas tinham murchado, desde a última vez. Essas eram eu. Como dizer-to?

17 comentários:

  1. "O verão
    ensina a mesma prece
    à papoila e ao monge."

    José Tolentino Mendonça

    E não será a vida uma sucessão de nascimentos?

    Um beijinho e um sábado pleno de belos instantes :)

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    1. Acho que é, claro, mas também é preciso que ambos consigam ver isso, o João e a Teresa. O verão ensina a prece, mas sabe que a papoila e o monge a apreenderão de modo diferente. O monge levará mais tempo a entendê-la, vários verões, suponho. E pode acontecer que nunca consiga pô-la em prática tão bem como a papoila, resignada em ser isso mesmo, e nada mais.

      Um beijo cheio de sol :)

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  2. “Tomás compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora”

    Recorrendo à "Insustentável leveza do ser" para a cumprimentar saudosamente.
    Boa tarde, Teresa.

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    1. "Os homens que têm a mania das mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher tal como ela lhes aparece em sonhos, o que é algo de subjectivo e sempre igual. Aos outros move-os(...)
      A obsessão dos primeiros é uma obsessão "lírica"; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque, como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra."

      Recorrendo à sua ideia de usar Milan Kundera, no mesmo livro, mas desta vez para explicar as falas de João.
      Quanto às metáforas concordo consigo, só se podem usar quando falamos a sério...
      Boa semana, Impontual, que bela visita.

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  3. As flores, desde que não sejam cortadas, renovam-se. A seiva dos caules não tarda a originar vida, de novo.

    Beijos, Teresa beija-flor :)

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    1. Qualquer jardineiro sabe que quanto mais se cortarem as flores mais flores virão; mas não é assim em todos os casos, há pés que só dão uma flor, e essa única flor deve ser acarinhada, como bem sugeres.

      Beijos, Maria-Colibri :)

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  4. "Deu a mão a Olívia para a ajudar a erguer-se. Ao contacto daquela epiderme quente, teve um estremecimento agradável. E quando, lado a lado, desceram as escadas devagar, ele sentiu como nunca que estava perto de um ser humano, de alguém que era, que existia, de maneira profunda, integral, que não constituía apenas uma soma de vaidades, de atitudes, de desejos de parecer."

    "Olhai os Lírios do Campo" de Érico Veríssimo

    Nem a propósito. Li-o com catorze anos, mas nunca esqueci a sua intensidade.
    Murcha, Teresa? Não! Vejo-te assim, como esta Olívia, à conquista de uma Teresa inteira, que busca o pacto com a verdade, na natureza intrínseca de todas as coisas. O brilho inigualável do lírio de outrora dá lugar ao entendimento, à serenidade e até à compaixão que apazigua. Renasce-se e renasce-se... Haverá outra maneira de se conseguir ser feliz? Penso que não.

    Brilharás sempre*
    Beijinho

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    1. "Fechou o álbum. Tinha a impressão de que morreria de velho sem desvendar de todo o mistério de Olívia. Não conhecera em toda a sua vida criatura tão humana na sua presença física, nos seus actos, nas suas palavras e nas suas intenções. Mas por outro lado o seu desprendimento, a sua falta de egoísmo davam-lhe um carácter inumano. Não tinha parentes vivos. Pouco ou nunca falava no seu passado. Rasgara todos os papéis que pudessem guardar lembranças desse tempo. Só aquelas fotografias diziam alguma coisa dele..."

      Puseste-me a reler "Olhai os Lírios do Campo". Devo tê-lo lido com a mesma idade que tu, e há dois anos, precisamente por esta altura, voltei a pegar-lhe. Lembrei-me dele exactamente por causa dos lírios do campo...é um livro muito triste, responsável por grossas lágrimas que ainda devem estar marcadas em algumas páginas.
      As pessoas só são mitos porque os outros fantasiam sobre elas.

      Um beijinho, querida Madalena.

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  5. Pois, eu calculei. Nessas férias grandes, dos treze para os catorze anos li-o duas vezes. Traduziu-se numa dura revelação sobre o amor. Tudo tresandava a verdadeiro, não havia volta a dar. Mas afinal, o amor não era um príncipe que me viria resgatar um dia, arrebatar-me num encantamento eterno?! É que isso estava dado como garantido. Que grande decepção e logo no Verão. E tu, querida Teresa, não estavas lá para me acudir. Restava-me ver a praia, e escutar os murmúrios do mar.

    Em parte, concordo contigo, mas também são os mitos que nos empurram para a frente, ousam gritar, confirmando em voz alta o que já sabemos e pensamos, e não temos a coragem de assumir.

    Beijinhos

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    1. Não te acudiria, Madalena, porque não saberia...talvez ficássemos as duas a olhar para o infinito. Esta é para mim a história de um triste desencontro.

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  6. Claro que não saberias. Às vezes brinco, porque temos a mesma idade...:)(:

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  7. Na verdade, acho que terias sempre alguma ideia sobre: Mmm, certamente! Penso mesmo, a sério.

    T57M57+1Enigma Ah! ah!

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  8. Paciência!57
    Dorme bem, querida Teresa

    57+1:)

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