Atalhos de Campo


4.3.16

As falas de Teresa (5)

João:
Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar do sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).

João Cabral de Melo Neto/Os Três Mal-Amados


Já não sonho. Poucas vezes choro. Poucas vezes as lágrimas me levam ao sonho perdido. Apenas vivo. Existo apenas. Visito o passado, onde todos os sonhos eram possíveis, como quem vai a um cemitério de sonhos. Todos os dias tomo banho e me arranjo, antes de lá entrar. Não quero desiludir-me. Cumpro o horário, abro umas gavetas, deixo entrar o sol que ilumina uma coluna oblíqua de pó suspensa no ar, que pousa sobre a cama do meu antigo quarto. Os pássaros mudaram-se para o presente. O sonho é agora um deserto. Tenho sede.

6 comentários:

  1. "Caminho sem pés e sem sonhos
    só com a respiração e a cadência
    da muda passagem dos sopros
    caminho como um remo que se afunda.

    os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
    para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
    avanço sem jugo e ando longe

    de caminhar sobre as águas do céu."

    Daniel Faria / Caminho sem pés e sem sonhos

    Um beijinho, querida Teresa, cultiva o teu jardim :)

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    1. "Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa
      e debaixo para cima.
      Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
      Quem leia, se ler, aprenda:
      alguém anda sobre as águas,
      alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
      As águas atravessam os espelhos.
      Leia-se à luz que vem da águas."

      Herberto Helder/ Do Mundo

      Um beijinho, querida rosa

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  2. Noite de Sonhos Voada
    Noite de sonhos voada
    cingida por músculos de aço,
    profunda distância rouca
    da palavra estrangulada
    pela boca armodaçada
    noutra boca,
    ondas do ondear revolto
    das ondas do corpo dela
    tão dominado e tão solto
    tão vencedor, tão vencido
    e tão rebelde ao breve espaço
    consentido
    nesta angústia renovada
    de encerrar
    fechar
    esmagar
    o reluzir de uma estrela
    num abraço
    e a ternura deslumbrada
    a doce, funda alegria
    noite de sonhos voada
    que pelos seus olhos sorria
    ao romper de madrugada:
    — Ó meu amor, já é dia!...

    Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

    Abraço Teresa

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    1. "Traze-me um pouco das sombras serenas
      que as nuvens transportam por cima do dia!
      Um pouco de sombra, apenas,
      - vê que nem te peço alegria.

      Traze-me um pouco da alvura dos luares
      que a noite sustenta no meu coração!
      A alvura, apenas, dos ares:
      - vê que nem te peço ilusão.

      Traze-me um pouco da tua lembrança,
      aroma perdido, saudade da flor!
      - Vê que nem te digo - esperança!
      - Vê que nem sequer sonho - amor!

      Cecília Meireles/ Murmúrio

      Que lindo, GM, até apetece ser feliz.
      Um abraço voado

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  3. Querida Teresa, ainda bem que achaste o João demasiado falador. De facto era injusto, não só porque se entendem tão bem, como acabam por se acrescentar tanto! Acho que já não vão poder viver, um sem o outro.

    Olha! Teresa. Vejo-te assim, como uma crisálida prestes a irromper uma linda borboleta, uma borboleta branca, renascida, forte que ama e está quase pronta para ser amada, quase, senão, não seria ainda crisálida.

    Beijinhos crisalinda:)

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    1. Espero que não seja uma borboleta da couve, senão o João seria a couve...:)

      Ainda não sei o que isto vai dar, mas não estou optimista; completam-se mas são demasiado diferentes, cada um falando com os seus botões, dentro da casa.
      Registei o que escreveste, que é lindo, vamos ver.

      Beijinhos borboleta desabrochada pairando :)

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