Atalhos de Campo


10.2.16

tábua rasa

(...)
Os anjos(diz-se) muitas vezes não saberiam
se andavam entre os vivos ou os mortos. A eterna torrente
arrasta sempre em rodopio todas as idades por
ambos os reinos e em ambos se sobrepõe às suas vozes.
(...)
Rainer Maria Rilke/A Primeira elegia 
Elegias de Duíno



Rilke perguntou de onde vêm os anjos,
ou o seu grito; mas não é essa a questão. O grito
dos anjos confunde-se com a nortada
que empurra os ramos contra 
as janelas, quando estamos no campo; e 
entra-nos pela cabeça, como se o céu descesse
até nós pelas mãos sombrias das nuvens
que anunciam o inverno da alma. Mas
podemos calar esse grito, abafar a sua 
ânsia de nos dizer alguma coisa, na língua
que só eles entendem, se pusermos por cima
do seu sopro a voz de quem se ama, sobrepondo
ao trovão dos deuses o único canto de ave
deste verão, quando abriste a janela e o sol
vencia a névoa da madrugada. E
talvez nesse instante em que os anjos se calam
se possa ouvir apenas o silêncio,
como a música que enche o vazio
depois do amor.

Nuno Júdice
Breve nota à Primeira Elegia de Duíno 

4 comentários:

  1. O amor é um fazedor de anjos. A não ser que os anjos sejam negros e, aí, surjam dos sentimentos menos nobres.
    (adoro Arvo Pärt)

    Beijos, Teresa, com silêncio musical. :)

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    1. Serão belos os anjos, como diz Rilke, mas:"Pois o belo não é mais do que o começo do terrível, que ainda mal suportamos, e deslumbra-nos assim porque, imperturbado, desdenha aniquilar-nos. Todo o anjo é terrível."
      "Todo o anjo é terrível", afirma, talvez porque dele esperamos o melhor, mas todo o anjo branco tem também como reverso o seu anjo negro. Numa coisa concordo contigo, é provável que os anjos negros não tenham reverso, daí que seja, de facto, importante evitá-los. :)

      Beijos Maria, num coro de anjos (brancos).

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  2. Os que não são anjos estão votados à descontinuidade. Para nós, anjos caídos, a experiência da Beleza é condicionada, perene, dá-se por via indireta, através da poesia, da música, da pintura, da natureza. É transitória e intermitente. Mas se assim não fosse, a Beleza tornar-se-ia dolorosa. Uma flor que não murcha torna-se medonha. Uma música que não cessa transforma-se em sofrimento. A morte e a aniquilação são necessárias para a existência da beleza. Não existiriam anjos brancos se não existissem anjos negros. Para termos asas temos de aprender a caminhar sem elas.
    [Desabafo de uma Anja Morena]

    Um beijinho angelical :)

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    1. "(...)
      Louva ao anjo o mundo, não o indizível, ao anjo
      não podes impor o que sentiste de magnífico;
      no universo, em que ele sente sentindo mais, és um noviço.
      Por isso mostra-lhe o simples, o que, formado de geração em geração,
      vive como algo nosso, junto à mão e no olhar.
      Diz-lhe as coisas. Ele ficará mais espantado; como tu estavas
      com o cordeiro em Roma, ou com o oleiro do Nilo.
      (...)"
      Rilke, A Nona Elegia

      Um beijinho terreno, querida Miss Smile.

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