Atalhos de Campo


4.2.16

platónica

Não sabia determinar a altura exacta em que tudo começou, mas agora que me dediquei a pensar nisso, acho que nasci de uma série de coincidências que levaram ao encontro fortuito de um par de genes acossados. Não se tem culpa disso. Nasce-se assim recessivo, embora dominante, de outro modo nem sequer se nasceria. Digo-te isto agora por causa da nossa conversa de ontem e da minha afirmação a certa altura, como sabes sou muito céptica, e agora quase niilista. Não me orgulho de sentir isto, mas orgulho-me de te ter dito a verdade. Portanto eu encarei o mundo, desde que é possível encarar o mundo, com o olhar de um ser geneticamente impossível. Noites havia, e foram muitas na minha infância, em que não dormia com medo da morte, não da minha, mas da morte dos meus pais. De tanto amor que lhes tinha, chorava angustiada, antecipando sem razão aparente esse hipotético pesadelo da perda. Dias havia em que a pura consciência do sentido da visão me deixava numa espécie de transe, e que, de tão encantada com a grandiosidade do que podia ver, me sentia irreal. Amava os meus irmãos, amava o nosso núcleo, a nossa coesão. No entanto a vida consiste numa série de clivagens, e eu sofri várias, o que, para alguém como eu, teve a dimensão de um cataclismo. A primeira, forte como um raio, separou-me de todos por vários anos. Senti-me culpada, rejeitada, feia. A partir daí fui uma adolescente bonita que viveu como uma feia, e depois uma mulher bonita e insegura. A beleza nunca é suficiente, e além do mais é muito subjectiva, como sabes. Pode ser um estigma ou uma bênção. A beleza atrai a cobiça e ofusca todas as outras qualidades, reduzindo-as a uma insípida insignificância, aligeirando-as até à inconveniência. Quem é atraído pela beleza exterior jamais valorizará o resto, a não ser que consiga superá-la. É amada ou odiada, e por vezes amada e odiada. Eu superei-a, habituando-me a analisar o que me estava a acontecer, quais as verdadeiras razões que me faziam atrair um determinado tipo de homens, por exemplo, e com isso aprendi a defender-me, a esconder-me por trás de uma máscara, não valia a pena ser de outro modo. Aprendi a minha solidão em paralelo. Lembro-me de mudar de passeio se via um grupo de rapazes a caminhar na minha direcção; lembro-me do asco que sentia das apalpadelas dos rapazes, da sua imbecilidade, do nojo e do visco que deixavam em mim as palavras vulgares dos homens, como se quisesse limpar a baba de uma lesma da pele, sem conseguir. Na adolescência a amizade pode ser confusa, pode ser uma transferência do amor pela família, um alargamento da área desse amor. Pode ser um caminho penoso, pode ajudar. A mim ajudou-me, fui dando passos seguros na afectividade exterior, mas perdi o rasto a essas e a esses amigos, até de ti, a minha melhor amiga, eu perdi por muitos anos o rasto. A amizade é assim, agora sei, mas também supera tudo, o tempo, a distância, diferenças de todo o género, menos a traição, a deslealdade. Aguenta-se intacta, retoma-se a qualquer momento, perfeita e conservada em cumplicidades, risos, partilhas, desgostos, agora também sei. A falta da amizade e a incapacidade de fazer novos amigos pode deixar sequelas tão graves como a apatia, a falta de amor pode pôr em causa o amor-próprio, também aprendi isso com o tempo. Não podemos ser mais diferentes, tu e eu. Eu quero estar aqui. Tu queres mover-te para muitos sítios. Eu ficarei aqui, tu mover-te-ás para muitos sítios. Fico contente se não te magoares, e digo-te, atenção, as pessoas não são tão boas como te parece, ou, às vezes são melhores do que parecem. Ficas preocupada porque eu quero estar isolada. Chegas radiante de Paris e dizes-me ao telefone eu gosto de estar in situ, enquanto te falo do blogue e do que faço com entusiasmo, in situ. Mais que tudo descobri, finalmente, minha amiga, que agora chegou o momento de iniciar a viagem de regresso, e de voltar a aproximar-me dos meus cromossomas, mas que também gostava que isso não te afastasse de mim.         

Para a B.

4 comentários:

  1. talvez nã se chegue a perder, apenas levem outros rumos, mares muito diferentes, águas que se tornam imiscíveis pelo tempo... mas mesmo o que nã se mistura, tem uma fase em contacto.

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    1. tão belo, é isso mesmo a amizade...não é uma maionese. :)

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  2. É certo que a amizade poderá ter prazo de validade se não for alimentada, mas se houve empatia, cumplicidade, um elo especial, então o tempo passa a ser relativo e a amizade pode ser retomada. A memória do sentimento e identidade não desaparece, apenas se atenua.

    Com muita amizade :)

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    1. Tolerância, é uma boa palavra em relação à amizade. E prefiro pensar que a amizade está sempre presente, mesmo que a frequência com que os amigos se contactem tenha oscilações, e que isso é normal que aconteça.

      Com muita amizade :)

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