Atalhos de Campo


26.2.16

Os pássaros não sabem chorar



Ela voltou para mim aquele olhar redondo de laranja que não viu o vidro a dividir o céu ao meio. Peguei-lhe e ficou inteira na minha mão de ninho. No aconchego falei-lhe sobre as árvores em voz de brisa alta. Era ainda jovem, talvez não tivesse percebido. Fiz uma força única para lhe lhe moldar as asas de ar. E ela olhava-me com aquele olho de pôr-do-sol, enquanto lhe fazia o curativo passando uma pequena nuvem de algodão sobre o sangue da ferida ainda quente. Desconhecia desconforto ou dor e foi-me entregando o seu destino. Não tentou defender-se com a única espada que tinha, talvez por ser a rainha do horizonte. Saí de casa e procurei um sítio vago. Quando lhe devolvi as asas voou entre os pinheiros que logo se arrepiaram, soltando agulhas. Depois ficou pousada a olhar para mim e todas as rolas voaram ao mesmo tempo abrindo-se como leques, antes da noite.


2 comentários:

  1. Gostei muito deste texto e como tal, vou soprar uma imagem.

    "Quando lhe devolvi as asas voou entre os pinheiros que logo se arrepiaram, soltando agulhas".

    Às rainhas do horizonte

    A tua janela parece uma pintura impressionista. A minha corrente preferida.:)

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    1. Eu também gosto deste texto. Foi uma maneira que arranjei para dizer: eu hoje salvei uma rola, como se fossem todas as rolas. Depois vim para casa, começou a chover e a árvore desbotou para o vidro. Afinal era feita em tinta-da-china. :)

      Às rainhas do horizonte!

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