Atalhos de Campo


9.2.16

O Carnaval triste



Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um Carnaval todo subjectivo:
Um Carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...


Quando o acabei,- a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta morta-cor
Da senilidade e da amargura...
-O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...

Manuel Bandeira/ Epílogo



6 comentários:

  1. Porém, essa flor erguida sob o azul do céu nada tem de triste!

    Beijos, Teresa, sem máscara nem tristeza. :)

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    1. Eu acho-a triste e alegre...uma particularidade que só algumas flores conseguem ter.

      Que bons beijos, Maria. Beijos também para ti, desses. :)

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  2. "Distante o meu amor, se me afigura
    O amor como um patético tormento
    Pensar nele é morrer de desventura
    Não pensar é matar meu pensamento.

    Seu mais doce desejo se amargura
    Todo o instante perdido é um sofrimento
    Cada beijo lembrado é uma tortura
    Um ciúme do próprio ciumento.

    E vivemos partindo, ela de mim
    E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
    Para a grande partida que há no fim

    De toda a vida e todo o amor humanos:
    Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
    Que se um fica o outro parte a redimi-lo."

    Vinicius de Moraes / Soneto de Carnaval

    Um beijinho amigo, na alegria e na tristeza

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    1. "Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
      Íamos, por entre a turba, com solenidade,
      Bem conscientes do nosso ar lúgubre
      Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
      Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
      Que nos penetrava...Que nos penetrava como uma espada de fogo...
      Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!

      E a impressão em meu sonho era que se estávamos
      Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
      -Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!

      Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
      Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
      Passavam préstitos apoteóticos.
      Eram alegorias ingénuas, ao gosto popular, em cores cruas.
      Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
      De peitos enormes - Vênus para caixeiros.
      Figuravam deusas, - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.

      A turba, ávida de promiscuidade,
      Acotovelava-se com algazarra,
      Aclamava-as com alarido.
      E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

      Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
      O ar lúgubre, negros, negros...
      Mas dentro de nós era tudo claro e luminoso!
      Nem a alegria estava ali, fora de nós.
      A alegria estava em nós.
      Era dentro de nós que estava a alegria,
      -A profunda, a silenciosa alegria..."

      Manuel Bandeira/Sonho de uma terça-feira gorda

      Um beijinho alegre por dentro, Madame Smile.

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  3. Infunde-me uma flor velada. É enigmática. Leva-me até às pétalas de uma flor que se estampam num livro, como que a querer agarrar o momento, que para sempre passou, onde o vermelho passa a carmim e que se encontra por acaso, como um bilhete de cinema antigo esquecido, a marcar as páginas de um livro. Essa flor não tem idade, terá sempre a mesma idade, a idade da sua história.

    Carmim :)

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    1. Procurei-lhe a luz e achei-lhe esta cor. Havia mais fotografias, igualmente focadas, mas esta era "ela". As flores desta trepadeira são cor de laranja intenso. Tens razão, esta não tem volume, é triste na sua antiga alegria. Secou antecipadamente e assim conservou a sua máscara.

      Alma carmim :)

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