Atalhos de Campo


25.2.16

memória. curta # 16

A Vodka arfava ligeiramente e os seus olhos, castanhos e brilhantes, transmitiam uma angústia que saltava dos donos para mim, e voltava a saltar para os donos, enquanto a bola que a acompanhava permanecia inerte sobre a marquesa. As patas traseiras repousavam rígidas lado a lado, o corpo deixou-se percorrer pelos meus dedos da mão direita que deslizaram inteiros sob o pêlo encaracolado e áspero sentindo-lhe as costelas, até agarrar com ambas as mãos os membros anteriores para os elevar ligeiramente, pousando-os de novo por perceber que cairiam sem acção. O pescoço, unicamente apoiado, conseguia manter a cabeça em posição; só as orelhas (que quebravam para a frente), sustentadas pelas cartilagens, conservavam o aspecto atento de sempre quando ouvia a palavra mágica - que significava brincar, saltar, correr, jogar - impossível de ignorar para um Fox terrier. Ficou assim, disseram os donos, quase ao mesmo tempo, não sem a voz lhes tremer. Foi muito rápido, continuou a dona, parecia ter falta de força nas patas de trás, mas depois parecia estar melhor, e agora já não consegue andar, não come, não bebe água, e ontem nem ladrou quando sentiu movimento na escada; hoje verifiquei que também está afónica. O problema são os miúdos, agora estão na escola, e se não houver nada a fazer queremos que se ponha fim a este sofrimento, não conseguimos vê-la a morrer aos poucos, todos os dias. Ainda no fim-de-semana passado correu e saltou, já notámos que se cansava, mas não ligámos muito...e, dizendo isto, um soluço engoliu-lhe a palavra, enquanto as mãos procuraram rapidamente a cabeça da Vodka para lhe fazer uma festa, sufocando o choro. Foi a vez do marido se dirigir a mim, enquanto pousava a mão quase imperceptivelmente sobre a da mulher, tentando confortá-la: faça tudo, nem quero pensar no desgosto que vai ser lá em casa quando os meus filhos chegarem e não a virem. Se correr mal, podemos...dizer que ficou internada por estar muito doente, completei, evitando a palavra eutanásia. Mas ainda é cedo para nos precipitarmos em conclusões tão pessimistas, disse. Embora pareça muito grave, e é-o com certeza, temos primeiro que lhe fazer o exame clínico, para tentar chegar a um diagnóstico. A ansiedade impediu os donos de abandonarem a clínica enquanto a Vodka fazia análises e Rx. Tudo estava dentro da normalidade. Ao fim da manhã havia já uma hipótese de diagnóstico, ainda que nessa altura não existisse mais nenhum exame para obter a confirmação, e também, mesmo que houvesse, não poderíamos perder mais tempo, teríamos sempre que iniciar alguns procedimentos com brevidade, para a tentar salvar. Contei aos donos que, em Paris, de onde tinha chegado há uma semana, assistira à evolução de um caso clínico idêntico, e que suspeitava tratar-se de uma polirradiculoneurite infecciosa. Ia dar trabalho, e era preciso não desistir às primeiras contrariedades, porque iria levar pelo menos três semanas a melhorar. Confessei que em vários anos de clínica nunca me aparecera um caso daqueles, que também punha reservas quanto à evolução, e que tinha algumas dúvidas, não podendo garantir nada. Tentemos, disseram em uníssono os donos. Ela merece tudo, é inteligente e amiga, é mais uma filha que aqui temos do que um cão, até tenho vergonha de o dizer, comentou a dona, agora com uma centelha de esperança a iluminar-lhe o olhar e a voz. Para além do tratamento médico, a Vodka vai ter que ficar pelo menos três semanas suspensa, apenas com a ponta dos dedos a tocar o chão, para que os músculos não atrofiem mais, e para estimular a parte neurológica, declarei, não há outra hipótese. E é muito importante nesta fase evitar-lhe qualquer stress. Tivemos todos que improvisar, e os donos montaram uns cintos presos sob a mesa da casa de jantar, onde ela ficava pendurada toda a noite. De manhã traziam-na para tratamento e permanecia todo o dia numa jaula a soro, suspensa numas cintas adaptadas para o efeito. No início a cabeça pendia, sem acção, e era preciso também assegurar a sua postura, para que não sufocasse. Durante duas semanas a Vodka foi melhorando ligeiramente; ao fim da terceira semana já se alimentava sozinha e teve alta. Quinze dias depois veio à consulta de seguimento. Quando abriram a porta do consultório, surgiu primeiro a cabeça da dona, que espreitou e sorriu. Sentada à secretária, vi entrar a Vodka sozinha e a andar com dificuldade, com os membros ainda muito hirtos, mas pelo seu pé. Mal me levantei e fui ao seu encontro, abanou a cauda, desafiando a energia anterior. Eu tinha afirmado que se visse aquela cadela a andar, desmaiava. Não desmaiei, mas deve ter sido uma das minhas maiores alegrias profissionais. É que por vezes, não sei explicar como, há empatias que se estabelecem a três dimensões. 

9 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    Obrigado pela partilha.
    Beijo,
    Outro Ente.

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    1. Sei que me entendeu sobre as três dimensões.
      E só por isso valeu a pena esta partilha.

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  2. ... assim não vale, Teresa... não posso vir para aqui chorar.
    (por eles, facilmente me vêm as lágrimas aos olhos. trabalhasse eu na área e andaria sempre a fungar)

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    1. Quando se trabalha nesta área chora-se tantas vezes, flor...
      até que se aprende a disfarçar, para poder chorar sozinho; é o único consolo.

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  3. Quando os casos assim se desenrolam deve ser tão, mas tão bom.

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    1. O que sempre me angustiou, Ava, foi a série ininterrupta de tristezas/alegrias, de tal forma que uma alegria passava rapidamente na consulta a seguir...agora peneiro o tempo, pelo menos esta ficou, e foi como dizes, muito bom.

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  4. Pois, parece que a vida é feita de marés. Maré alta, maré baixa e às vezes praia-mar. Esta foi uma bonita maré cheia Teresa, e a empatia não só ajuda muito, como acrescenta sempre mais qualquer coisa.

    Uma boa maré para ti:)

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    1. Hoje está de tempestade, um belo dia, de chuva forte e rajadas de vento, um dia verdadeiro.
      Sem empatia tudo se perde numa cápsula de gelo; até se pode conseguir o mesmo resultado, mas nunca será a mesma coisa.

      Foi bom ter-te encontrado para darmos este passeio a ver as ondas, Madalena. :)

      Que sorte que temos, e que boa maré, a tua.

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  5. O tempo está impróprio, mas podemos sempre lembrar o cheiro a maresia. Obrigada:)

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