Atalhos de Campo


11.2.16

memória. curta # 15

A Seta parecia um galgo. Fulva, de perna alta e ventre arregaçado, focinho comprido e estreito, rematado por um nariz negro, húmido e brilhante, apontando o infinito. Hoje o porte atlético teria dado origem a um andar indeciso e rígido pela atrofia dos músculos das coxas, o focinho teria encanecido, os olhos turvos pediriam ajuda ao olfacto para reconhecer o próprio dono, e reconhecendo-o, abanaria a cauda, reconhecida. Doutora, a senhora é que a vai baptizar, já que estamos metidos nesta embrulhada, a senhora e eu. Não foi difícil escolher-lhe um nome apropriado, e, como madrinha dedicada, oferecer as vacinas, e a esterilização quando chegasse a idade própria. 

Uns meses antes, ao pequeno-almoço, com o café duplo à frente e um pastel de nata pelo meio, o senhor Manuel viera ter comigo ao balcão, e, meio embaraçado, dissera, Doutora, tem que me arranjar um cãozinho para a cozinheira, um cão que não cresça muito. Acha que consegue? Perguntei-lhe se tinha que ser de raça, que não, que só tinha que ser pequeno em adulto, cão ou cadela, não fazia diferença. Ninguém, ou quase ninguém, oferece cães de raça, mas cachorrinhos vira-lata às vezes arranjam-se, é só esperar que um dia aparecem. E apareceu, sem sequer ter que esperar muito, uma ninhada heterogénea, salpicada de brancos, castanhos e pretos, alguns já com dono, outros, como a Seta, à procura de pais adoptivos. Os proprietários da mãe, uma cadela pequena e vivaça, só queriam arranjar quem cuidasse muito bem dos cachorros. Entregaram-me a cadelinha com dois meses, uma bolinha infeliz num caixote de papelão e muitas recomendações. Era um Sábado, talvez de Novembro, e fiz toda a A 37 até Lisboa debaixo de um temporal, acompanhada pela cachorrinha que tentava em vão consolar pelo seu choro angustiado, ao ver-se de repente privada da mãe e dos irmãos. Reconheço que foi com algum alívio que a entreguei, a ela e a mais uma resma de conselhos, nas mãos do Sr. Manuel.

Temos problema Doutora, disse-me na Segunda-feira seguinte o Sr. Manuel, ainda o pastel de nata estava intacto no prato. A Dona Rosa quer falar com a senhora. E a Dona Rosa apareceu, com a sua cara grande, um enorme sinal junto ao lábio superior e o cabelo hirsuto e grisalho a roçar-lhe o pescoço, com ar de quem sabe muito bem o que quer, e que não, não era que a cadelinha não fosse bonitinha, mas queria um cãzinho, macho e de raça, daqueles branquinhos com o pêlo encaracolado, eu pago, talvez a Senhora Doutora saiba indicar algum criador...o Sr. Manuel não percebeu nada do que eu queria, não é verdade, Sr. Manuel? E olhou-o com reprovação, de maneira a não sobrarem dúvidas. Percebi logo qual era a raça, observando-lhe o cabelo com atenção, e disse-lhe, agora o que fazemos à cadelinha, eu não posso ficar com ela, como sabe já tenho um cão, e gran...mas o Sr Manuel interrompeu-me de imediato. Revelando-se um senhor, assumiu ali o seu erro, e, libertando-me de quaisquer responsabilidades, disse-me que ficava ele com o cão, mas que em casa a mulher não queria animais, portanto ficava ali, como mascote do restaurante.

Fui várias vezes vacinar a Seta, que era meiga e cresceu harmoniosamente, como um pequeno galgo. O Sr. Manuel sacrificou-se e foi tratar dela de propósito todos os fins-de-semana. Aos sete meses cumpri o prometido, e ofereci-lhe a cirurgia. No pós-operatório foi para uma despensa espaçosa e arejada, com uma grande capeline colocada em torno da cabeça, para não arrancar os pontos. Uma semana depois surgia uma cicatriz perfeita. Recomendei que só lhe tirasse o colar dois dias depois de lhe ter tirado os pontos, elogiando a Seta. Fez-se uma bonita cadela, Sr. Manuel, parece um galgo pequeno, vencemos isto, ainda bem! E quer ver Doutora, corre que é uma maravilha! Mal tivera tempo para o contrariar e já ele lhe abrira a porta por onde ela se esgueirara para a rua que dava para um jardim estreito, que se estendia ao longo de toda a avenida. Sr. Manuel, é perigoso...Ela faz isto todas as manhãs, está habituada, veja! E a Seta começou a correr com o colar posto, oscilando-lhe no pescoço magro. O pêlo faiscava como veludo ao sol do princípio da tarde, enquanto dava saltos e corria cada vez mais, afastando-se de nós. A certa altura galgou o passeio, passou pelo espaço entre dois carros estacionados, e correu paralelamente a ele, na estrada movimentada. Impotente gritei pelo seu nome, mas a Seta continuou a exibir a sua destreza até lhe passar a primeira roda por cima, e depois a segunda. Só aí voltou para nós um olhar de espanto, que, petrificados, corremos para ela. Peguei-lhe ao colo e levei-a para o degrau da porta de serviço do restaurante. E foi ali mesmo que me morreu nas mãos, sem um queixume.


Nota: O que aconteceu com a Seta pôs fim a um longo trabalho de adopção de animais que fui fazendo ao longo da minha vida profissional. A cozinheira do restaurante comprou um Caniche que foi assistido por mim até ser velho. O Sr. Manuel, passado o choque, confessou-me um dia, com as lágrimas nos olhos, que já tinha entretanto convencido a mulher a levar a Seta para casa. Que ninguém, algum dia, ouse pensar que os médicos não sofrem.      

10 comentários:

  1. Todas as profissões que lidam diretamente com o sofrimento físico e psicológico são profissões muito exigentes para quem as exerce. Penso que acarretam tanto de compensação como de sofrimento. É preciso ser muito forte para encarar tantas vezes o sofrimento nos olhos. Que triste que fiquei com o destino da Seta :(

    [Doutora, fiquei também curiosa em saber qual o cão que, com base no meu cabelo, combinaria comigo.]

    Um beijinho, querida Teresa

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    1. Antes ou depois do cabeleireiro? :)
      Pede-se descrição sumária do cabelo; resposta na volta do correio.

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  2. Uma questão pertinente essa que me colocas!
    Talvez precise, então, de dois cães - um para os dias com cabeleireiro (manso) e outro para os dias sem cabeleireiro (rebelde). Aguardo as recomendações.

    Saudações capilares!

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    1. Cara Miss Smile:

      Respondendo ao seu pedido, e analisando a instabilidade capilar de V. Exª., recomendamos-lhe que mantenha o gato, Mestre Biju, e desista de ter dois cães, um para se passear nos dias de cabeleireiro, manso e liso tipo Golden Retriever, género ronrom, e outro para os dias "sem", rebelde e encrespado, tipo Mastim Tibetano, género assanhado. Asseguramos-lhe ser bastante mais prático, visto ser o gato 2 em 1.

      Sem outro assunto, e com as nossas melhores mises(-en-scène),
      RecomendaçõesGrátis Lda

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    2. Bom dia minhas Senhoras.
      Bem sei que venho "meter o bedelho" onde não sou chamado, mas permitam-me discordar disso dos gatos. Um gato é volátil. Nunca se sabe bem com o que se pode contar. Ora, o cabelo de Miss Smile é descrito como um bem seguro, do qual ela sabe sempre o que esperar e quando esperar o que espera. Logo, um bom e fiel cão é a solução. Sugiro um labrador. Meigo, afável, calmo e respeitador. E, também, brincalhão, ativo, esperto e leal. O cabelo de Miss Smile é o melhor de dois mundos. O labrador, para mim, também. (E se isto não é uma homenagem à Daisy, será apenas um comentário delico-dog.)
      Bom dia,
      Outro Ente.

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  3. Nem tal coisa me passaria pela cabeça, Teresa, sei bem o quanto sofrem.

    (tadinha da Seta, que triste sina da bichinha )

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    1. Há animais azarados, tal como há pessoas. Uma seta que me ficou cravada, para sempre.

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  4. já fui costurado por uma veterinária e foi muito meiga :) a gente sabe que sofrem

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    1. sempre suspeitei que havia em ti algo de alta costura; agora tenho a certeza.:)

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  5. Hello, Outro Ente

    Entrego em suas mãos o cabelo de Madame Smilenska.
    O conselho de um expert nunca é de desprezar.
    Vejo que percebe do assunto.
    (Não se esqueça que ela tem que estar pronta para o chá das 5, e com o Labrador pela trela;
    a mim parece-me um perigo, dado que tem que levar também o guarda-chuva. Da última vez voou, lembra-se?)

    Tome o talão, querido. Já lha levamos. Ponha-a na cadeira trepidante.
    A menina do balcão.

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