Atalhos de Campo


16.2.16

hierarquias

Observando os dois pardais, soltos em casa, reparo que o mais velho domina o mais novo de várias formas: é sempre o primeiro a comer e a tomar banho, e é sempre ele que come todos os insectos. Mas, o mais insólito, é que ele dorme descansado, escolhendo o poleiro mais elevado, enquanto o outro vigia permanentemente. Se há algum sinal considerado de perigo, avisa, vocalizando de forma particular, saltita inquieto até acordar o parceiro, e voam juntos, mantendo-se alerta. No entanto, se for considerado falso alarme, o dominante emite sinais sonoros de protesto, e na maioria das vezes ataca-o. O mesmo acontece se a agitação e o alvoroço do sentinela parecem ser despropositados. A acrescentar, a constatação de que o dominante deverá ter aproximadamente o dobro do peso do dominado, e que isso se deve principalmente a mais descanso e melhor alimentação.   

12 comentários:

  1. Ai, ai, Teresa, completamente embevecidas com estes dois pardalinhos, fomos demasiado permissivas na sua educação :)
    Mas, se considerarmos que esta é uma relação simbiótica, o que é que o dito mais fraco recebe em troca? Acreditará ele que a sua sobrevivência depende do mais forte? Cá para mim, ele devia era ter esses cuidados de vigilância contigo, quando estás a dormir :) O que faria se se apercebesse que tu é que lhe garantes o sustento, o asseio, a segurança e o serviço nacional de saúde para pardais?

    Um beijinho, Professora Pardal :)

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    1. Querida Miss Smile, é esse o termo, embevecida. E o que tenho aprendido, observando-os...
      O mais fraco não recebe nada em troca, ou talvez só, e apenas, sobreviver. Na verdade ele é obrigado pelo outro a comportar-se assim. Suponho que é dessa maneira que tudo se passa na natureza; e a sua expressão neles é fortíssima, o que de certo modo me tranquiliza, se me resolver a soltá-los.

      Um beijinho apardalado :)

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  2. Isso é o capitalismo aplicado aos pardais! Podia escrever-se toda uma tese de economia política a partir deste post! :)

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  3. Olha, eu acho uma maravilha! É lindo.
    Tanto quanto me é dado a perceber e tal como tu dizes, tudo se resume à expressão infalível da natureza. Na natureza não há confusões, nem pieguices, é tudo muito claro, lúcido, brilhante como uma boa espada. Penso que o pardal maior e porque na natureza o tamanho conta, salvo seja, está apenas a exercer a sua grande mestria sobre o outro, ensinando a arte de bem sobreviver, treinando-o para que fique bem preparado face às ameaças implacáveis vindouras, tal como numa iniciação ou recruta. Esse pardal maior é um grande amigo, o mais amigo de todos.
    Um dia o pardal mais pequeno passará a outro, o seu testemunho.

    Boa recruta Teresa e bom render da guarda :)*

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    1. Ah, a implacável natureza! Eu acho que o pardal maior não é um grande amigo, Madalena, mas antes um competidor, exercendo a sua dominância. No entanto os pardais são gregários, vivem em bandos, precisam uns dos outros. Ficarão mais frágeis se viverem sozinhos, mas entre eles estabelecem hierarquias, tal como os homens, organizando-se entre fortes e fracos. Foi aí que eu cheguei com este atalho, a Cuca tem toda a razão. Ao salvá-los contrariei o processo impiedoso da natureza, tinham ambos caído dos ninhos e morreriam. Concordo contigo quanto à pieguice: foi inventada pelo homem, (bom).

      No fundo acabaram por ser eles a dar-me a recruta :)
      Mas sem sucesso, dado que prevaricarei outra, e outra vez.

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  4. Eu interpreto essa dominância como um protectorado destinado à sobrevivência da espécie, por isso chamei-lhe de melhor amigo, o que ensina exemplificando com firmeza o fundamental. É o instinto. A natureza é perfeita mas está completamente programada.

    Com a hierarquia racional humana é diferente. É mais inventiva. Contudo não acho que tenha de ser forçosamente abusiva. Pode resultar, mas gosto mais de pensar na boa performance de cada uma das partes em função do conjunto. É mais apelativo e responsável.

    Não costumo intervir no processo da natureza. No entanto, se acaso tropeçar numa situação, aí sim, tento resolver. Às vezes acontece e isso é engraçado:)

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    1. Eu também não. Acho maníaco andar à procura de desgraças. Isto aconteceu por dois felizes acasos. Para mim foi um desafio, e fazê-los viver uma recompensa. Mas estou atenta a certos pormenores do comportamento instintivo e tento interpretá-los, admitindo que posso estar errada.

      Beijinhos, Madalena, gosto de conversar contigo. :)

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  5. voltei a alimentar os daqui, há um que avisa os restantes assim que me afasto...

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    1. ...lá vai embora o homem que tem oito mãos para nos apanhar, bora comer!

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  6. Neste caso, acho que fizeste muito bem. Quando estão doentes é complicado ajudá-los. Já aprendi. Mas quando caiem dos ninhos o que também não acontece muito, é só dar um empurrãozinho benigno e tudo corre bem. Parabéns, vê-se que estão de boa saúde.

    Borrachinhos rechonchudos!:)

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    1. Deram imenso trabalho, Madalena, comiam de 2 em 2 horas uma papa morna que eu fazia num almofariz. Mas gostei de cuidar deles. Aqui acontece muito, por causa dos ventos fortes, e porque os ninhos se desmancham com o peso. Morrem mesmo muitos, mas aconteceu desta vez estar perto. Nem sequer são irmãos, devem fazer diferença de 10 dias.

      Beijinhos :)

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