Atalhos de Campo


23.2.16

Filipe

Eu não sabia que amava tanto o meu irmão até ter tido consciência de que ele podia ter sido o primeiro de nós os quatro a morrer. Quando ele nasceu eu tinha sete anos, e já me habituara a ter irmãos. Nesse dia o sol estava pousado em Leão, e foi por isso que ele nasceu com a promessa de uma juba imponente e de uma aura dourada, de uma mãe radiosa do seu último filho, que aos trinta anos ouviu o médico obstetra dizer, temos aqui o primeiro astronauta português. No entanto, sem saber explicar porquê, eu sentia-lhe fragilidade, e ficava horas a vigiar-lhe o berço. Como vivemos uma parte da infância juntos, e ele apareceu quando eu já sabia ler, do que me lembro bem é dos pequenos desgostos que ele me dava, por exemplo quando punha os meus jogos de estimação dentro do bacio. Mas depois ele começou a andar, e aí já as memórias se revestiram de um movimento, primeiro hesitante, e depois malandro e rápido. És a mais velha, toma atenção ao teu irmão, e eu olhava por ele até o sentir abeirar-se do perigo. Aí corria e salvava-o, sem contar a ninguém. Nessa época, em que a sua juba dourada já brilhava sob um pequeno chapéu, vê se o teu irmão não perde o chapéu, costumávamos visitar uns amigos dos meus pais aos fins-de-semana. Era uma casa colonial, com varanda em toda a volta protegida por rede mosquiteira. Havia sempre alguém a tocar piano, e o som passava através das árvores para a sombra onde brincávamos. Por vezes uma grande rede estava colocada em frente à casa entre dois troncos seculares, e nela ficavam aprisionados dezenas de pássaros tropicais, que se debatiam ali, sequestrados na sua própria cor. Nessa atmosfera, apesar de tudo de uma tranquilidade soberana, o meu irmão mais novo era a vítima favorita da perseguição pelo corvo Vicente, que lhe bicava a parte das pernas, que por serem muito brancas, sobressaíam dos pequenos calções. E ele corria como podia. Valente, nos seus dois anos, tentava escapar, mas era habitual sair a perder, e ao princípio da noite ter várias bicadas marcadas, a precisar de curativo. O Filipe era também visceralmente ligado à minha mãe, o que o levou uma manhã a sair de casa para ir ter com ela ao emprego. Só que a distância eram vários quilómetros, e ele só tinha três anos. Um senhor já idoso encontrou-o a chorar, perdido numa picada, e, felizmente, entregou-o são e salvo(nesse dia eu devia estar na escola). Portanto as pernas do Filipe sempre foram muito importantes para mim, até porque, como o mais alto de nós, embora sendo o mais novo, o meu irmão precisou delas para crescer. Mas um dia, há um ano e meio, depois de uma gastro-enterite complicada com uma gripe, o meu irmão começou a sentir um intenso cansaço. Tinha assistido com um amigo a um concerto de rock em Budapeste, e voltara muito maldisposto para casa. Já depois de ele ter regressado a Portugal, recebi um telefonema da minha mãe dando-me conta de que piorara, e tinha agora falta de força nas pernas. Como, falta de força? Não está a conseguir andar e tem fortes dores nas pernas. Comecei a telefonar todos os dias e a perceber que, em vez de ir recuperando, o meu irmão piorava dia após dia. Então dentro de mim, subitamente, tudo voltou a ter o enorme significado da infância. Senti-o em perigo e era preciso salvá-lo. Mas a sua juba imponente impedia-o de dizer que estava pior, o corvo Vicente continuava a correr atrás dele e desta vez ele deixava-se apanhar, não reagia. Estou melhor, o médico diz para eu descansar e tomar umas vitaminas, era esta a versão dele, (um leão nunca capitula), enquanto a mulher me dizia, o teu irmão já não consegue lavar os dentes sozinho, nem comer, e eu tenho que meter-me com ele na banheira para lhe dar banho. Em tudo me fazia lembrar um caso clínico a que eu assistira no meu estágio em Paris: uma paralisia progressiva, num cão, a tal ponto que só os olhos mexiam: ausência de voz, por paralisia das cordas vocais, incapacidade de comer, por paralisia dos músculos mastigadores; possibilidade de morte por paralisia do diafragma. Agora, que eram passados tantos anos desde que fôramos pequenos, e que eu entretanto tinha estudado outra linguagem escrita nesses sete anos (que continuávamos a ter de diferença), lembrava-me da palavra que classificava essa ocorrência clínica nos animais como sendo uma síndrome, a polirradiculoneurite infecciosa, provocada pela mordedura de o que era designado nos livros técnicos por raccoon, uma espécie de rato do campo. Há maneiras e maneiras de correr para salvar um irmão, e os meus dedos correram para o teclado, e no teclado, para se certificarem de que nas pessoas também podia existir o mesmo. Encontrei Guillain-Barré, e comecei a insistir, tens isto Filipe, corre, é preciso diagnosticar e tratar, é urgente. Imagina por momentos que não és tu, mas uma das tuas filhas a sentir-se como te sentes neste momento, e vai a correr contigo para o hospital, faz isso, por favor. E foi só assim que eu consegui convencê-lo. Quando entrou no hospital de Coimbra já mal conseguia andar. Inteligente como é inteirou-se do que tinha, e lutou, como em tudo o que fez na vida. Duas semanas depois teve alta. Voltei a vê-lo na festa dos seus cinquenta anos, brilhando como sempre, recuperado, rodeado pelos amigos e pela família. Abracei-o emocionada, o caçula estava de volta. 

Para a Sofia, pelo apoio inestimável que deu ao meu irmão.
Para o Filipe, sempre.         

21 comentários:

  1. “Eu não sabia que amava tanto o meu irmão até ter tido consciência de que ele podia ter sido o primeiro de nós os quatro a morrer.”
    São nesses momentos, quando o medo da perda se enrosca no peito, que nos apercebemos que os que amamos não são eternos e que o que sentimos por eles transborda de amor. Quando o meu irmão nasceu, passava também muito tempo a contemplá-lo no berço. Gostava de o agasalhar com a manta, de cantar para ele, de lhe dar a chucha. Sentia certamente o mesmo instinto de proteção que todos sentem em relação aos irmãos mais novos. O teu irmão teve muita, muita sorte em ter-te. Salvaste-lhe a vida. A ele e a todos os outros que o amam.

    Um beijinho, querida Teresa

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    1. E eu senti que tinha tido muita sorte em tê-lo, e que por nada o perderia.
      Às vezes é tudo tão rápido como um fio de água, e tão decisivo como uma gota.
      Tens razão no que dizes sobre esse nosso instinto, mas neste caso eu sentia já uma outra coisa, dada a diferença de idades, que não tinha sentido com os outros meus dois irmãos; era uma espécie de instinto maternal, ainda que imberbe e incipiente.

      Um beijinho, querida Miss Smile.

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  2. Tão terno, Teresa, como só o é um grande amor.

    Beijos :)

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    1. Encontrei-o terno e puro, amigo e sólido.

      Beijos, Maria :)

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  3. obrigada pela forma como nos mostras o coração :)

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    1. assim como que,...se o tivesse vestido do avesso?
      E olha que sim, há muitas vezes em que o deixo do avesso.:)

      Obrigada, ana, uma boa noite para ti.

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  4. quando o meu irmão morreu, parte de mim, e possivelmente a melhor, morreu com ele também.

    fico muito feliz pela sua partilha, querida Teresa. acredite que gosto de saber que a vida lhe(s) sorriu.

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    1. "A morte de qualquer um é a morte inteira. Qualquer um é toda a gente. E esse qualquer um pode assumir a forma atroz de uma criança em curso."
      Marguerite Duras/ A morte do jovem aviador inglês

      Querida flor, suspeitava que isso lhe tinha acontecido, por algumas leituras que fiz do que tem escrito. Não imagino sequer o tamanho dessa perda. É tão triste. Toda a minha vida foi um equilíbrio difícil entre a vida e a morte, mas "essa morte" eu nunca tive. Não me consigo pôr no seu lugar, porque essa dor, em toda a tragédia da sua dimensão lhe pertence por inteiro, profunda e impartilhável, mas antevi na sua perda a que podia ter sido a minha. Esse é um medo que me acompanha sempre. Não há sorrisos eternos, querida flor, mas há desgostos para sempre.
      Um abraço apertado.

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  5. conseguiu comover o polvo... sem palavras, muito grato pela partilha.

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    1. Dom Polvo,
      As suas parcas palavras, escritas en su tinta, trouxeram uma nota de sofisticação a esta partilha. :)
      Muito obrigada!

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  6. Com vossa licença e se me permitem entrar nesta saleta cor de púrpura, confidencio junto da Teresa que este Dom Polvo não é nenhum invertebrado, não senhor.

    Com licença

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  7. Felizmente que Filipe tinha uma irmã que o pôde salvar. Assim o tivessem todos os irmãos. :)

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    1. Se fosse diagnosticado mais tarde poderia ter sido muito mais complicado.
      Felizmente deu-se a feliz coincidência de eu conhecer a síndrome, GM.
      Por vezes Deus anda por perto; foi o caso.:)

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  8. É engraçado perceber como muitos dos detalhes descritos me são familiares.
    Confiro, o Filipe é bonito tal como todos os seus irmãos, mas não conhecia a dita ocorrência, confesso. Desde cedo aprendemos que é muito mais o que une os mamíferos do que os separa, e isso foi no âmbito da tua formação, preponderante. Responder à chamada, é perceber a tempo a oportunidade em contra-tempo. É claro que o grau do elo afectivo desenvolve uma energia positiva de vontade e interesse, capaz do impossível. E entre irmãos funciona-se muito como vasos concomitantes. Já me aconteceu sentir que alguém não estava bem, um bom tempo antes de ser revelado. Infelizmente nem sempre podemos acudir. Há situações que nos são alheias, mas que ainda assim e indirectamente duma forma subjacente, acabam por nos trazer algum ensinamento para a vida. Quando assim é, só nos resta aceitar, sem confronto ou revolta, transformando o mau em bom. O segredo está na transformação, na substituição e a vida prossegue. Deixemo-la entrar.

    Um beijinho ao Filipe e outro para ti
    Madalena

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    1. E aí anda, o Filipe, ainda hoje de manhã falei com ele, conversámos sobre a doença, e sobre os seus perigos, mas confessou-me, já não pensa nela, o que me deixou tranquila. Diz-se que quando se escreve sobre alguma coisa, essa coisa deixa de pertencer-nos, e eu acredito: agora é de quem a ler. Que a use para o bem.

      Um beijinho, Madalena.

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  9. Eu sou a irmã do meio e quando comecei a ler nem quis imaginar como seria passar por algo assim e já levei alguns sustos com as minhas duas irmãs. Ainda bem que ele se salvou.
    um beijinho
    Gábi

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    1. Gábi, ninguém está a salvo de passar por isto. Tivemos sorte.
      Esta caixa de comentários está tão bonita!
      Muito obrigada, (e mais nenhuns sustos).
      Um beijinho

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  10. "Diz-se que quando se escreve sobre alguma coisa, essa coisa deixa de pertencer-nos,... agora é de quem a ler". Absolutely!!!:)*

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  11. E quem sabe, pode vir a ser útil a alguém. We never Know!:)

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