Atalhos de Campo


6.2.16

ela & eu

























Ela sabe exactamente como eu gosto das coisas. Por isso deixa que eu acorde devagar e a primeira coisa que faz é ajudar-me a esticar o edredom, e a colcha de lã que o cobre, e a enrolá-los com cuidado até aos pés da cama. Só depois abre uma nesga da portada, para que adivinhe o tempo que faz lá fora, permitindo que o quarto saia da penumbra. Certificando-se de que já abri bem os olhos abre também a janela, deixando que a invasão do som melodioso dos pássaros e da frescura da manhã tome o lugar do sono. As suas mãos de muitas lonjuras ajudam-me a esticar bem o lençol branco, de forma a que nem um arrepio se note naquela mercê em que a cama abandonada recebe o dia. Quando desço para o pequeno-almoço a máquina do café já está ligada, e o depósito, sempre vigiado, cheio de água mineral. A cápsula roxa fora já colocada no sítio, a chávena sem pires aguarda na bancada, pronta a ser levada para a sala. Ela sabe que a primeira coisa que faço é uma festa ao cão, a segunda é olhar para a cerca onde as vacas ruminam deitadas, a terceira é conversar com os pardais, e, por isso, mantém-se em silêncio cúmplice e só depois me pergunta o que faz a seguir, mantendo a máquina ligada para o segundo café e o segundo palmier miniatura. E normalmente há duas ou três coisas que é preciso fazer no rés-do-chão e que ela diligentemente faz com alegria. 


Ela também sabe que depois me sento à secretária do escritório, e que nessa secretária é melhor não mexer, por isso limpa tudo em volta, deixando a secretária como vai ficando de umas vezes para as outras, com o computador entrincheirado entre pilhas de livros, e muito pó. Às vezes adivinho-lhe um sorriso quando passa por mim e me vê a consultar tantos livros ao mesmo tempo, trinta e um, contou ela no outro dia, e também sabe que uma vez por semana aqueles livros desaparecem como que por milagre, e vão dando lugar a outros, mas o pó se vai acrescentando sempre. Ela às vezes diz-me, que bonito está o jardim de rosas, ou, este ano há uma praga de caracóis, ou, doutora, ponha um chapéu, que o sol está perigoso, ou, hoje está frio, é melhor vestir um casaco. Entretanto, sem eu quase me aperceber, arrumou o quarto, pôs a aquecer a casa de banho antes de eu ir tomar banho e colocou a minha roupa sobre a cama, com esmero. Quando passo pelo estendal, os brancos brilham em texturas esvoaçantes, perfumados de lavanda e sabão clarim, as lãs agasalham-se nas cordas, as cores vibram presas ao céu com molas das mesmas cores. Ela sabe da minha paixão por fotografia, e controla o mais possível o carregamento das baterias das máquinas fotográficas, dizendo-me, já tem as máquinas prontas, doutora, porque também sabe como me irrito quando perco uma boa imagem. 


No Inverno, antes das cinco horas, esgueira-se sem eu dar conta para o frio do princípio da noite, calça as galochas e dá o granulado aos peixes do lago, e ali fica a vê-los comer, suponho que maravilhada com a sua aproximação cautelosa e depois com a avidez, assegurando que os cães lhes não vão roubar a comida. Depois deixo de a ver da janela de casa, mas ouço-a a chamar pelos gatos, sinto o fecho metálico da porta do casão a abrir, e sei que entra no ovil para lhes dar de comer, enquanto lhes faz festas. De seguida, contorna as casas e saúda as vacas que lhe respondem afinadas do meio da pastagem, e faz deslizar o portão grande do armazém da lenha e dos fardos, onde está guardada a ração das galinhas. Sei que não respeita as doses, que é generosa, e que entra na capoeira abrindo com dificuldade os fechos compridos com os dedos gelados, sendo de imediato rodeada por todos os galináceos, e ali vai distribuindo a comida, um bocadinho para os faisões através da rede, e o resto no comedouro, dentro do galinheiro. Recolhe os ovos do dia, enquanto os perus enchem os papos e as poedeiras jantam rapidamente de rabo espetado, antes de subirem para os seus lugares marcados no poleiro. Sei que de seguida a aguardam os pavões, que entretanto foram chegando do campo e voaram sobre a cerca para dentro da capoeira e que vindos de todos os lados se agrupam ali, igualmente desejosos do seu quinhão. Conta-os com medo que tenha desaparecido algum, antes de soltar os outros cães, e de recolher o rebanho, dirigindo-se primeiro para o fundo da pastagem onde está sempre alguma ovelha mais atrasada. Ela sabe o que acontece a algum animal que fique esquecido, e portanto mantém-se alerta, para que todos voltem com ela para o seu abrigo nocturno. Sei quando acabou porque o pesado portão do ovil desliza nos gonzos, e os animais se calam e procuram os seus lugares preferidos para descansarem em segurança no silêncio da noite. 


E quando ela regressa a casa, com um sorriso feliz e as mãos e os bolsos cheios de ovos, percebo que correu tudo bem. Acende então as luzes, faz o lume na salamandra, e começa a preparar o jantar. Quando olho para a mesa já posta e iluminada pelo candeeiro de pé, reparo que ela entretanto desapareceu. E é quando fico sozinha e me deixo prender por pensamentos, hipnotizada pelos meandros do lume aceso e aconchegada pelo calor das brasas, que tenho a certeza que não poderia viver sem ela.

Nota: Qualquer semelhança entre este texto e o estranho caso da Dona Aureliana, é pura coincidência.      

16 comentários:

  1. Bem, eu assim sou obrigada a contar tudo sobre o meu Andhriminir.

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    1. Era mesmo uma grande falha, essa, a de deixar o Andhrimnir no esquecimento. :)

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  2. ...espero que isso seja bom sinal. "Nós" já estamos. :)

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  3. Maria Cuca Pirata, tu por favor mostra-me um Andhriminir sem delicadezas, totalmente insensível e de pêlos no peito!!! ao menos isso, para eu não me sentir tão excluída, por só ter uma maquina dos chocolates para tomar conta de mim... Oh, Blogosfera Cruel!!!!

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    1. florinha, não sei se percebeu, mas ela sou eu, portanto peço meças, eu nem uma mísera máquina de chocolates tenho... A Blogosfera, essa obesa!!
      Vou começar a cobrar pelos comentários para a Cuca.

      Cuca, esse Andhrimnir que se despache, agora temos portagem.:)

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  4. :))) ela & a Teresa são ambas (e uma só) belas mulheres. perdoe-me a falta de tacto.

    um beijo, com chuva miudinha.

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    1. perdoada, mas quero que me apresente a sua mãe (devemos ter a mesma idade, e também gosto de Barcelona)
      :)

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  5. Isto sim é que é uma Dona Aureliana como deve ser. :))

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  6. Ela parece ser uma mulher de excelente fibra. Ao mesmo tempo forte e delicada. :)

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  7. Teresa, estás o máximo! Muito bem mascarada e em duplicado. Mascarada, ou antes, desmascarada de unha com carne. O texto está alindado com carinho e tem pinta, uma pinta roxa. Tem ainda o mérito de incluir a fórmula mágica do verdadeiro amor. Ela está implícita através de frases chave a reter:
    "Ela sabe exactamente como eu gosto das coisas". - É fundamental.
    "Quando desço para o pequeno-almoço a máquina do café já está ligada,..." - Ajuda muito.
    "...,mantém-se em silêncio cúmplice e só depois me pergunta o que faz a seguir,..." - É crucial!
    "...e que ela diligentemente faz com alegria." - Convém.
    "..., e que nessa secretária é melhor não mexer,...entre pilhas de livros e muito pó." - É decisivo. Nada de regras rígidas!
    "...,ponha um chapéu, que o sol está perigoso." - Atenção.
    "...,já tem as máquinas prontas,...,porque também sabe como me irrito quando perco uma boa imagem." - Expediente.
    Por isso, olha para eles, a unha com carne ainda estão enamorados, bem conservados e ousam vestir-se das cores do jardim.
    Tu conheces, tu sabes, não sei se aplicas, mas tu sabes...

    Uma pinta roxa
    Madalena

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    1. Ainda bem que gostaste do meu novo visual, Madalena.:) Pois já se vê que outra coisa não seria de esperar "dela". Se fosse negligente como é que eu a conseguia despedir? Ou, pelo contrário, fosse eu demasiado exigente, e ela a ir-se embora com justa causa! Era uma catástrofe. Assim combinámos este pacto de bem viver, com muita pintarroxa.

      Beijinhos, Madalena.

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  8. Querida Teresa Borges do Canto,
    Tenho a certeza de que me apaixonei por ela... por mais que excluam Plutão, não imagino o sistema solar sem ele. "eu não existo longe de você e a solidão é meu melhor amigo". Ela faz-me o sinal de dedo em riste sobre os lábios. Pschiu...
    Noite feliz,
    Outro Ente.

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