Atalhos de Campo


28.2.16

As falas de Teresa (4)

João:
Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em
toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso
dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade
existe maior que a do sonho? A desse sonho que ainda trago
em mim como um objecto que me pesasse no bolso?

João Cabral de Melo Neto/ Os Três Mal-Amados



Foi a espera de trinta anos, a sua espera, que impôs o sonho.
Julgo que a realidade prática terá sido nociva, quando comparada 
com esse sonho. Sinto que a minha presença veio até prejudicar 
a nossa intimidade; que agora teria que morrer para que ele 
a pudesse recuperar inteira. 

4 comentários:

  1. Uma vez, uma única vez, fiz uma dessas viagens no tempo. Foi exatamente isso que senti. Que teria de morrer para que ele me pudesse recuperar inteira. O resultado foi catastrófico. O tempo, esse demónio, leva sempre a melhor, porque a ele pertence a realidade.

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    1. Fiquei contente por alguém me perceber. Kronos, esse cronómetro do sonho.

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  2. Os sonhos, são como uma arca de substâncias preciosas que trazemos na bagagem para onde quer que vamos. É um suporte emocional valioso, sublime e sublimado que nos alimenta a vida inteira. Podemos visitá-los e revisita-los. Estão, permanecem, vivem e continuam lá, e não desbotam com o tempo. São belíssimos, nossos e tão só nossos, mas não se repetem e não convém perturbá-los, visitá-los presencialmente. Podemos quebrá-los, desfazê-los. A memória do sonho, essa, é mágica e sempre muito superior.

    Parabéns, pelos textos
    Com um grande beijinho

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    1. "Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
      na constelação onde os tremoceiros estendem
      rondas de aço e charcos
      no seu extremo azulado

      Ferrugens cintilam no mundo,
      atravessei a corrente
      unicamente às escuras
      construí minha casa na duração
      de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

      A aurora para a qual todos se voltam
      leva meu barco da porta entreaberta

      O amor é uma noite a que se chega só"

      José Tolentino Mendonça/ A Noite Abre Meus Olhos

      Obrigada, Madalena
      Um grande beijinho

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