Atalhos de Campo


29.2.16

memória. curta # 17

Entrava nas consultas e reclamava de imediato por qualquer coisa: havia muitos gatos na sala de espera, estava cheio de pressa e o animal anterior demorara imenso, a música no Natal era sempre a mesma, se não se podia fumar, então porque é que havia um cinzeiro, porque é que levavam cadelas em cio ao veterinário, porque não marcávamos consultas nestes casos, como o dele, que era uma pessoa muito ocupada. Confesso que me fazia perder muito tempo antes de dizer ao que ia, até que eu acabava por interrompê-lo com delicadeza. Mas o mais desagradável é que o consultório ficava com um perfume adocicado e enjoativo que me fazia querer acelerar rapidamente a consulta. No entanto, o Westy era um cão simpático, branco e cabeçudo, com uns olhos doces a espreitar pela franja, um West highland white terrier das melhores famílias, claro, com um avô escocês ultra campeão de beleza. Portanto, segundo o dono, a sua sensibilidade deveria ser muito maior, e eu até acreditava que sim. Acontecia que o Westy era dado a alergias de pele e tinha recaídas frequentes. O que o traz por cá desta vez, perguntei, o mesmo de sempre, foi a resposta, temos que resolver isto de uma vez por todas, faça-lhe lá aquele painel de análises completo de que me falou, que eu não tenho tempo para andar sempre no veterinário, disse-me, compondo o nó da gravata e ajeitando os punhos da camisa, antes de olhar para o relógio reluzente. Fiquei aliviada com a sugestão e avisei-o que mal chegasse o resultado lhe telefonávamos. Quinze dias depois, ao ler os resultados, verifico que o Westy era alérgico apenas à pele humana, e como tal, era alérgico ao próprio dono, dado que vivia só com ele. Quando alarmado me perguntou o que poderia fazer, eu pensei responder-lhe que o melhor para o cão seria mesmo mudar de dono, visto que para esse alérgeno não se fabricava vacina. Acontece, por vezes, que os veterinários também acabam por ficar parecidos com os cães.


Nota: 
Neste texto colaboraram: um dono possível, um cão simpático que não se chamava Westy, várias reclamações sem importância, um perfume tóxico, um painel de análises alergológicas com um item cómico, uma veterinária real, tudo suturado num resultado verosímil, conquanto inventado.

Bissexto..., eu?


































Debaixo da manjedoura, 2015



Segunda-feira?



























28.2.16

As falas de Teresa (4)

João:
Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em
toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso
dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade
existe maior que a do sonho? A desse sonho que ainda trago
em mim como um objecto que me pesasse no bolso?

João Cabral de Melo Neto/ Os Três Mal-Amados



Foi a espera de trinta anos, a sua espera, que impôs o sonho.
Julgo que a realidade prática terá sido nociva, quando comparada 
com esse sonho. Sinto que a minha presença veio até prejudicar 
a nossa intimidade; que agora teria que morrer para que ele 
a pudesse recuperar inteira. 

O sonho

27.2.16

As falas de Teresa (3)

João:
Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Teresa
que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do 
sonho, senti pegada a mim?

João Cabral de Melo Neto/ Os Três Mal-Amados  

















Sei que ainda sonha comigo naquela praia onde não esteve.
Que é essa imagem passada que me devora o presente.

estudo para quatro jarros










































                                                                                           

As falas de Teresa (2)

João:
Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada
que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um
vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a
como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que
envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos ou muitas léguas.

João Cabral de Melo Neto/Os Três Mal-Amados


Ele olha-me como se eu não estivesse aqui, como se eu ainda
fosse a mesma de que ele se lembra no passado. A minha 
imagem não coincide com as suas memórias, vivo desfocada de
mim, como se continuasse a habitar uma adolescência pretérita,
ou a infância em outro continente. E é lá que vivo num halo
todo azul. Sou um espectro, uma sombra projectada nas paredes.
  

26.2.16

As falas de Teresa (1)

João:
Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui a meu lado, a poucos centí-
metros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por 
que essa impressão de que precisaria de quilômetros para me-
dir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento?

João Cabral de Melo Neto/Os Três Mal-Amados


Não tenho dormido bem, passo a noite a escrever entre a 
vigília e o sono, de tal forma que já não consigo dis-
tinguir se durmo ou estou acordada. Umas olheiras fundas
como trincheiras testemunham isso. Mas quando acordo não 
há nada escrito, e ao que disse que sim já não me lembro. 
Não estás cá, estás a quilómetros de distância, ouço dizer. 

Os pássaros não sabem chorar



Ela voltou para mim aquele olhar redondo de laranja que não viu o vidro a dividir o céu ao meio. Peguei-lhe e ficou inteira na minha mão de ninho. No aconchego falei-lhe sobre as árvores em voz de brisa alta. Era ainda jovem, talvez não tivesse percebido. Fiz uma força única para lhe lhe moldar as asas de ar. E ela olhava-me com aquele olho de pôr-do-sol, enquanto lhe fazia o curativo passando uma pequena nuvem de algodão sobre o sangue da ferida ainda quente. Desconhecia desconforto ou dor e foi-me entregando o seu destino. Não tentou defender-se com a única espada que tinha, talvez por ser a rainha do horizonte. Saí de casa e procurei um sítio vago. Quando lhe devolvi as asas voou entre os pinheiros que logo se arrepiaram, soltando agulhas. Depois ficou pousada a olhar para mim e todas as rolas voaram ao mesmo tempo abrindo-se como leques, antes da noite.


Je vois des anges

O violoncelista estava a meio do Concerto de Schumann



Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gritar:- Je
                [vois des anges! Je vois des anges!- e deixou-se
                                  [escorregar pela escada abaixo.

O telefone tilintou.
Alguém chamava?...Alguém pedia socorro?...

Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto 
                                         [desesperado!...

(Eram três horas.
Todas as agências postais estavam fechadas.
Dentro da noite a voz do coronel continuava gritando:- Je vois                                   des[anges! Je vois des anges!

Manuel Bandeira/Nocturno da Parada Amorim 


































































25.2.16

memória. curta # 16

A Vodka arfava ligeiramente e os seus olhos, castanhos e brilhantes, transmitiam uma angústia que saltava dos donos para mim, e voltava a saltar para os donos, enquanto a bola que a acompanhava permanecia inerte sobre a marquesa. As patas traseiras repousavam rígidas lado a lado, o corpo deixou-se percorrer pelos meus dedos da mão direita que deslizaram inteiros sob o pêlo encaracolado e áspero sentindo-lhe as costelas, até agarrar com ambas as mãos os membros anteriores para os elevar ligeiramente, pousando-os de novo por perceber que cairiam sem acção. O pescoço, unicamente apoiado, conseguia manter a cabeça em posição; só as orelhas (que quebravam para a frente), sustentadas pelas cartilagens, conservavam o aspecto atento de sempre quando ouvia a palavra mágica - que significava brincar, saltar, correr, jogar - impossível de ignorar para um Fox terrier. Ficou assim, disseram os donos, quase ao mesmo tempo, não sem a voz lhes tremer. Foi muito rápido, continuou a dona, parecia ter falta de força nas patas de trás, mas depois parecia estar melhor, e agora já não consegue andar, não come, não bebe água, e ontem nem ladrou quando sentiu movimento na escada; hoje verifiquei que também está afónica. O problema são os miúdos, agora estão na escola, e se não houver nada a fazer queremos que se ponha fim a este sofrimento, não conseguimos vê-la a morrer aos poucos, todos os dias. Ainda no fim-de-semana passado correu e saltou, já notámos que se cansava, mas não ligámos muito...e, dizendo isto, um soluço engoliu-lhe a palavra, enquanto as mãos procuraram rapidamente a cabeça da Vodka para lhe fazer uma festa, sufocando o choro. Foi a vez do marido se dirigir a mim, enquanto pousava a mão quase imperceptivelmente sobre a da mulher, tentando confortá-la: faça tudo, nem quero pensar no desgosto que vai ser lá em casa quando os meus filhos chegarem e não a virem. Se correr mal, podemos...dizer que ficou internada por estar muito doente, completei, evitando a palavra eutanásia. Mas ainda é cedo para nos precipitarmos em conclusões tão pessimistas, disse. Embora pareça muito grave, e é-o com certeza, temos primeiro que lhe fazer o exame clínico, para tentar chegar a um diagnóstico. A ansiedade impediu os donos de abandonarem a clínica enquanto a Vodka fazia análises e Rx. Tudo estava dentro da normalidade. Ao fim da manhã havia já uma hipótese de diagnóstico, ainda que nessa altura não existisse mais nenhum exame para obter a confirmação, e também, mesmo que houvesse, não poderíamos perder mais tempo, teríamos sempre que iniciar alguns procedimentos com brevidade, para a tentar salvar. Contei aos donos que, em Paris, de onde tinha chegado há uma semana, assistira à evolução de um caso clínico idêntico, e que suspeitava tratar-se de uma polirradiculoneurite infecciosa. Ia dar trabalho, e era preciso não desistir às primeiras contrariedades, porque iria levar pelo menos três semanas a melhorar. Confessei que em vários anos de clínica nunca me aparecera um caso daqueles, que também punha reservas quanto à evolução, e que tinha algumas dúvidas, não podendo garantir nada. Tentemos, disseram em uníssono os donos. Ela merece tudo, é inteligente e amiga, é mais uma filha que aqui temos do que um cão, até tenho vergonha de o dizer, comentou a dona, agora com uma centelha de esperança a iluminar-lhe o olhar e a voz. Para além do tratamento médico, a Vodka vai ter que ficar pelo menos três semanas suspensa, apenas com a ponta dos dedos a tocar o chão, para que os músculos não atrofiem mais, e para estimular a parte neurológica, declarei, não há outra hipótese. E é muito importante nesta fase evitar-lhe qualquer stress. Tivemos todos que improvisar, e os donos montaram uns cintos presos sob a mesa da casa de jantar, onde ela ficava pendurada toda a noite. De manhã traziam-na para tratamento e permanecia todo o dia numa jaula a soro, suspensa numas cintas adaptadas para o efeito. No início a cabeça pendia, sem acção, e era preciso também assegurar a sua postura, para que não sufocasse. Durante duas semanas a Vodka foi melhorando ligeiramente; ao fim da terceira semana já se alimentava sozinha e teve alta. Quinze dias depois veio à consulta de seguimento. Quando abriram a porta do consultório, surgiu primeiro a cabeça da dona, que espreitou e sorriu. Sentada à secretária, vi entrar a Vodka sozinha e a andar com dificuldade, com os membros ainda muito hirtos, mas pelo seu pé. Mal me levantei e fui ao seu encontro, abanou a cauda, desafiando a energia anterior. Eu tinha afirmado que se visse aquela cadela a andar, desmaiava. Não desmaiei, mas deve ter sido uma das minhas maiores alegrias profissionais. É que por vezes, não sei explicar como, há empatias que se estabelecem a três dimensões. 

E o homem encontrou a cadela...

(...)
Mesmo assim, repito o meu conselho: uma cadela é mais fiel do que um cão, os meandros da sua mente são mais subtis, mais ricos e mais complexos, e a sua inteligência é geralmente superior. Conheci já imensos cães e posso dizer com toda a convicção que, de todas as criaturas, a mais próxima do homem na finura das suas percepções e na capacidade de retribuir a verdadeira amizade é a cadela. Estranho é que em tantas línguas(incluindo o português) o seu nome tenha adquirido uma conotação tão pejorativa.

Konrad Lorenz/ E o homem encontrou o cão...

23.2.16

Filipe

Eu não sabia que amava tanto o meu irmão até ter tido consciência de que ele podia ter sido o primeiro de nós os quatro a morrer. Quando ele nasceu eu tinha sete anos, e já me habituara a ter irmãos. Nesse dia o sol estava pousado em Leão, e foi por isso que ele nasceu com a promessa de uma juba imponente e de uma aura dourada, de uma mãe radiosa do seu último filho, que aos trinta anos ouviu o médico obstetra dizer, temos aqui o primeiro astronauta português. No entanto, sem saber explicar porquê, eu sentia-lhe fragilidade, e ficava horas a vigiar-lhe o berço. Como vivemos uma parte da infância juntos, e ele apareceu quando eu já sabia ler, do que me lembro bem é dos pequenos desgostos que ele me dava, por exemplo quando punha os meus jogos de estimação dentro do bacio. Mas depois ele começou a andar, e aí já as memórias se revestiram de um movimento, primeiro hesitante, e depois malandro e rápido. És a mais velha, toma atenção ao teu irmão, e eu olhava por ele até o sentir abeirar-se do perigo. Aí corria e salvava-o, sem contar a ninguém. Nessa época, em que a sua juba dourada já brilhava sob um pequeno chapéu, vê se o teu irmão não perde o chapéu, costumávamos visitar uns amigos dos meus pais aos fins-de-semana. Era uma casa colonial, com varanda em toda a volta protegida por rede mosquiteira. Havia sempre alguém a tocar piano, e o som passava através das árvores para a sombra onde brincávamos. Por vezes uma grande rede estava colocada em frente à casa entre dois troncos seculares, e nela ficavam aprisionados dezenas de pássaros tropicais, que se debatiam ali, sequestrados na sua própria cor. Nessa atmosfera, apesar de tudo de uma tranquilidade soberana, o meu irmão mais novo era a vítima favorita da perseguição pelo corvo Vicente, que lhe bicava a parte das pernas, que por serem muito brancas, sobressaíam dos pequenos calções. E ele corria como podia. Valente, nos seus dois anos, tentava escapar, mas era habitual sair a perder, e ao princípio da noite ter várias bicadas marcadas, a precisar de curativo. O Filipe era também visceralmente ligado à minha mãe, o que o levou uma manhã a sair de casa para ir ter com ela ao emprego. Só que a distância eram vários quilómetros, e ele só tinha três anos. Um senhor já idoso encontrou-o a chorar, perdido numa picada, e, felizmente, entregou-o são e salvo(nesse dia eu devia estar na escola). Portanto as pernas do Filipe sempre foram muito importantes para mim, até porque, como o mais alto de nós, embora sendo o mais novo, o meu irmão precisou delas para crescer. Mas um dia, há um ano e meio, depois de uma gastro-enterite complicada com uma gripe, o meu irmão começou a sentir um intenso cansaço. Tinha assistido com um amigo a um concerto de rock em Budapeste, e voltara muito maldisposto para casa. Já depois de ele ter regressado a Portugal, recebi um telefonema da minha mãe dando-me conta de que piorara, e tinha agora falta de força nas pernas. Como, falta de força? Não está a conseguir andar e tem fortes dores nas pernas. Comecei a telefonar todos os dias e a perceber que, em vez de ir recuperando, o meu irmão piorava dia após dia. Então dentro de mim, subitamente, tudo voltou a ter o enorme significado da infância. Senti-o em perigo e era preciso salvá-lo. Mas a sua juba imponente impedia-o de dizer que estava pior, o corvo Vicente continuava a correr atrás dele e desta vez ele deixava-se apanhar, não reagia. Estou melhor, o médico diz para eu descansar e tomar umas vitaminas, era esta a versão dele, (um leão nunca capitula), enquanto a mulher me dizia, o teu irmão já não consegue lavar os dentes sozinho, nem comer, e eu tenho que meter-me com ele na banheira para lhe dar banho. Em tudo me fazia lembrar um caso clínico a que eu assistira no meu estágio em Paris: uma paralisia progressiva, num cão, a tal ponto que só os olhos mexiam: ausência de voz, por paralisia das cordas vocais, incapacidade de comer, por paralisia dos músculos mastigadores; possibilidade de morte por paralisia do diafragma. Agora, que eram passados tantos anos desde que fôramos pequenos, e que eu entretanto tinha estudado outra linguagem escrita nesses sete anos (que continuávamos a ter de diferença), lembrava-me da palavra que classificava essa ocorrência clínica nos animais como sendo uma síndrome, a polirradiculoneurite infecciosa, provocada pela mordedura de o que era designado nos livros técnicos por raccoon, uma espécie de rato do campo. Há maneiras e maneiras de correr para salvar um irmão, e os meus dedos correram para o teclado, e no teclado, para se certificarem de que nas pessoas também podia existir o mesmo. Encontrei Guillain-Barré, e comecei a insistir, tens isto Filipe, corre, é preciso diagnosticar e tratar, é urgente. Imagina por momentos que não és tu, mas uma das tuas filhas a sentir-se como te sentes neste momento, e vai a correr contigo para o hospital, faz isso, por favor. E foi só assim que eu consegui convencê-lo. Quando entrou no hospital de Coimbra já mal conseguia andar. Inteligente como é inteirou-se do que tinha, e lutou, como em tudo o que fez na vida. Duas semanas depois teve alta. Voltei a vê-lo na festa dos seus cinquenta anos, brilhando como sempre, recuperado, rodeado pelos amigos e pela família. Abracei-o emocionada, o caçula estava de volta. 

Para a Sofia, pelo apoio inestimável que deu ao meu irmão.
Para o Filipe, sempre.         

22.2.16

o pormenor

então eu disse-lhe, o que é difícil não são as grandes tarefas;
o que é verdadeiramente difícil é o pormenor

relógio de sol


























  milagre de inverno
agora é ouro
  a água das laranjas

Paulo Leminski


(JM, onde anda você?)

20.2.16

por uma gota
























Tendo feito um estágio no jardim botânico, minha irmã gosta de andar pelo arvoredo ao largo da casa, podendo distinguir o ipê do carvalho, da oiticica, do jequitibá ou da maçaranduba. Também zela pelas palmeiras, que estão alinhadas à parte, pois aprendeu que as palmeiras são de uma estirpe altiva de árvores, que as árvores sérias por sua vez desdenham. E quando tem tempo, minha irmã chega aos confins do terreno, onde o jardim toca o muro do horto florestal; só volta na hora do lusco-fusco, parando para ver e ouvir o jogo das folhagens, por atalhos que o jardineiro ignora.

 Chico Buarque/ Estorvo

letra Grande ou Letra pequena?

Post inteiramente dedicado à ana.



Ao pensar nas múltiplas razões
para acreditar que deus existe, tropeço
na maneira de o escrever: se for com maiúscula,
é porque acredito n'Ele; se é com minúscula,
vão logo dizer que não o respeito, logo
não existe. Deus, porém, pode ser esta paisagem
que anoitece: ao perto, ainda distingo árvores,
a cor de alguns frutos, a forma de um telhado
que emerge por trás de um muro; porém,
à medida que o olhar avança para descobrir
o que está mais longe, a obscuridade toma conta 
de tudo, e para além de formas que a noite vai
apagando, a treva confunde-se com aquilo que, durante
o dia, eram colinas e bosques até ao horizonte. E
por muito que o olhar tente imaginar o que não vê,
nenhuma certeza pode surgir de dentro de um espaço
invisível, como se nunca o tivéssemos olhado e
não nos tivesse sido próximo e familiar. É por isso que,
ao pensar em deus, começo por ver as suas formas
nascidas das múltiplas figuras com que os homens
o representaram; mas quando quero ver para além disso,
e encontrar a imagem de um deus em quem pudesse
acreditar, a sombra devora o rosto que eu queria olhar
e obriga-me a perguntar se tudo o que avisto não é,
afinal, uma ilusão, obrigando-me a escrever deus 
com letra pequena.

Nuno Júdice/ Catecismo Negativo 

19.2.16

Um polvo chamado Houdini



O que todas as mulheres deveriam saber 
sobre autodenominados polvos...

Braços, tenho braços,
não de polvo, sim de pó,
de nada cinza erguido
à carne que tens, e que não tens,
na brancura do mundo.
Ris, e cantas, rememoras
o princípio de tudo, a cascata
entrevista no tempo em que,
já cego,
porém te via, e amava,
de pernas laças correndo pelos montes.

Pedro Tamen



Agora, FUJAM!

Post inteiramente dedicado ao Manel Mau-Tempo, 
Conde de Osmiornica.

18.2.16

néon

























Passagem para a noite (15)

















































bem-educado

Em certa noite há mais de dez anos, e já a horas tardias, recebi no telemóvel uma mensagem escrita de fazer corar as pedras enegrecidas, fuliginosas e escorregadias, da monótona calçada. Com muitos Kapas, eFes e Cês, prosseguia com promessas, pormenores, e exortações. Era sexta-feira, mas não de véspera de finados, e estava a ser notificada para uma noite de amor inesquecível, com tudo o que era suposto eu gostar. Detive-me a olhar para o ecrã luminoso com uma boa risada, tinha sido seguramente um equívoco, um número de telefone desconhecido ali escarrapachado, e assinado por um (muito), e Et cetera. Entre o divertido e o escandalizado, fiquei-me pelo silêncio sonolento do cansaço hebdomadário(?), e da promessa de descanso no fim da semana. No dia seguinte, qual não foi o meu espanto, quando recebo do equivocado outra mensagem escrita com boa caligrafia e menos Kapas, quase sem eFes e nenhum Cê, nem erros ortográficos, pedindo muita desculpa pelo engano. Quase me apeteceu desejar-lhe que tivesse boa sorte por escrito, com uma tal de K.

Nota: onde se lê hebdomadário, deveria ler-se indiscutível.