Atalhos de Campo


6.1.16

Xafarix

Agora que estamos a ficar velhos penso como seria daqui a dez anos repetirmos a proeza de nos encontrarmos todos no Xafarix. A primeira vez que atravessei a porta nº69, e os seus arcos até ao bar, teria pouco mais de vinte anos. Talvez tremesse, com a hipótese de dar de caras com o Luís Represas. A música sempre foi o meu leitmotiv de vida, reaparecendo constantemente, intensamente, em todas as fases por que passei. A emoção da música ao vivo fez-me assistir a inúmeros concertos da pop ao jazz e à música erudita, em tantas salas, pavilhões, estádios e países que já nem consigo enumerar. Fiz algumas viagens centralizadas num concerto, numa ópera. Morreria sem música. Mas a paixão pela noite, pela música, por cantar, por dançar, levou-me a procurar com frequência esse bar de Lisboa onde a certa altura me sentia em casa, onde ia sozinha, e de onde voltava a pé, não só por morar relativamente perto, mas também porque gostava de sentir a noite no rosto, e o rosto na noite. Lembro-me com nostalgia das noites em que a certa altura já estava toda a gente a dançar por cima das mesas, dos bancos e das cadeiras, numa festa total, rindo e cantando, e também me lembro de estar a estudar para os exames até à uma hora da manhã, para depois ir para o Xafarix, como uma espécie de prémio de descontracção. Noites memoráveis aconteciam quando músicos conhecidos se juntavam e iam para o palco cantar ou tocar, ou quando algum amigo de voz espantosa aparecia para tomar um copo, e acabava por cantar também. Gente anónima, mas talentosa, que amava em primeiro lugar a música e se juntava numa espécie de veneração informal, de culto familiar. E foi precisamente numa dessas noites em que cantávamos a Yolanda, que demos as mãos timidamente sob a mesa e as fomos elevando depois como uma só, até subir à altura das vozes, tão alto que durou sete anos, tão sólido que durará, quem sabe, o resto da vida.

Ao Zé 

4 comentários:

  1. "Aqui estão as mãos.
    São os mais belos sinais da terra.
    Os anjos nascem aqui:
    frescos, matinais, quase de orvalho,
    de coração alegre e povoado.

    Ponho nelas a minha boca,
    respiro o sangue, o seu rumor branco,
    aqueço-as por dentro, abandonadas
    nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

    Alguns pensam que são as mãos de deus
    — eu sei que são as mãos de um homem,
    trémulas barcaças onde a água,
    a tristeza e as quatro estações
    penetram, indiferentemente.

    Não lhes toquem: são amor e bondade.
    Mais ainda: cheiram a madressilva.
    São o primeiro homem, a primeira mulher.
    E amanhece."

    Eugénio de Andrade / Coração habitado

    Muitos parabéns, querida Teresa, e um beijinho para ti e para o Zé. O Zé é um homem de sorte :)

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    1. "A minha mão direita,
      parada sobre o branco
      do lençol:
      veias, ossos
      e palidez calada.

      Deitada, a mão acena,
      busca a mão que não está:
      é o ar que a segura
      com a tua memória.

      E há silêncio à volta
      que balbucia um nome,
      e o teu nome está escrito
      na minha mão direita."

      Pedro Tamen

      Obrigada, querida Miss Smile.

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  2. Eu lembro-me de um Xafarix que também pulava sobre as mesas, adorava sair à noite e tremia que alguém o encontrasse.

    Bjs

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