Atalhos de Campo


14.1.16

velhas amigas

Aterrámos na Paris de Dezembro de 1992 entre Boteros e castanheiros-da-índia, em marcha triunfal da Praça da Concórdia ao Rond Point. Lembras-te de certeza, tão bem como eu, que a Torre Eiffel se elevava do subterrâneo Trocadero até ao segundo andar, e que eu andava sempre com um caderninho irritante onde apontara o Requiem de Mozart na igreja de Madeleine, Maurice Béjart no Palácio Garnier, Dali numa galeria, a estreia de Damage de Louis Malle, e de Bodyguard, e que te convenci a ir a tudo, mesmo custando cada bilhete para a Ópera de Paris tanto quanto toda a despesa de um mês, e de como ao sentar-me diante do palco chorei de emoção. De que nos escapámos do estágio no hospital da faculdade para uma visita matinal e inofensiva à Pigalle, olhando boquiabertas para paredes inteiras revestidas com material erótico, e para as montras sado-masoquistas ao som de I can't help falling in love with you, e do que nos rimos. Que os retratos nas ruas de Montmartre já nos apareciam desfocados, e que foi a sopa de cebola e queijo gratinado que nos deu energia antes da subida à Basílica do Sacré Coeur; que eu andava sempre nas nuvens e tu é que sabias as linhas todas do metro, de onde emergíamos como toupeiras, cegas da vista do conjunto, como se Paris fosse afinal e apenas, uma luminosa observação em View-Master, de intermináveis e belos palácios, pontes e monumentos. Que aquela fotografia debaixo do guarda-chuva na Pirâmide do Louvre era premonitória de que andaríamos tanto naquele dia como em toda uma semana, e eu ainda mais do que tu, que pacientemente esperavas sentada numa das salas. Que manhãs cedo tinham sempre um caminho, Maisons-Alfort, e a École Vétérinaire. Que aí circulávamos maravilhadas por todos os departamentos, e internamento, e que assistíamos às sextas-feiras aos debates dos trabalhos sobre os casos clínicos, que eram no anfiteatro. Que perante a enorme panóplia de aparelhos, pensávamos que os nossos sentidos e intuição davam sempre as melhores pistas. Que almoçávamos invariavelmente cuscuz, e que a cozinha era tão má como a da nossa faculdade, que tinha fama de ser boa. Que todas as tardes tinham destino prévio e organizado no tal caderninho, e que entrávamos esfaimadas e a tremer de frio nalguma pâtisserie para beber chocolate quente e comer uma tartelette a brilhar. Que ao regressar a casa comprávamos para o jantar pão, fruta, iogurtes e chocolate na mercearia de bairro. Que o nosso frigorífico era o parapeito do lado de fora da janela do quarto. Que nos espantámos ao verificar que as lojas de animais da rive gauche vendiam gatos europeus, e que sempre conseguimos encontrar aquelas serigrafias com caricaturas de cães e gatos, que ambas nos entusiasmámos a comprar. Que o Museu Rodin é o mais charmoso do mundo. Que o meu chapéu, com uma cauda de furão cosida no laço, era garantia de sermos americanas. Que visitar os jardins de Versailles em trolley e a ouvir Bach foi uma bela despedida. Que acabámos por não andar de bateau-mouche. Que nunca mais viajei com uma mala tão pesada. Que as viagens têm definitivamente a capacidade de aproximar ou afastar as pessoas. Que as nossas diferenças ao invés de nos afastarem nos completaram. Que depois de regressarmos de Paris nos encontrámos muitas vezes, quase sempre para operarmos juntas, porque, tal como na cidade de Paris te orientavas muito bem, também o fazias nas veias e artérias dos animais, e eu, com o meu caderninho irritante, às vezes também te dizia, repara ali naquele pormenor, e aí, olhando as duas para o mesmo lado, salvámos juntas algumas vidas.

Para a Cristina           

6 comentários:

  1. “Na primeira vez que fui visitar Rodin, em Meudon, e almocei com ele (…) logo ali compreendi que uma casa lhe era indiferente, uma miserável necessidade talvez, um teto para se abrigar da chuva e dormir debaixo; não constituía para ele motivo de preocupação, nem um fardo para a sua necessidade de estar só, em recolhimento. No fundo de si mesmo, tinha a obscuridade, o refúgio e a calma de uma casa, e era ele próprio o céu que lhe fica por cima, a floresta que a envolve, e a extensão era o rio que para sempre correria à frente da sua porta. Que grande solitário era esse velho, abismado em si, vertical, pleno de vigor, como uma velha árvore no outono. Tinha-se feito profundo; escavara para o seu coração uma profundidade cujo bater vem de muito longe, do centro de uma montanha, dir-se-ia.”

    Rainer Maria Rilke

    Sabes que também tenho uma proveitosa coleção de caderninhos irritantes? E o Museu Rodin é o mais charmoso do mundo. Inesquecível. Ele e a sua assistente de trabalho, companheira e talentosa Camile Claudel. E o meu caderninho relembra-me que em 1992 também estive em Paris com uma amiga alemã Jutta :)

    Salut!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Miss Smile, o mundo é, de algum modo, de quem o cruza,
      e isso é intemporal, e um temporal.

      Salut!

      Eliminar
  2. Que bela visita a Paris e ao interior de uma amizade, tão forte que "salvámos juntas algumas vidas".
    Gostei muito, querida Teresa. Conta mais, contas?
    :-)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Salvar pode ser muito solitário, mas salvar em equipa é sempre maravilhoso.
      Conto mais, conto, querida Susana. :)

      Eliminar
  3. As viagens aproximam as pessoas de uma forma muito bonita.
    (Às vezes também afastam, mas hoje, diante deste texto, isso não interessa nada)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já fiz viagens demolidoras, porém esta veio provar que pode acontecer exactamente o contrário.
      Obrigada, Cuca.

      Eliminar