Atalhos de Campo


28.1.16

passarinhos fritos

Havia na lista passarinhos fritos. Alguém pediu e depois não gostou. Dividiram os passarinhos por todos, e calhou ao meu filho também comer um. Confessou-me que não apreciou, sobretudo por lhe fazer impressão, mas acabou por comer. Depois de me contar isto perguntou-me que passarinhos é que são esses, que se matam para comer como uma iguaria. Todos, por exemplo pardais, mas geralmente tordos, que são caçados e vendidos para o efeito. Pardais...? perguntou, incrédulo. Estávamos à mesa a almoçar, e os pardais que salvei no ano passado cantavam felizes e concertados, ali ao lado. Olhou para mim espantado, sim, também pardais. Não!, retorquiu nauseado. Os pardais que ele vira soltos a tomarem banho numa taça, com grande espalhafato, e que, depois de sacudirem a água, alisaram as penas com o cuidado de uma engomadeira; os pardais que ele vira a comer migalhas da mão e a degustarem-nas com os bicos perfeitos, e que depois os afiaram num movimento engraçado; os pardais que vira a voar para apanharem moscas, de olhar vivo e infalível; os pardais que se chamam Cisco e Migalha, transformados em animais de estimação, de repente estorricados à sua frente, num prato. Fez-se silêncio. Pareceu-me que lhe apetecia vomitar. 

6 comentários:

  1. E não é para menos, Teresa!
    Basta começar a vê-los com outros olhos, senti-los nossos para não os imaginarmos num prato.

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    1. Ava, eu tenho a sorte de ter salvo dois pardais quase sem penas, e de ter sido a "mãe" deles. Fico encantada a observá-los, mas não só a estes, acho que a todos. Os pássaros têm algo de divino.

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  2. Querida Teresa Borges do Canto,
    Essa dos pardais será como servir gato por lebre, não?
    Tordos, há quem cace e goste de os comer arranjados no tacho, agora pardais é novidade. Seja como for, não como passaricos. E, só caço o que gosto de comer.
    (As galinhas entram na sua definição de animais divinos?)
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Há muito tempo, soube que havia um homem que dava E-605 Forte aos pássaros e os comia porque os eviscerava logo de seguida, quando caíam para o lado(da morte); ainda há mais tempo havia armadilhas colocadas em pontos estratégicos, de madrugada, como ratoeiras, para apanhar o que caísse, e era tudo vendido para tascas e restaurantes. As pessoas faziam-no porque precisavam de dinheiro para viver e chegavam a armar mais de 400 armadilhas cada uma, em um só dia. Tenho uma delas, artesanal e muito simples, mas certeira. Agora, e já na altura, eram proibidas. Nem toda a gente caça o que gosta de comer, com sabe, Outro Ente. Quanto às galinhas, acho-as estupidamente divinas, mas não são pássaros, são aves de capoeira.
      Um beijo

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  3. As crianças são sempre sensíveis à questão dos animais. Vêem com o coração. Depois, a educação e a vida em sociedade acaba por moldá-los um pouco, em sentido inverso. A sua sensibilidade de pluma perde transparência, torna-se opaca e densa e já não ouve, nem sente, nem vivencia. Quebra-se o elo. A natureza passa a ser um bilhete turístico de ida e volta. No entanto, eu não sou fundamentalista. Por acaso, nunca me foi dado a provar os tão apreciados "Pipis", e eu também nunca os procurei. Quando era pequena, lembro-me de passar e ver escrito, "Há pipis", numa tasca à antiga perto de casa. Em Lisboa havia muitas, e também eu me perguntava que espécime seria aquela, a dos escuros, magros e traídos, em cima do balcão. Passarinhos, não poderia ser. Isso seria inconcebível. Os passarinhos não eram para comer!
    No entanto, se num momento de confraternização eu tiver que comer um pernil, eu não mandarei o prato para dentro. Isso seria defraudar aquele momento festivo tão belo e essencial, como é, o de se comer à volta de uma mesma mesa.

    Boa mesa, à mesa
    Beijinhos

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    1. Que bonito, Madalena, e não só, é correctíssimo o que dizes. Lembro-me de a minha avó contar que um irmão dela tinha comido uma lagarta no caldo-verde, só para evitar um momento constrangedor...no entanto...sabes, eu faria como quando era pequena, uma embrulhada no prato... et voilà! :)

      Boa...noite!
      Beijinhos

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