Atalhos de Campo


8.1.16

O fumo

Era pequena mas impositiva a figura que invariavelmente aparecia pintada de preto no meio das hortas, (às vezes era até um desafio encontrá-la, dada a sua exiguidade, mas o chapéu acabava sempre por denunciá-la). Divertia-se ao tentar descobrir o pai de Francis Smith em cada um dos seus quadros, como se de um passatempo se tratasse. Nunca imaginou que o viria a conhecer, igual a ele próprio, acabadinho de sair de uma dessas telas cheias de luz e cor, embora passeando-se pela capital, odiando o campo, e dedicando-se ele mesmo à pintura. Um acaso fez com que lhe fosse apresentado por um amigo comum, numa daquelas tardes de Primavera que se espreguiçam até à noite e de repente desaparecem. Impressionada pelo aspecto exótico do personagem, desde logo se pôs a matutar de onde o conheceria, e não foi difícil lá chegar, dado que a semelhança era redutora. Apaixonada pela obra do filho, ardia em curiosidade por conhecer a obra do pai. A um tanto sinistra e enigmática figura, agora que era avaliada a três dimensões, guiava de seu um enorme e velho Mercedes, carro veementemente rejeitado pela sua preferência, e andava rodeado por um grupo de amigos que costumava transportar alegremente para jantares e tertúlias. Acabou por ser arrastada num desses grupos para um jantar em casa do progenitor do seu pintor favorito, e percebeu de imediato a razão da longínqua homenagem (ao fundo das hortas) que o filho lhe atribuía. Com a mesma paleta de cores e uma técnica apurada, aquele homem intelectual manipulava as alfaces, as árvores, as casinhas, as flores, os barcos, os céus e os pássaros que figuravam na pintura já sua conhecida, noutros corpos que aprisionava em espaços exíguos de intimidade devassada por angústias e conflitos, de ambiente puramente citadino. Porém, entre todos os quadros, impressionou-a uma tela diferente, inquietante, única. Enorme de tal forma que ocupava uma parede inteira, era preenchida por longas volutas de fumo que a invadiam escapando-se de um ponto, para se cruzarem sobre toda a superfície. Uma alegoria à morte. Comoveu-se diante daquele momento solene, perante a morte assim desenhada  em vida, e imaginou como seria amar aquele homem tão atormentado e tão próximo do fim, fantasiando sobre o seu quarto despojado, a sua intimidade quântica, a sua ternura reduzida a um traço firme entre as horas marcadas numa agenda, sem surpresas, sem imprevistos.

Nunca mais voltou à casa onde todas as janelas eram quadros, nem aos jantares, nem mais viu o pintor que coleccionava chapéus, e cuja obra tanto a sugestionara. Mas, um dia, ao procurar a sua silhueta vestida de negro no último quadro de Francis Smith, reconheceu em seu lugar, numa miniatura maravilhosamente pintada, a réplica do quadro que vira em casa do pintor, aquele que a tinha emocionado e cuja origem era agora uma pequena fogueira já extinta, num ponto negro ao fundo da horta. Estava finalmente diante de um quadro soberbo, uma obra-prima. A luz de um fim de tarde(aquela que tu sabes tão bem como acentua todos os brancos) remetia para a sombra as flores e o pomar, e misturava magistralmente no céu as nuvens e o fumo.  

Nota:
Este texto foi escrito com inspiração nos quadros de Francis Smith em que a figura do pai aparece com frequência em ambiente bucólico, pintada de negro e envergando um chapéu. Tudo o mais é ficção, e como tal rigorosamente verdade. 

8 comentários:

  1. E não será a vida dos outros sempre uma soma de traços esfumados que alternam entre a transparência e a opacidade? Deliciei-me a ler o quadro que (des)montaste a partir de outros quadros e a vida que, com a minúcia de um detetive, desenhaste. E o fumo. E o chapéu. E a ficção que, numa tarde de chuva, acentua tão bem a verdade. Por vezes, a ficção faz mais sentido que a vida.

    Um beijinho, Miss Marple :)

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    1. I'm here for you, but I'm mostly happy that you came here for me.
      Now, try to find me, at the bottom of the vegetable garden. :)

      Miss Marple.

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  2. Claro que é tudo verdade minha querida Teresa Borges do Canto. (Só aquela parte do "ser arrastada" é que... bem... enfim, podia ter assumido que se estreou enquanto "penetra numa festa", tal a fixação que tinha com o pai do Chico.)
    Bom fim de semana,
    Outro Ente.

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    1. Já marquei consulta no vidente, Another Ente.
      Have a nice weekEnte, sorry we can't.

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  3. Essas tuas palavras em inglês sairam tão "domesticadas" que deduzo que as disseste primeiro baixinho para parecerem corretas :)

    Eine liebe Umarmung für Dich (estas sairam-me um pouco selvagens)

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    1. Ainda me vais fazer aprender alemão...
      é verdade, andei em bicos de pés, para não as pisar...

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  4. rigorosamente bem escrito, gostei pra lá de tanto :)

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    1. e eu, que estive a cerzi-lo até às quatro e meia da manhã :), (já tinha escrito este texto há cinco anos, mas nunca o tinha publicado). depois deste comentário acho que valeu a pena.
      obrigada, kim jong-un
      p.s.
      (por mim, quando for avó, prefiro os cabelos compridos).

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