Atalhos de Campo


22.1.16

memória. curta # 14

Era uma senhora de idade. Tinha um cão rafeiro, ainda cachorro. Sempre achei uma prova de juventude, até de alguma insensatez, as pessoas de uma certa idade terem a coragem de voltar a criar um cão depois de terem perdido um cão velho, e de elas próprias se sentirem com tempo de vida insuficiente para tratarem de um cão até ao fim. Eram ambos muito inteligentes, a senhora e o seu pequeno e irrequieto amigo. A senhora era sisuda e morena, mas tinha os olhos muito azuis, de um azul cortante. Porém, quando falava do cão, o olhar adoçava-se e sorria com uns dentes muito brancos, ao contar que ele era muito querido, muito seu amigo, embora fizesse alguns disparates que as empregadas não gostavam de limpar. Parecia-me até que havia alguma cumplicidade entre eles, de modo que as asneiras do cachorro eram desde logo desculpadas, e penalizadas as empregadas, que não tinham boa vontade. Aparecia com frequência com o cabelo grisalho e liso parcialmente coberto por uma boina, e vestia sempre calças pretas com camisolas coloridas. Nunca me pareceu que tivesse grande tolerância para aquelas conversas de amigas. Era filha única, e tinha herdado uma série de casas que geria com alguma eficácia. No Verão mudava-se para uma casa com jardim que possuía em Cascais. A azáfama era mais que muita; a excitação também. Guiava o seu velho Ford bege, achatado e ferrugento, atulhado de malas e sacos, vagarosamente, de Lisboa até à porta da outra casa. Lá, dedicava-se à jardinagem (e o cão a destruir o jardim), e telefonava-me bastantes vezes com dúvidas sobre o cão. Olhe, ele agora está cheio daqueles, ajude-me, bichinhos, pretos, pequeninos, muito rápidos e que dão saltos, ajude-me, pulgas, sim pulgas, ajude-me. Simpatizávamos uma com a outra, eu admirava-lhe a genica e o sentido de humor, por isso a ouvia contar sempre as mesmas histórias sem me impacientar. Nessas conversas era hábito vacilar na escolha de certas palavras, dizia muitas vezes, ajude-me, e eu, pelo sentido da frase, lá lhe tentava encontrar a palavra certa. O inglês, dizia-me, o inglês, foi muito importante para eu subir na profissão. Consegui dominar muito bem o inglês, e fui promovida por isso. Depois confessou-me que após uma queda e um traumatismo craniano tinha perdido os substantivos, mas às vezes já era eu que dizia os substantivos, porque os substantivos também eram substantivos. E assim vivíamos, eu e ela, rodeadas por adjectivos, que empregava com imoderação. A mim parecia-me jolly good.

17 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    A mim aparece-me como uma jolly good friend.
    Bom dia,
    Outro Ente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querido Outro Ente,
      Uma senhora, velha, solitária, inteligente, divertida, colorida, corajosa, ajude-me, jolly nouns free, friend.
      Bom dia também para si.
      (Dobermann, o meu cão de guarda preferido)

      Eliminar
  2. Jolly good!
    Estou a ficar como ela, Teresa, já me faltam os substantivos, os adjetivos e os verbos. Não tarda e enquanto me lembrar passarei a usar mais os advérbios
    exponencialmente e invariavelmente. ;))
    (podia dar-me para pior!)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Invariavelmente exponencialmente, pode ser bom, por esta ordem. :)
      Há advérbios que falam com bom modo, é de aproveitar, Ava.
      Aqui para nós, a escrita é muito terapêutica em termos de elasticidade verbal, uma espécie de "pilates"
      das palavras, género hoje vamos trabalhar os substantivos, como se fossem os bicípedes, os gémeos, os glúteos...cuidado com o tendão de Aquiles! etc., tem-me ajudado nesse aspecto. :)

      Eliminar
  3. E há coisa melhor do que adjectivar?
    Terna história, Teresa!

    Beijos adjectivados :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Quando é com adjectivos bonzinhos é bom dar e receber. :)

      Beijo, Maria Bonita.

      Eliminar
  4. Um retrato bem pintado e fidedigno. Também conheço o padrão. Uma senhora, das tais de semblante sisudo e fechado que já não acreditam, já não confiam num sorriso ou num olhar de cumplicidade lançado. O filósofo bem atentou. Pessoas que ficaram presas ao azedume de algo inultrapassável. Mas depois, têm um cão, um cão sem igual, claro, ao qual se dedicam e só a ele. Essas senhoras em desalinho, com meias de nacionalidade diferente, espalham cor e alma por onde passam, ousam desafiar os olhares de estranheza e de recriminação, perante os acessórios fora de contexto. Enfeitam as trelas dos seus animais, com laços multicor, pompons, latinhas , ou outro adorno improvável, como que a lembrar, a gritar que a amizade de um cão está sempre à mão, a única amizade que reconhecem, ao alcance de um simples gesto.

    Joy!

    Pompons
    Madalena

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Madalena, és impagável! A senhora enquadra-se (quase) nesta tua descrição, excepto naquilo que confere a adornar o cão. Era de um saber estar espartano, e muito comedida nas exibições do seu animal de estimação, excepto que vinha sempre com uma empregada porque já não podia superar as traquinices do cão. Era, no entanto, bastante carente, e várias vezes se emocionou enquanto partilhava comigo algumas tristezas da sua vida. A falta de amor que sentia, o facto de não ter casado, e de não ter filhos, fê-la canalizar toda a ternura num cão, que, de facto, era o único ser que lhe retribuía da mesma moeda. Acontece muito mais do que imaginamos. As cidades estão repletas de casos como este.

      Joie de vivre!

      Guizos
      Teresa

      Eliminar
  5. "perder substantivos"... gostei pra lá de tanto :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. ... e apanhar uns quantos do chão, olhe está ali mais um, ajude-me que já não me consigo baixar :)

      Eliminar
  6. São personagens, figuras de estilo. Só nos resta pois evoluir, para não irmos morrendo, e termos ainda o arrojo de , velhinhas , velhinhas, pormos fores no cabelo e tomarmos banho no lago do grande vale.
    Mas que grande arrojo!

    Bons arrojos
    Madalena

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. é isso Madalena, nunca arrependida :)
      espero que não nos vejam...
      toma lá uma flor

      Bons sonhos
      Teresa

      Eliminar
  7. Eu queria dizer...flores no cabelo...
    Que arrojo!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eu percebi, li logo flores
      gosto de fores com l :)

      Que perfeição!

      Eliminar
  8. Pois, flores com caule! Senão como poderia ser?!| :)

    Seiva!

    ResponderEliminar
  9. E querida Teresa, não faz mal que nos vejam, com uma flor no cabelo, no lago do grande-vale. Aí não há mal nem vergonha. Estamos no Jardim de Éden. Ter-se-á acabado para nós, a expiação da queda do Homem.

    Querida Teresa

    Pétalas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vamos então a isso, querida Madalena, e que a água esteja aquecida e perfumada com jasmim.
      No Jardim de Éden, combinado, sem espiões ;)

      Óleos e Essências.

      Eliminar