Atalhos de Campo


5.1.16

Make (Lóve) Not War

Chegámos já de noite à ilha de Santa Catarina, e procurámos o hotel subindo e descendo um morro em que as casas se escondiam no meio da floresta, assinaladas por pequenos pontos de luz trémula. Foi difícil descobrir a entrada íngreme e estreita com um só sentido que ia desembocando em pequenas clareiras de acesso às cabanas em madeira e vidro, envolvidas por floresta luxuriante. Após três noites em três quartos diferentes, e péssimos, a paciência começava a vacilar, e não fosse estar tudo pago antecipadamente teríamos desistido. Ancorámos finalmente(tudo indicava que era ali),como bandeirantes em busca da cama perdida, e de água quente para um banho que pedia urgência. Nem vivalma. Nenhum carro. Poderia ser o primeiro take de um filme de terror: a chegada de turistas cansados a um apart-hotel em local isolado e escuro, embora com boas referências, metido numa floresta tropical, onde se desenrolariam, noite fora, uma série de cenas de horror, até ao golpe final. É interessante como a tragédia e a comédia podem ser gémeas na origem mas incompatíveis na evolução. Um primeiro plano da mulher que fica à espera dentro do carro e que começa a impacientar-se porque ouve descer e subir escadas, ouve o eco da voz, boa noite, está alguém, está aqui alguém?, já sem boa noite, e ao mesmo tempo teme pela sua vulnerabilidade dentro de um carro com a chave na ignição, coberto de breu, luzes automáticas com sensores de movimento acendendo e apagando a várias alturas do morro, sim morro, e depois sai, porque quer perceber o que se passa, lembrando-se de que a velha buzinadela pode resultar, mas não resulta, porque não há ninguém. Recepção, está escrito na porta de vidro, candeeiro aceso. Abrimos a porta. Há um caderno aberto sobre a secretária, grande e pautado, com diversas anotações incluindo a da nossa chegada, a chegada de as vítimas. No placard de cortiça, colocado na parede à direita, vários recados e uma chave pendurada, com uma etiqueta onde figura um número de cabana, pode ser esta, mas também pode não ser, é melhor telefonar, e o telefone ali a piscar, se agora tocasse instalar-se-ia o pânico, e se alguém já aqui entrou, há um número de telemóvel na porta, o melhor é telefonar mesmo pelo telefone da recepção para o telemóvel que está escrito para emergências, procurar a linha, uf! está a tocar, Alô, uma voz estremunhada, depois um silêncio, boa noite, somos os clientes que chegavam hoje ao fim da tarde, atrasámo-nos, queríamos só pôr a bagagem no quarto para ainda irmos jantar, não está aqui ninguém, estamos a falar da recepção,...como da recepção?(um silêncio gélido, que significava intrusos, enxeridos, abusados) sim está tudo aberto, e não está aqui ninguém mas a luz está acesa e a porta no trinco, o quê, a porta não estava fechada à chave?, não, estava só no trinco, pode dizer-nos qual é o nosso quarto...só queríamos...há uma chave pendurada no placard e o quarto correspondente, também está aberto...

No dia seguinte conhecemos o Daniel, o moço da recepção. No sorriso do Daniel, branco e puro do Daniel, não havia ponta de maldade, era ele mesmo uma porta aberta para o mundo. A camisa branca estava solta sobre as calças de caqui, usava sandálias, e movia-se como uma ave pernalta daquelas paragens, um gracioso Quero-Quero. Daniel, eu gostava de fotografar o jardim, acha que posso ir por aí, não queria incomodar ninguém...e Daniel foi à minha frente, acendendo o caminho, afastando as folhas gigantes para me iluminar o jardim. Daniel, que flor linda é esta?, é uma Helicônia, é colombiana, da minha terra, vim para cá com um amigo que trabalha na hotelaria, é cozinheiro, vivemos em Floripa, no centrinho. Sabe Daniel, ontem assustámo-nos muito, chegar aqui de noite, e não encontrar ninguém...sempre estamos no Brasil, há um certo receio. Aqui não, aqui ninguém leva nada, sabe, às vezes vou de bicicleta fazer compra, e só quando chego em casa me lembro que a bicicleta ficou na porta do mercado, e nunca ninguém pegou ela, se for preciso no outro dia ainda lá está. 

Florianópolis acordara uma vez mais na ilha da magia, onde uma densa floresta agasalha os morros de verde e flores, até ao mar. A baía é como o sorriso do Daniel, cobre-se de luzes e de barcos brancos, as velas como a sua camisa limpa, a areia estreita como as suas calças escorridas até às sandálias, mete-se devagar na água. À tarde conhecemos a proprietária, uma alemã civilizada, e acabámos a rir quando ela disse, ainda bem que foi convosco, se fosse com alemães... Daniel tinha tido folga, para ir pensar que nem todo o mundo é um open space, feito o seu coração. No dia seguinte, já depois de me despedir dele, voltei atrás para lhe deixar escrito o endereço do blogue, no caderno da recepção. A sua candura, embora errada neste mundo em que vivemos, seria, no entanto a forma acertada, evoluída, de vivermos.

Sem comentários:

Enviar um comentário