Atalhos de Campo


19.1.16

A Fotografia

Surgiu-lhe do fundo de uma gaveta quando procurava um documento antigo, e deteve-se a observá-la, deixando-se invadir por uma onda de melancolia que lhe obscureceu o pensamento e o fez esquecer momentaneamente ao que ia. Nunca estaria preparado para lidar com aquela perda, mesmo passados que eram dezassete anos sobre o rosto que agora acariciava distraidamente, desenhando-o com os dedos. Como era bela aquela mulher. Tinha ficado assim para sempre, sentada com os olhos fixos na linha do horizonte, o cabelo húmido e salgado obediente a ladear-lhe o rosto, expectante como a noiva de um homem do mar que nunca voltou. Seguiu-lhe a pele bronzeada da curva graciosa dos braços, contornou-lhe a suavidade dos lábios cheios com o polpa do indicador direito que lhes foi avivando a cor de pêssego, pressionou-lhe as clavículas até lhe encontrar os ombros magros, segurou-lhe com ambas as mãos o pescoço longo, até lhe envolver o rosto com os dedos, e lhe aproximar a cabeça do peito, como tantas vezes fizera. Sentiu-lhe então o corpo num arrepio, o peito dela, agora maior que o habitual, ultrapassava abundantemente o recorte do soutien do biquíni cor de salmão que o cingia, os calções curtos de algodão com flores em tons pastel sublinhavam-lhe a cintura, rematada por um botão. Estava grávida, mas era ainda a elegância da atitude que sobressaía do tronco muito ligeiramente inclinado, do ar enigmático e sonhador na expressão séria do rosto. Entre o arco formado pelas coxas, agarrado pela coleira metálica com ambas as mãos de dedos esguios, um enorme cão azul olhava para a câmara com o ar inquisidor de um guardião. Podia agora, liberto do medo, lembrar-se do toque liso e aveludado daquela pele, inspirar-lhe longamente o cheiro, saborear-lhe uma vez mais a boca sensual com a tranquilidade do impossível, e sem a urgência dos encontros roubados a alguém, demasiado intensos para poderem resistir-lhes, guiá-la uma vez mais nos meandros do amor, como o seu velho mestre. Era a única fotografia que tinha dela. Pouco depois de ter sido tirada ela voltara de férias e procurara-o para dizer que tinha perdido a criança. Que alívio! pensara, que leviano e cobarde fora na altura. Não tinham voltado a encontrar-se, mas um dia vira-a à saída do cinema, talvez uns seis anos depois. Fora tudo muito rápido. Ele estava na fila para entrar e ela saía com uma criança pela mão. Conversavam animadamente, ela olhava para baixo e sorrira ao passar mesmo à sua frente, e não o vira, mas a criança fixara por segundos uns olhos muito azuis nos olhos dele. Ficou a segui-las com o olhar, iluminadas pela luz de catedral das enormes janelas do tecto que fizera toldar tudo em volta, até que as duas silhuetas de cabelos compridos também desapareceram, engolidas pelo corredor seguinte. Já em casa, lembrava-se bem, fechara-se no escritório com a caixa de música que compara com ela em Genève, numa das viagens da companhia, para fantasiar repetidamente com a esbelta bailarina, que numa tarde de amor furtivo, terminada em êxtase de prazer e de lágrimas, pegara nos seus genes e fugira, para livre aparecer anos depois a dançar-lhe no olhar azul e já cansado, com um troféu seu pela mão. E foi esse o último pensamento que teve, antes de voltar a guardar a fotografia.     

9 comentários:

  1. Todas as fotografias contam uma vida. Como foi e como teria sido. Uma fotografia é sempre uma história por escrever. E tu escreveste-a magistralmente.

    Um beijinho, querida Teresa :)

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    1. "Como os teus ombros ontem estavam longe
      como os teus seios hoje ficam perto!
      O desejo é uma lente que te acerca,
      a ternura é um filtro que te esconde...

      Dos meus olhos, agora que estou só,
      nasce de noite um candelabro aceso...
      Tem quatro braços, tem quarenta dedos,
      tem quatro pernas, mas não é o Sol.

      Como o teu rosto morre à luz das velas,
      e como escalda agora a tua pele!
      Colho um gosto de cera nos teus lábios,

      mas de cera que escorre, ainda quente,
      que sabe a sal, a cinza, à tua ausência...
      E suspendo no sono o candelabro."

      David Mourão-Ferreira/ Candelabro

      Obrigada, querida Miss Smile.
      Um beijinho :)

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  2. Querida Teresa, obrigada por tudo. Vou partir e nem sequer tive tempo de ser tua amiga :)

    Um abraço apertado

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    1. Como uma árvore crescemos, lançando ramos rumo ao céu
      Que nenhum lenhador a venha cortar
      Que nenhuma de nós se esqueça disso
      Mesmo que morta de pé para nada sirva
      Mesmo que o seu tronco conte apenas uma pequena história
      Vivida num único anel do seu tempo.

      Um abraço apertado e mudo, como dão as árvores.

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  3. Belo verso de foto, em jeito de "Curta". As fotografias tardiamente revisitadas, são sempre fotografias sofridas, mesmo sem verso. É um misto de dor e prazer. É o antes de tudo, a juventude, a esperança no devir que depois não vem, mas que ainda assim, vale a pena, tem de valer, senão, como se poderá alcançar o grande vale?! Das fotografias e de todo o reino que há nelas, duma coisa eu sei. Só morre, o que já não habita o nosso coração. De contrário, tudo será tão nosso, só nosso.

    Mais um beijinho memorável

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    1. Obrigada, querida Madalena. As fotografias são um reino, tens toda a razão, um reino dos vivos. Fico chocada quando vejo deitar fotografias no lixo, sonhos de alguém misturados com cascas e embalagens vazias. Deveriam eliminá-las, queimá-las, se não as querem guardar, por respeito àquilo que alguém sentiu por uma vez, em algum sítio. Este texto é também isso, uma homenagem à vida secreta das fotografias.

      Um beijinho.

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  4. Fotografias com histórias dentro. Olhamos para elas e ficamos a lê-las. :)

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    1. quase sempre muito mais elaboradas do que parece à primeira vista; um mundo por desvendar. :)

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