Atalhos de Campo


24.1.16

A cegonha

De há uns dias para cá, observo todas as tardes um casal de cegonhas a uns cinquenta metros da casa, a alimentar-se enfiando o longo bico por entre as ervas, na terra amolecida pela chuva. Hoje, porém, uma delas pousou no alto do tronco da palmeira que já morreu, mesmo em frente à janela do escritório, e pôs-se a glotear, suponho que a chamar o companheiro, muito ao jeito humano de querido, encontrei uma mansarda maravilhosa. Tenho a certeza de que, se aqui não vivesse ninguém, já as cegonhas tinham feito uma ocupação clandestina das chaminés e do arranha-céus em tronco nu. Mas o som de matraca do bico não surtiu efeito, talvez porque o telefone do noivo estivesse sem rede, o que aqui por vezes acontece, nem tão pouco a insistente e arrojada dança com véu, que quase a fez desequilibrar dos saltos muito altos. Distraí-me a observá-la, e quando finalmente me decidi a tirar-lhe uma fotografia, ela acabara de desistir de continuar a exibição, e, perante a minha decepção, voou. Passada a desconfiança inicial, quando perceberem ambas que o ambiente é pacífico, talvez tenha outra oportunidade tão boa como a de hoje, e aí acrescentarei uma bela cegonha ao texto. O certo é que esta proximidade me tem feito pensar muito no que me aconteceu faz hoje trinta e três anos, e me transformou na mais feliz e radiosa mulher do mundo. Nada, nunca, se assemelhará à alegria de ter um filho perfeito e saudável, de o amar e de o proteger. E a cegonha é o símbolo desse amor, dessa dedicação. Por isso ando encantada com o bom presságio da sua presença tão próxima. É que quando peguei pela primeira vez numas mãos, que apesar de tão pequeninas me seguraram levemente os dedos, fiquei para sempre cativada, subjugada pela vida.     

10 comentários:

  1. Querida Teresa, em primeiro lugar, muitos parabéns pelo teu filho. O aniversário dele é 3 dias depois do de uma das minhas :-)
    Eu gosto muito muito de cegonhas (sim, eu sei que gosto de uma grande variedade de animais), as cegonhas são maravilhosas e se vou mais vezes a certas zonas do país, deve-se a elas. Fico a olhá-las, a admirá-las e a fotografá-las à doida. Também me sinto "visitada" quando vejo uma inesperadamente.
    Gostei muito do teu post. É bonito como tu.
    Um abraço apertado, de mãe para mãe.

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    1. Agradeço-te de lágrima no olho, a brilhar com a luz desta tua visita tão bonita, querida Susana.
      A cegonha já voltou hoje a fazer a sua dança, diante dos meus olhos, e segredou-me que vem um bebé a caminho, num atalho ao vento. E esse "sinto-me visitada", essa magia pura das tuas palavras, deixa-me uma paz imensa.
      Parabéns pela tua filha, e pela beleza que lhe passaste e passas a cada dia.
      Um abraço apertado, e comovido, de mãe para mãe.

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  2. Parabéns, Teresa, pelo texto magnífico e pelo seu aniversário. Nunca mais nada é igual depois do nascimento de um filho. :)
    Beijinhos

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    1. Ava, agora a dor é no peito...nunca igual, melhor. :)
      Beijinhos também.

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  3. Somos tocadas por um milagre no momento em que vemos um filho pela primeira vez
    Parabéns, Teresa! Que a vida traga ao teu filho muita felicidade!

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    1. O nascimento é um milagre, uma bênção. O seguimento, um passo no futuro a que já não assistiremos, porém nosso.
      Aceito as tuas palavras com muito carinho, e faço-as minhas para ti. O mundo precisa.
      Um beijo Maria, e um dia feliz.

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  4. belas letras, como cegonhas em pares. Parabéns :)

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    1. e essas aqui pousaram, como um casal de cegonhas. Obrigada Manel.
      a chuva ainda não chegou; deve ser atraso nos correios :)

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  5. Entre a tua e a minha primeira maternidade, distam apenas três anos, e é sempre assim, aquele momento sublime corroborado por todos desde tempos imemoriais. O mesmo espanto, perante um ser tão perfeito e acabado, a mãozinha minúscula que agarra o nosso dedo com força, e a alegria única, difícil de conter. A gratidão é imensa, invade-nos e lembra-nos do nosso e apenas ínfimo contributo para tal prémio. Sentimo-nos pequenos e grandes. Lembro-me de gracejar e exclamar: "Ontem éramos dois e hoje já somos três. Como pôde ser isso?". É a vida a segredar-nos que tem muito para dar, só é preciso estarmos atentos, abertos e disponíveis.

    É em Abril que as cegonhas nos costumam vir visitar, para nosso deleite.

    Parabéns, querida Teresa, que bOOOns presságios as cegonhas te trouxeram. Fica feliz, muito feliz. Beijinhos.

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    1. Sinto-me afortunada pelo nosso encontro de palavras, Madalena, e que estas boas partilhas resistam ao tempo.
      A maternidade torna-nos seres suaves, divinos, eternos, repetindo milagres. Recuamos para segundo plano, ou melhor, deslizamos, para que todos vejam o que nos foi dado pelo amor. Não há igual.

      Um dia destes também uma cegonha te visitará, lá para Abril, num dia de sol.

      Que sejas muito feliz também. Beijinhos, querida Madalena.

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