Atalhos de Campo


29.12.16

Mulheres, e as borboletas em frol

Ao ler este ano, Mulheres, de Charles Bukowski, lembrei-me do meu desconforto  quando certa vez abri uma das caixas de sapatos perfuradas onde a minha irmã criava bichos-da-seda. Naquele espaço ínfimo e mal pontilhado de luz, vi dezenas de mariposas entregues ao acasalamento frenético até morrerem esfarrapadas. E eram os mesmos bichos que tinham produzido maviosos casulos em seda.
Seda natural, como se depreende.

Também este ano, numa escrita irrepreensível sem direito a vernáculo,  vi surgir um caçador de borboletas. Incansável. Andava o que fosse preciso até as apanhar. Parecendo gostar do jogo, as incautas abriam as asas trementes de provocação, penteavam as longas antenas à sua frente, como se pusessem rímel usando a glossa, fitavam-no destemidas com olhos de grande angular e submetiam-se à polinização do seu olhar ampliado. Mas o caçador de borboletas nada queria saber das suas belas asas, ou sequer das suas vidas. Quando menos esperavam tinham uma alfinetada certeira nas costas, sempre do lado direito, e uma etiqueta para a posteridade.

Ao ler o segundo, lembrei-me do primeiro. Recomendo ambos. A borboletas.

27.12.16

toma o teu leito*

Fiz uma lista mental aturada, mas mesmo assim ficaram esquecidas
algumas coisas - muito poucas - entre elas um par de canadianas,
o que interpretei como bom prognóstico.

marinha

26.12.16

brinde

o vermelho medronho
destilado é como água
mas o seu espírito é de fogo 

25.12.16

almoço de Natal

Frei Jácomo prega e ninguém entende.
Mas fala com piedade, para ele mesmo
e tem mania de orar pelos paroquianos.
As mulheres que depois vão aos clubes,
os moços ricos de costumes piedosos,
os homens que prevaricam um pouco em seus negócios
gostam todos de assistir à missa de frei Jácomo,
povoada de exemplos, de vida de santos,
de certeza marota de que ao final de tudo
uma confissão in extremis garantirá o paraíso.
Ninguém vê o Cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém.
Nem mesmo frei Jácomo.

Adélia Prado/Missa das 10

22.12.16

o céu esgarçado

Parecia uma seda passada com o ferro demasiado quente: foles e esfiapos num padrão monótono rumo a sul. Premonitório e belo. Era a primeira vez que via um céu assim. Estava na hora de deitar dos pássaros e as pequenas árvores do parque de estacionamento assemelhavam-se a espanadores com flores ao rubro, de onde eles subiam em voos estridentes, verticalmente curtos e assombrados. Reparava no corte profundo, rectilíneo e oblíquo, que rasgara cirurgicamente o enorme tecido de céu politraumatizado, quando o homem das mudanças veio dizer que deviam prosseguir viagem. Já no cockpit, com aquele retalho estranho a ocupar todo o vidro da frente, o homem que guiava a camioneta confessou que nunca tinha andado de avião.

20.12.16

o jardim de rosas

Ao fundo do relvado, conquistado ao saibro, está um jardim de rosas. Para a maioria passará despercebido que o canteiro das roseiras tem a forma de um T gravado na terra, recortado na relva aparada. Na base do T cresce uma roseira diferente de todas as outras porque dá rosas quase negras. É aí, entre a roseira e o caminho em calçada árabe, que está enterrada Swatch, a coelha-brava.

Feliz Natal

(COM OS MEUS AGRADECIMENTOS AO GOOGLE)

19.12.16

discrição

Aparentemente, Mirele entrou no antigo escritório do meu pai para me dizer com simpatia que a minha cadela é muito fofinha e bem-educada, fazendo-lhe muitas festas. Desvio a atenção do computador para conversar com ela. Mirele é romena e consome os seus dias a fazer as mesmas coisas em muitas casas diferentes. Depois diz-me que não pareço avó, que sou elegante, e eu devolvo-lhe o elogio. Sentindo-se encorajada, pergunta-me se tenho saúde. Sem perceber qual a sua intenção, respondo-lhe que suponho que sim, mas que nunca se sabe. Ela sorri docemente, e diz-me que assim é mais fácil superar qualquer contrariedade, com saúde e tempo. Eu digo-lhe que penso o mesmo, desculpando-lhe a inconfidência.

18.12.16

gaivotas em terra

A mulher que já não escrevia cartas de amor, sabia que devia soltar a rola-turca. Então, numa tarde bonita entre os dias de caça, quando a rola lhe pousou na cabeça, a mulher que já não escrevia cartas de amor, em vez de se sentar, abriu a porta que dava para o telhado de entrada, a que tinha um monograma, a que sabia que era a porta principal. A rola que já não esperava voar, assustou-se, e voou entre as janelas sem vidros e o aro sem porta, agitando o ar frio do pequeno alpendre que sabia que não era casa. A mulher achou lindo aquele bater de asas inocente, e então saiu a porta que não era porta, para lhe indicar o caminho que era para a liberdade. A rola que já não esperava voar, seguiu-a, mas em vez de lhe voltar a pousar na cabeça, subiu muito alto no céu limpo, e, a seguir, desapareceu. A mulher voltou a entrar em casa com aquele pedaço de céu vazio nos olhos.

17.12.16

Árvore Virtual, 2016

ana
Cuca,a Pirata
flor
Gábi
Gaja Maria
Impontual.
Isa Sá
Laura Ferreira
Linda Blue
luisa
Madalena Falcão
Manuel Mau-Tempo
Maria Eu
mia dos santos
Miss Smile
Pedro Gordalina
Susana Rodrigues
III
III
III
III
ttt
III
III
Os vossos comentários maravilhosos, que não desistiram
de acompanhar o período difícil em que não li blogues,
não comentei, e não respondi, farão parte dos meus
desejos para 2017. A todos um muito obrigada.

15.12.16

fim da linha


sem emoção

Subia a avenida do liceu. A cintura, que era tão estreita que cabia entre dois polegares e dois dedos médios esticados, sumia-se dentro da blusa de algodão indiano tingido com velhas cores do arco-íris. Ao trotar ligeiro das socas no passeio, soltavam-se-lhe do cabelo comprido fugazes brilhos de hena, e uma alça larga, sustentando a mala de carneira demasiado pesada, pendia-lhe da  clavícula saliente como de um cabide. A subida acentuava-se numa curva ampla e um descampado separava a zona residencial do edifício em betão e vidro protegido por um gradeamento, por onde ela desaparecia antes de a campainha tocar para as aulas. Era costume fazer entorses nos tornozelos, o direito, o esquerdo, ou ambos. Claro que sabia que a culpa era do peso das socas de sola  de madeira, troc, troc, troc, onde insistia em enfiar diariamente os pés nus, que por isso lhe escorregavam. Sempre que havia um furo metia-se por atalhos campo fora, caminhando entre as alfarrobeiras e o grito quente das cigarras, em direcção ao mar. Mas quando reparou que os baldios tinham desaparecido, passou pelo liceu e não entrou. Em vez disso, dirigiu-se a passo rápido para a praia deserta, e faltou às aulas pela primeira vez na vida. Aos setenta anos.        
         

11.12.16

A felosa

A pequena felosa agarrou-se com força às grades e não se mexeu durante um bom bocado, ambientando-se à penumbra. De vez em quando ia espreitá-la para ver se reagia. Secara-lhe bem as penas com um papel absorvente, mas reparara que continuava a respirar com o bico aberto. De início optara por colocá-la no quarto, a divisão mais quente da casa. Pela hora do almoço descera com ela para a sala, não para muito longe da salamandra acesa. A felosa entretanto arrebitara bastante, saltitando de poleiro em poleiro, e não parecia nada incomodada pela exiguidade do novo espaço, comportando-se como se tivesse vivido sempre numa gaiola. À oferta da primeira mosca reagiu com precisão, tragando-a num ápice. Durante as três horas seguintes voou alegremente e comeu mais seis moscas e uma traça, tornando-se o centro das atenções. Porém, ao cair da noite, subitamente aninhou-se, e escondeu a cabecita por baixo da asa. Estranhamente não se empoleirara para dormir, e em vez disso encostara-se à taça onde estava a água. E foi assim aconchegada que se deixou a pouco e pouco escorregar, e que nem deu conta que já tinha morrido. 

7.12.16

ralacionamento

Qualquer relação com um ralador é sempre uma ralação. 

a dupla-face

transforma-te o ralador em cousa ralada

O ralador

O ralador era banal, uma superfície metálica, desigualmente áspera pelos diferentes crivos de espessura de corte, rematada por dois suportes em plástico, (daqueles que toda a gente já teve pelo menos uma vez na vida). 

26.11.16

O casaco da trisavó

A bisavó escolheu a lã mais macia e branca. Talvez a tivesse encomendado em meadas, não me recordo. Quando era assim, uma das mais novas ajudava a dobar a lã mantendo a meada tensa entre as costas das mãos afastadas à medida, balouçando os braços ritmadamente para fazer soltar o fio. A minha avó fazia com rapidez um novelo perfeito e guardava-o no saco de tecido onde colocava o trabalho embrulhado num pano muito limpo, juntamente com as agulhas. A bisavó entrava em competição ciumenta com a avó do outro lado, e tentava sempre superá-la, tanto em número de peças quanto em mestria, embora quando se encontravam para mostrarem uma à outra as lãs tricotadas, trocassem entre elas sorrisos encantadores. A bisavó gostava muito de pessoas. Foi também por isso que resolveu tornar aquele amor crescente num longo abraço de casaco comprido e capuz, apertado à frente por uma presilha com um único botão. O grande desafio para ela fora a trança larga, feita na horizontal ao nível do aconchego dos ombros, que fez e desmanchou várias vezes, como lhe acontecera no colégio com os exercícios de matemática até darem certo. Depois desse verdadeiro obstáculo superado, o casaco, sempre muito branco, foi crescendo rapidamente colo fora, até à véspera do baptizado do meu filho. Suspeito que rezava pelo seu menino enquanto ia acrescentando fiadas, tecidas como contas que lhe deslizavam por entre os dedos. Sempre me pareceu, conhecendo-a, que a minha avó, sabendo que nunca poderia viver o suficiente para o conseguir, secretamente desejava, para a sua obra-prima, o que veio a acontecer: poder abraçar com ela também uma trineta, com a mesma brancura que só o amor torna possível. E foi por isso mesmo que guardei com esmero aquele pequeno casaco feito por ela, durante trinta e três anos.

20.11.16

o ascendente e a boa pessoa

O Víctor de Sousa fez agora setenta anos e é escorpião, como tu. Vi-o num programa de televisão, rodeado de amigos. Também estava presente um astrólogo conhecido, entre vários escorpiões..., que referiu que o elemento do teu signo é a água; quando o ascendente também é um signo de água, afirmou ele, as pessoas de escorpião são mais sensíveis, ligadas às artes, bondosas... Sabes qual é o do teu? Exactamente esse, sou água mais água... Ai sim? Então és boa pessoa, garantiu a minha mãe.

14.11.16

A crítica das árvores

Tenho para mim que os críticos são pessoas que não contemplam as árvores. Pessoas assim andam perto de enlouquecer e sofrem de dores de cabeça permanentes. As árvores, como objectos que atraem e repelem a electricidade, como bem reparou o bom Benjamim Franklin, estão em condições de servirem de meio curativo a certas moléstias cerebrais que produzem a crítica. 

Agustina Bessa-Luís/ Os Críticos-I

12.11.16

O voo de Suzanne # repost 23


Se estivesses aqui dava-te o braço, e passeávamos nas tréguas da chuva por entre choupos e pássaros; veríamos as galinhas atarefadas a esgravatar na terra húmida, os borregos tão brancos e juntos a brincarem como crianças num infantário e as ovelhas a berrarem por eles como mães-galinha; e íamos rindo e vendo, e parando para tu descansares um pouco o teu olhar da cor das árvores, tão quietas como este sol submisso do primeiro dia de Outono. E talvez nos lembrássemos de quando levei a Suzanne para nossa casa, e aí tomaríamos o caminho da ribeira como náufragos do passado ao som daquela voz antiga e consensual que nos enchia os domingos, até que nos pedias para pormos a tocar - só mais uma vez - o pastelão. Era o epíteto ternurento que lhe davas quando ainda não sabíamos, porque agora nos disse, que uma assinatura não consegue roubar a liberdade.

Ao meu pai

Publicado a 22/9/2014

11.11.16

ai...

em menos de 24 horas, chamaram-me A., depois I., o que me deu uma ideia brilhante

Cohen the poem

I heard of a man
who says words so beautifully
that if he only speaks their name
women give themselves to him.

If I am dumb beside your body
while silence blossoms like tumors on our lips
it is because I hear a man climb stairs
and clear his throat outside our door.

Poems 1956-1968/Poem
Leonard Cohen(1934-2016)





Poem


subliminar

apareceu em evidência no escritório, soterrando Munro, Modiano, Dylan, um livro sobre poda, mas não uma poda qualquer: trata-se
de - A Poda - sob orientação da sociedade real de hortofruticultura da Grã-Bretanha. Não sei se consigo.

9.11.16

Cinco perguntas mais uma para Donald Trump

Quem és tu, na verdade, que queres falar ou cantar para a América?
Estudaste bem o país, os seus idiomas e os seus homens?
Aprendeste a fisiologia, a frenologia, a política, a geografia, o orgulho, a liberdade e a amizade do país? Os seus fundamentos e objectivos?
Pensaste no convénio orgânico do primeiro dia do primeiro ano da Independência, assinada pelos delegados, ratificada pelos Estados, e lida por Washington à frente do exército?
Conheces a fundo a Constituição Federal?
(...)
O que é que trazes à minha América?

Walt Whitman/1860

a décima quarta emenda

este blogue passará a ser inconstitucional 

genuflexão

Ajoelhada na relva inclino-me sobre o canteiro, para o limpar de raízes, pedras, pequenos ramos, folhas secas. Algumas raízes estão fortemente agarradas e são profundas, formando uma intrincada rede subterrânea. Enfio então os dedos por entre elas e puxo-as com a mesma força que usaria para extrair um dente carniceiro. Quando cedem, por fim, trazem atrás de si um repuxo de terra, que, em jacto inesperado me vem salpicar os olhos, antes de cair pesadamente sobre as minhas botas, originando um som semelhante a uma toalha tão ensopada como estaria se tivesse havido ruptura de uma artéria. Em prolongamento do esqueleto descarnado da minha mão direita, o ancinho, de dedos crispados, luta como uma arma impiedosa, até arrastar o que ainda resta da relva morta. É com esforço que tento manter a posição totalmente anti-ergonómica escolhida por alguns dos peregrinos que na adolescência via passar em frente ao colégio, a caminho de Fátima. Quando a terra fica pronta vou buscar a enxada para abrir quatro buracos desencontrados. Pego, um por um, em cada crisântemo, e viro os vasos ao contrário. A gravidade devolve-me, a cada vez, um novelo rígido de raízes para a mão, igual ao pé enfaixado e doloroso de um bonsai, uma miniatura quase igual a tudo o que acabei de arrancar. Ajoelho-me de novo, para aconchegar a terra e compactá-la, antes de me levantar. Ao olhar com alívio para o trabalho concluído, percebo finalmente porque, apesar de ajoelhadas, certas pessoas se recusam a rezar.


2.11.16

no reino de Hades


































































































a um homem morto

Eu vi morrer um homem e caminho
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis

Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto

arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me 
a café

há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
Mistério de maresia ou de ninguém

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome


Ruy Belo/ Turismo
Boca Bilingue

José Tolentino Mendonça/ Uma coisa a menos para adorar
A Noite Abre Meus Olhos [poesia reunida] 

à noite

As osgas têm um eu? As plantas têm um eu apesar de não terem cérebro? 
E as pedras? O eu, um eu, o meu eu precisa de luz e de escuridão. 

Adília Lopes/ Poesia Reunida

Costa & Marcelo juntos e ao vivo

1.11.16

pão sem deus

Na esplanada junto à igreja, uma pequena pomba, vestida de cinzento banal e com um defeito numa pata, encontrou, sob uma das cadeiras, um pedaço de pão. Feliz com a descoberta, atirou-o ao ar depois da primeira bicada, tentando desfazê-lo para melhor o comer, e logo perdeu o lugar, pois um macho garboso, de penas claras, ao avistá-lo no zénite, imediatamente lho roubou. De peito feito, a arrolhar, começou a chamar o seu séquito, enquanto enxotava a pomba manca e a perseguia, à bicada. Surgiu então um trio esvoaçante de belas e jovens columbinas a atravessar o sol, que tombava já sobre os mármores imponentes da igreja, entre o qual ele passou a rodopiar, oferecendo pão a cada uma, alimentando-lhes a formosura. Mas por vezes, perdido em meneios de arlequim, errava a pontaria, e o pão disparava na direcção da primeira que o recuperara, como se de um jogo do ringue se tratasse. Mata, mata, atiçavam em gritinhos as outras, e ele investia sem convicção, mal disfarçando a indiferença. Nisto, levantou-se de uma das mesas uma mulher de nariz adunco como um bico curvo, seca como uma côdea velha, séria como uma pedra, e, perante a minha perplexidade, espezinhou com força o bocado que restava. E fê-lo uma e outra vez, até lhe saltarem migalhas da face amarrotada contra o passeio sujo, como se estivesse a apagar uma beata, pondo fim ao jogo. A primeira pomba voltou então, a coxear, e, confundindo-se com a calçada cinzenta, começou a comê-las, com avidez envergonhada.   

bruxedo



*Esta casa cheira a alho
 aqui mora um espantalho
 esta casa cheira a unto
 aqui mora um defunto*

 nesta casa cheira a bolos
 mas aqui só moram tolos
 nesta casa nada medra
 porque aqui só comem pedra

31.10.16

leite de rosas

Estavam as duas no jardim,
quando cheguei com as rosas 
acabadas de colher
e a criança estendeu os braços, sorriu
como se as quisesse receber.
Ofereci então o seu perfume 
para que a mãe 
o sentisse como eu, 
acreditando que um aroma assim
passaria do meu peito para o seu. 

30.10.16

os que falam de mim

Os que falam de mim dizem que sou pobre
Existo à maneira de uma árvore
Tenho diante e atrás de mim a noite eterna
Vacilo, duvido, resvalo
E sei: a maior parte das vezes o amor nasce do erro
transcreve-se a azul ou a negro
sobre passagens, casas inacabadas, alturas remotas

Observá-lo apenas serve
para tornar contundente a sua forma nunca exactamente igual
a sua incrível velocidade destacada no meio do nada
enquanto a noite se desmorona
sempre mais bela

José Tolentino Mendonça/ It's Time To Be Clear

29.10.16

aniversário com o google # repost 22

Impossível não acreditar, se o Google me deu ontem os parabéns de manhã, mal abri o computador. O dia foi passando, e de facto ficou provado que fazia anos. Começaram a chover telefonemas, mensagens, dois telefones a tocar ao mesmo tempo,( há anos em que não compreendes, de facto existes). Mas a certa altura o telemóvel tocou, eu não pude atender, (porque falava no outro telefone, o fixo), e insistiu mais que uma vez. Depois fui eu que liguei para aquele número (para dar os parabéns a mim própria, como digo por graça). Era um senhor, meu ex-cliente, já com muita idade, que me disse que ficava com pena se não tivesse conseguido falar comigo ontem, porque nunca se esquecia do dia do meu aniversário; e depois pediu se me podia telefonar de vez em quando. Eu lembrei-me que ele também tinha feito anos, aproveitei para lhe dar os parabéns, para lhe perguntar se estava bem, ao que me respondeu que sim, mas que agora dormia cada vez pior, que acordava muitas vezes durante a noite e, preocupado, ia verificar se a mulher respirava.

Publicado a 28/10/2014

28.10.16

cérebro & cérbero

Um cão castanho, já velho, circulava sozinho pela praça. De peito decidido abria caminho por entre as pernas dos transeuntes, ao impulsionar o corpo para a frente, conseguindo disfarçar a rigidez dos membros posteriores, embora o movimento, quando observado no seu todo, lembrasse a oscilação de um pêndulo trôpego a precisar de lubrificação, balouçando entre os quadris em equilíbrio precário. Com a cabeça perdida num labirinto em curto-circuito, parava bruscamente junto àquilo que parecia ser a abertura de uma grande lacuna, semelhante, por exemplo, a ter-se esquecido de quem era o dono. Porém a coleira, de um amarelo fluorescente e demasiado comprida, com uma ponta que lhe pendia do pescoço pregueado, como se fosse o cachecol de um velho decadente e garrido, não deixava margem para dúvidas, e, ao tropeçar nela, a todos deixava prosseguir em paz. Na segunda volta à praça, parecia ter finalmente encontrado coisa, porque de súbito levantou o focinho (já muito branco), do chão, para ficar a cheirar o infinito, e fez uma inflexão inesperada na marcha titubeante, dirigindo-se lépido para o fontanário, apesar dos olhos vendados pelas cataratas. Com inusitada agilidade saltou para a borda da água - no exacto local de onde tinha acabado de sair uma rapariga - e começou a beber sofregamente. O sofrimento causado por aquela tarde demasiado quente, fora um forte estímulo que se lhe alojara, directo, no centro da sede.

médico e médicos

Poderá parecer estranho para muitos que, numa reunião
destinada a cantar os triunfos da moderna ciência
médica, eu tenha escolhido um tema tão cinzento na cor,
como sinistro no perfil e amargo no travo - o erro em
medicina. Far-me-ão a justiça de crer que não me moveu
um intuito moralista, ou que pretendo transmitir-vos o
segredo que nos permitiria praticar uma arte porventura
infalível, mas, talvez, sem alma. Só um político como
o príncipe Metternich para poder declarar «L'erreur n'a
jamais approché de mon esprit».

(...)


E não tenhamos ilusões: os médicos não têm amigos,
nem no governo nem nos meios de comunicação social.
Todos gostam muito do seu médico, mas a maioria não
gosta dos médicos.

João Lobo Antunes(4/6/1944 * 27/10/16) 
Um Modo de Ser*Sobre o erro

27.10.16

fontanário

Enquanto uma rapariga era praxada em grande algazarra, o homem sentado à minha frente bebia calmamente uma imperial, ignorando o chafariz onde tudo estava a acontecer. Parecia ter sido, também ele, cuidadosamente engomado ao mesmo tempo que a T-shirt preta, sem um vinco, que lhe acentuava a palidez: nem uma pequena onda no cabelo encanecido, nem a mais leve ruga lhe sobrara na testa inclinada onde a luz do fim da tarde viera pousar; e os olhos, pequenos, procuravam insistentemente o céu, que lhes devolvia um azul desbotado, por entre os espaços dos chapéus de sol da esplanada. Enquanto obrigavam a jovem caloira a mergulhar na água da fonte, chegou um amigo, que se sentou à mesa com ele. Conversavam baixo, em francês, mas não segredavam. Pareciam apenas não dar conta do bulício da cidade, como se estivessem no interior de uma cabine à prova de som. A rapariga foi obrigada a ajoelhar-se e a colocar-se de gatas, para que a madrinha se pudesse sentar nas suas costas, mas depois levantaram-se, abraçaram-se, e desapareceram por uma das ruas que dá acesso à praça, acompanhadas pela comitiva a cantar e a bater palmas, deixando o mármore em volta da fonte estranhamente molhado. Na mesa à minha frente, instalara-se entretanto aquilo que parecia ser um longo e intrigante monólogo. O homem caucasiano falava gesticulando com moderação, enquanto o outro, bastante moreno, de cabelo ondulado e grisalho, olhava atentamente, através de uns óculos de armações grossas em tartaruga, para um pequeno caderno de pontas encaracoladas e sujas, talvez por ter andado muitas vezes no bolso traseiro das calças. Dei comigo a pensar como era possível aquilo, como é que ele conseguia ler - porque voltava as páginas - enquanto o outro falava, quase sem parar. Só depois me apercebi de que as páginas eram viradas, apenas, durante algumas das curtas pausas no monólogo. Concluí maravilhada que o homem ensaiava ali mesmo, naquele fim de tarde magnífico, a declamação de um longo poema, e que não hesitara, sequer, uma única vez. Quando o caderno chegou ao fim dirigiu-se então ao amigo, num português arranhado, com o alívio de missão cumprida, e, quebrando o ritmo imposto com uma suave gargalhada, deu-lhe um pequeno murro de vitória no ombro. Anoitecia. Eu vestira o casaco e continuava a minha leitura disfarçada, à luz dos candeeiros acesos da rua.  

25.10.16

Outono, terceiro movimento

Entre as mesas, o fumo e as palavras, descia sobre
nós como uma vaga o 3.º movimento do II Concerto de
Rachmaninov e como o vento entre árvores de Outono
nos desfolhava segundo a regra da sua melancólica
dissolução.

Eduardo Lourenço/ Rachmaninov, Concerto n.º 2 

Outono, adagio sostenuto














24.10.16

pico

Por vezes, conseguir retirar um pico profundamente espetado
no dedo médio da mão direita, com o auxílio da mão esquerda,
pode ser o maior êxito do dia.

23.10.16

ultimatum

Ave, ávido.
Ave, fome incansável e boca enorme,
come.
Da parte do Altíssimo te concedo
que não descansarás e tudo te ferirá de morte:
o lixo, a catedral e a forma das mãos.
Ave, cheio de dor.

Adélia Prado/Anunciação ao Poeta

angina pectoris

22.10.16

como ler um blogue

AÇÃO
NEG
AB

( II )












































depois da chuva


voando sobre um ninho de cucos # repost 21

Às vezes ponho-me a pensar como seria a *Internet*, nomeadamente as redes sociais, se grandes escritores já desaparecidos pudessem fazer parte deste mundo virtual. Tenho a certeza que Fernando Pessoa aderiria desde o primeiro minuto, que acharia maravilhoso digitar ideias à velocidade da luz até altas horas da madrugada, publicando posts atrás de posts, sem precisar de ver ninguém. Inventei-lhe um nickname, O Emboçado, cogitei se optaria por ter mais um heterónimo, O Vanguardista, ou se enveredaria pelo ocultismo(encontrando parceiros ocultos por todo o lado), ou por ambos, ou por mais ainda, nutrindo leitores num milagre semelhante ao milagre dos peixes. Virginia Woolf seria a bela Mata Hari, capaz de engendrar aparecimentos, desaparecimentos e metamorfoses, como a partida que pregou enviando um telegrama falso - que neste caso seria um e-mail - para um navio de guerra inglês fundeado em Weymouth, fazendo-se passar com os amigos do Grupo Bloomsbury - neste caso seguidores do seu blogue - por uma delegação de diplomatas abissínios, (pintando-se de negro e envergando roupas exóticas) - neste caso outfits -  ao ponto de conseguir receber honras de hino nacional e bandeira, com o devido castigo quando o embuste foi descoberto, o que provavelmente hoje não aconteceria. E Óscar Wilde, o Dorian Gray, não aproveitaria, dadas as suas tendências sedutoras, para se infiltrar em chats, usando várias máscaras de juventude para não ser reconhecido, e com isso dar largas com sucesso, e sem punição, às suas tentações?

Publicado a 5/12/2014

blogo esfera

*Divide et impera*

21.10.16

memória. curta # 26

Nunca me esqueci de um conselho dado a certa altura por um professor, numa das aulas de clínica: aquilo que parece, muitas vezes não é; aquilo que nos dizem os donos é importante, mas temos que analisar para confirmar, e sobretudo, quando subsistem dúvidas, partir do zero, usando todos os sentidos e toda a atenção, para concluirmos por nós próprios. E este conselho, aparentemente banal, ao repetir-se na minha memória como o refrão de uma música sempre nova e diferente, foi o responsável por ter conseguido salvar algumas vidas.   

Estava marcada uma eutanásia para o final das consultas daquele Sábado. Alguém telefonara a dizer que tinha um cão com ataques convulsivos repetidos, suspeito de tumor no cérebro. A resposta fora que qualquer eutanásia pressupunha uma consulta prévia ao animal em questão, visto não ter ficha clínica, e que, na sequência dessa consulta, o animal poderia vir a não ser eutanasiado. Vi um senhor inclinado sobre um cão, um Cocker spaniel azul ruão lindíssimo, e a auxiliar veio dizer-me que o dono, antes de entrar, pedira para lhe dar uma guloseima como despedida. Eu permaneci sentada à secretária, com a porta para a sala de espera aberta, observando comovida aquela imagem complacente do dono, num último gesto de ternura para com o seu companheiro. Mas com brevidade percebi que a figura masculina se ajoelhava ao lado do animal, e que tinha a mão entre os seus dentes, que a abocanhavam sem largar, num espasmo convulsivo. Levantei-me da secretária e corri para o ajudar. Ele gemia de dor, curvando-se cada vez mais sobre o corpo do cão, que deitado no chão, lhe apertava brutalmente os dedos, fixados entre os quatro caninos. E todas a minhas tentativas foram infrutíferas para lhe abrir a boca, ao ponto de ter pensado dar-lhe a injecção letal ali mesmo, para poder libertar a mão do proprietário. Quando a convulsão terminou, segundos depois, felizmente antes de ter consumado a minha intenção, pude verificar o estado deplorável em que fora deixada a mão altruísta, ao fazer-lhe um curativo. No chão da sala de espera reparei que ficara esquecido um pedaço de chocolate.

Comecei a consulta inquirindo sobre aquela última guloseima (que poderia de facto ter sido a última), e o pobre homem, ainda com fácies crispado de dor, respondeu que gostava muito de chocolate e que o partilhava vezes sem conta com a cadela. Quando eu lhe disse que um cão de 10 Kg podia morrer se comesse um chocolate de 250 g, começou a chorar ali mesmo. Expliquei-lhe que os cães não conseguem digerir o chocolate como nós, particularmente a teobromina, um dos seus componentes, que por isso se acumula no organismo, incluindo o cérebro, causando convulsões e outros problemas do foro neurológico. E que o efeito de pequenas quantidades oferecidas por muitas vezes, valem o mesmo que um chocolate inteiro, pelo seu efeito cumulativo. 

Valquíria não foi eutanasiada. Em vez disso fez um tratamento paliativo para a intoxicação por chocolate e foi proibida de alguma vez mais tocar nas guloseimas do dono, que isso sim, seria curativo. Afortunadamente a dentada que lhe dera não fizera ferida; nada que um pouco de gelo e um anti-inflamatório não pudessem resolver.   

20.10.16

como acabar com a caç...













A vírgulas guindei torpes cedilhas...

Alexandre O'Neill/ Poesias Completas

Como dominar uma vírgula

Segundo Alexandre O'Neill, poeta português:


rebaixar a vírgula
à condição de cedilha.

Quinta-feira: a caça às vírgulas






















Uma alegria de vírgulas em fuga
de um texto mais difícil que uma purga!

Alexandre O'Neill/ Poesias Completas

a vírgula maldisposta


















Quando estou mal disposta
(e estou-o muitas vezes...)
mudo o sentido às frases, 
complico tudo...

Alexandre O'Neill/ Poesias Completas

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nunca soube cozinhar, para muita gente

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nunca soube cozinhar para muita gente

19.10.16

a minha cadela, essa dissimulada

Descobri que a minha cadela, o único ser em que eu confiava, que sempre me acompanhou para todo o lado, que tem vários comportamentos extraordinários, que sabe muitas palavras e expressões (bastante mais de vinte), que, de há uns tempos para cá, insiste em emitir sons guturais, mais ou menos prolongados e entoados, como se estivesse a falar comigo, afinal usa toda essa panóplia de capacidades para me mentir descaradamente. Por exemplo, vem dizer que já comeu tudo, para ter um prémio. Só que por vezes não comeu tudo, e eu, desconfiada, dirijo-me à taça da comida com ela, para verificar; perante a minha interjeição de desapontamento, ela finge, recomeçando a comer, ou pura e simplesmente deixa-se ficar a olhar para mim, com expressão de quem foi apanhada. As guloseimas, que dantes eram biscoitos próprios para o efeito, foram agora substituídas na perfeição por pequenas côdeas de pão, que ela reconhece como sendo um ossinho. Ela sabe que primeiro tem que se sentar para receber o prémio e é o que faz sempre, perante o meu gesto silencioso, com o indicador apontado para o chão. Mas a sua mentira é ainda mais elaborada. Aceitando o pão, ela muitas vezes não o come logo, e vai escondê-lo. Durante o meu jantar tem o hábito de vir pedir mais um ossinho. Eu pergunto-lhe onde está o ossinho que lhe dei; ela disfarça, como se não soubesse, insistindo em pedir outro. Mas quando, já no final do jantar, percebe que não vai ter nenhum, dirige-se sorrateiramente ao local onde o escondeu e vem comê-lo para perto, resignada.  

Konrad Lorenz, em *E o Homem Encontrou o Cão*, dedica um pequeno capítulo aos animais que mentem, dando exemplos dos seus próprios cães, e de chimpanzés. Também refere que os animais capazes de mentir são mais inteligentes do que os outros, talvez por este comportamento ser também, tipicamente, o dos homens mais inteligentes.   

18.10.16

cavidades

- Este foi morto com um tiro em cheio no coração!
- Ai sim? Na aurícula direita?

Quintas e Domingos



Os caçadores não matam animais por necessidade, mas por prazer,
e não sentem qualquer empatia em relação ao sofrimento que causam, 
em relação à dor, ao susto, à agonia. A caça será um dia encarada 
com o mesmo espanto com que hoje olhamos para coisas horríveis 
que a humanidade fazia antigamente, como as execuções públicas, 
a tortura pública ou o tráfico de escravos, mas hoje é designada 
«desporto» e a maior parte das pessoas acha que não tem mal nenhum.


Paulo Varela Gomes/ Quintas e Domingos 

vitrinismo


natureza-morta com espingarda, peles e penas

óleo sobre madeira* anónimo séc. XXI

Cavatina

desporto













































































































Com os meus agradecimentos a Nuno Baptista.

ausentes

já recebi presentes que eram autênticas agressões

é perigoso oferecer*

Às vezes, ter de oferecer qualquer coisa deixa-nos à beira do abismo, complica-nos de uma tal maneira a vida, até um ponto que nunca suspeitaríamos. É perigoso oferecer. O gesto é, desde logo, a extrema manifestação de uma arte elegante, mas convém não esquecermos que tem o seu lado selvagem.

Enrique Vila-Matas/ Diário Volúvel

O presente de amor procura-se, escolhe-se e compra-se na maior excitação - excitação essa que parece ser da ordem da felicidade. Calculo activamente se este objecto dará prazer, se não desiludirá ou se, pelo contrário, parecendo muito importante, ele próprio não denunciará o delírio - ou o logro - em que estou preso.
(...)

O presente não é forçosamente uma sujidade mas, de qualquer modo, tem vocação de resíduo: o presente que recebo, não sei que fazer dele, não se ajusta ao meu espaço, é um empecilho, está a mais: «O que devo fazer da tua oferta!»; «A-tua-oferta» torna-se o nome-farsa do presente de amor.

Roland Barthes/ Fragmentos de um Discurso Amoroso