Atalhos de Campo


5.12.15

vergonha da infelicidade

Agora vou saltar os anos para ir até Genebra. Era então jovem e muito infeliz. Parece-me que os jovens gostam de infelicidade; fazem os possíveis por serem infelizes e geralmente conseguem-no. Descobri então um autor que foi sem dúvida um homem muito feliz. Deve ter sido em 1916 que deparei com Walt Whitman e então senti vergonha da minha infelicidade. Senti vergonha porque tinha tentado ser ainda mais infeliz lendo Dostoiévski. Agora que reli Walt Whitman e também biografias suas, suponho que quando Walt Whitman leu as suas Leaves of Grass pode ter dito para si próprio:«Oh! Se ao menos eu fosse Walt Whitman, um cosmos, de Manhattan o filho!». Porque ele era sem dúvida um homem de um tipo muito diferente. Sem dúvida ele criou Walt Whitman a partir de si próprio - uma espécie de projecção fantástica.

Jorge Luis Borges/Este Ofício de Poeta 


Walt Whithman, um cosmos, filho de Manhattan,
Turbulento, carnal, sensual, que come, bebe e procria,
Não um sentimental, não um espectador acima dos homens e mulheres
             ou afastado deles,
Nem mais modesto que imodesto.

Desaparafusem as fechaduras das portas!
Desaparafusem as próprias portas das ombreiras!

Quem quer que avilte um outro homem avilta-me a mim,
E o que quer que seja feito ou dito acaba por se voltar para mim.

Através de mim agita-se a inspiração sempre, a corrente e o índex.

(...)

Ao dirigir-me para o terraço de minha casa, paro para pensar se é mesmo real,
Uma trepadeira de campainhas na minha janela dá-me mais prazer que a metafísica dos livros.
(...)
Walt Whitman/ Folhas de Erva



(...)
Os soldados arrancam-no ao poste.
Lívido,
Como que apagado, o seu rosto desfalece.
Brutalmente,
Incorporam-no no cortejo.
O seu olhar
Como que se vela e fixa em íntima visão.
E, na sua boca que treme,
Paira o riso pálido dos Karamasoff.

Dostoiévsky/ Momento Heróico
Petersburgo, Praça Semenov
22 de Dezembro de 1849 

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