Atalhos de Campo


27.12.15

Perséfone e o Galo Capão

Fora devido ao aquecimento global do planeta que Perséfone se decidira a planear a fuga. Começaria a passar muito mais tempo longe da depressão do mundo subterrâneo. Por isso alugou uma casa em segredo numa das colinas da cidade, e rodeou-se de poucos objectos. Estudava com precisão os hábitos humanos, para conseguir passar despercebida. Ainda naquela manhã, ao regar os narcisos já nascidos dos bolbos que plantara, tinha mais uma vez regressado, por um qualquer atalho, aos perversos ardis de Hades. Agora, que estava finalmente por sua própria conta, queria esquecer e colocar-se o mais possível na pele de uma vulgar cidadã do mundo. Decidira portanto que iria celebrar o Natal. O galo assava já adiantado, inundando a cozinha de aroma suculento a mel pimenta e limão, a salada preparada com alface, chicória e cebolinho aguardava o tempero na bancada, o refogado para o arroz árabe estava feito. Tudo no seu tempo, pensou, sem stress, e suspirou de satisfação ao passar pela sala de jantar, com a mesa já posta sobre a toalha de renda antiga, onde os copos pareciam captar toda a luz do sol do fim da manhã, iluminando-lhe o olhar. Agradou-lhe o colorido das flores em pequenos tufos no meio dos frutos, as velas a várias alturas, o brilho acetinado mas gélido dos talheres, o verde jade da toalha sobre a qual assentava a renda branca, como um véu. 

Pegou numa romã do centro de mesa e levou-a consigo, pousando-a na borda da banheira. Era uma espécie de teste. Não se deixaria mais tentar pelo brilho das bagas translúcidas que lhe tinham estalado na boca, como um afrodisíaco de travo amargo. Enfiou-se devagar entre os sais e pétalas de flores da água, e foi mergulhando ao longo da banheira até que a água quente lhe cobrisse também o rosto. Fechou os olhos e sentiu que os cabelos lhe deslizam pelas costas, e que depois flutuavam como se tivesse acabado de morrer afogada. Deixou-se assim ficar, imóvel, elevando ligeiramente a cabeça, enquanto inspirava o vapor perfumado que se libertava à superfície. O gotejar propositado da torneira fazia eco na casa de banho, contribuindo para lhe descontrair o corpo imerso, abandonado em suave torpor. Mas ao entreabrir os olhos, Perséfone encarou mais uma vez a Mulher no Banho de Roy Lichtenstein, que lhe sorria  da parede em frente, e empertigou-se. Imitou-a, e, pegando na esponja natural, iniciou a massajem ao corpo, num gesto lânguido, mas contrariado. Começava a achar insolente aquele sorriso sempre igual, e irritava-a a diferença de idades, pois Perséfone, embora fosse ainda uma deusa, principiara já a sentir o peso dos séculos. O chuveiro de água tépida em jacto sobre o corpo antes de sair da banheira, fê-la despertar. Enrolou-se na toalha branca, que deixou fugir uma fímbria de luz de volta à janela alta, e dirigiu-se para o quarto. Ao atravessar a própria sombra como um pincel molhado, o cabelo foi deixando um rasto salpicado por entre as pegadas dispersas, aguareladas sobre o soalho. A roupa interior de cor preta antecipadamente escolhida, assim colocada na penumbra, pareceu-lhe suspensa sobre o branco lívido da colcha, marcada em esquadria contra o branco cinza das paredes. Era tão negra como o vestido que lhe deslizou pelo corpo magro. Quase se assustou com a imagem nua e desfocada que o espelho ainda lhe devolvia, desfasada em segundos no tempo. Já vestida, deixou o cabelo solto, apenas com risco ao meio, mas escolheu o colar com cuidado. Usaria uma gargantilha em ouro e jade, uma jóia do período pré-colombiano, que lhe assentava bem no pescoço longo e esguio, acentuado pelo decote profundo. Um risco feito com precisão a delinear-lhe os olhos, surgia rapidamente sob as unhas lacadas e ovais, brilhando na extremidade dos dedos compridos. Desenhou o contorno dos lábios e a boca apareceu como uma rosa rubra em botão, prestes a abrir. Estava pronta, e tinha fome. Aspergiu sobre o colo a fragrância preferida, e saiu do quarto a esvoaçar sobre os saltos pretos, em direcção ao galo capão que já deveria estar assado. 

O prato que trouxe servido da cozinha deixou um aroma delicioso no ar. Ninguém tocou à campainha. Perséfone não tinha convidados. Serviu-se do vinho, um néctar dos deuses que acabara de abrir, e almoçou sozinha, devagar e em silêncio. No fim comeu uma pequena porção do arroz doce que preparara de véspera, uma receita milenar que aprendera a fazer com Deméter, sua mãe, e onde estava desenhado com canela, pela própria mão, o cabelo de uma jovem mulher, entrançado num carrapito. Limpou cuidadosamente os lábios, deixando a boca decalcada em várias posições no guardanapo abandonado sobre a mesa, e foi preparar um café expresso aromatizado com baunilha, levando-o para o sofá. Abriu o livro de capa preta que deixara pousado na mesa ao lado, descalçou-se, e, enroscando-se em felicidade, retomou a leitura. Estava a Aprender a Rezar na Era da Técnica. Ainda bem que nenhum Lenz Buchmann lhe tocara à porta para almoçar com ela naquele dia, sorriu com a ironia entre dois capítulos, saboreando o último golo do café. Quando se deitou nessa noite na cama imaculada de lençóis lavados, e apagou a luz, pareceu ouvir nas suas costas o tom de voz semelhante a um gemido seco, do culminar de prazer curto e contido, de um homem. Assombrada reacendeu depressa a luz, mas foi com alívio que verificou que tudo se encontrava como antes. O lugar ao seu lado permanecia vazio, e não havia mais ninguém no quarto. Tranquila, adormeceu em segurança. 

12 comentários:

  1. um capão desses, havia de ser partilhado :)

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    1. Ah, eu também acho, mas Perséfone estava ainda a aprender a rezar... :)

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  2. Talvez a partilha esteja apenas adiada.

    Beijos, Teresa, e um bom dia. :)

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    1. Talvez Perséfone gostasse de o partilhar com amigos...

      Beijos Mariaminha, um dia lindo para ti. :)

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  3. Dize, ó Perséfone, tu que foste arrancada do seio de tuas flores para comer romãs na eternidade,
    Tu que, como Eva, foste enganada e condenada à saudade e ao lamento,
    Dize: como fizeste para saciar a dor, ganhar a complacência de Hades, a generosidade de Zeus e te manteres viva estando morta?


    de Rodrigo Della Santina



    haverá delicia maior do que uma romã?...

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    1. há, de tangerina, de maracujá, de pêssego, de ananás, de quase tudo menos de maçã...mas Perséfone só aprendeu isso muito mais tarde :)
      de resto, o que me apraz dizer, é que este comentário é essencial para a história.

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  4. Talvez a partilha se dê quando, na primavera, Perséfone regressar ao Olimpo.

    E agora, se me dás licença, vou sair de fininho para não estragar a tranquilidade de Perséfone e a beleza deste texto. Excelente!

    Um beijinho, querida Teresa, e um domingo feliz :)

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    1. Perséfone ficou com a mania terrena das limpezas, e passou a manter sempre o O limpo.
      Comenta-se que ainda terá galo até ao Ano Novo...
      Suponho que na próxima Primavera já tenha aprendido definitivamente a rezar.

      Um beijinho cheio de sol, querida Miss Romance :)

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  5. Perséfone ainda vai mudar a decoração da casa. Mais uns dias e não vai mesmo suportar o sorriso da Mulher no Banho. É bem capaz de a trocar pela Drowning girl. :)

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    1. Perséfone preferirá mesmo mudar a decoração, (minimal) da casa (de banho), e olhar todos os dias para a Drowning Girl, do que chamar pelo Brad (Pit... ty).

      Bem pensado, luisa :)

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  6. Querida Teresa Borges do Canto,
    A refeição de fazer crescer água na boca não merecia culminar com um café bastardo.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,

      Não se esqueça que Perséfone tinha decidido ser uma vulgar cidadã do mundo...mas talvez o facto de o cultivo das orquídeas de onde se extraem as vagens de baunilha já vir dos povos pré-colombianos tenha pesado na sua escolha, o que é apenas uma hipótese.
      Um beijo.

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