Atalhos de Campo


5.12.15

Passagem para a noite (8)



O pôr do Sol de pé como um Arcanjo
tiranizou o caminho.
A solidão povoada como um sonho
estagnou em redor da aldeia.
Os badalos recolhem a tristeza
tão dispersa da tarde. A lua nova
é uma pequena voz vinda do céu.
Enquanto vai anoitecendo
torna a ser campo a aldeia.

O pôr do Sol que não cicatrizou
ainda magoa a tarde.
Abrigam-se as cores trémulas
nas entranhas das coisas.
No quarto vazio
a noite há-de encobrir os espelhos.

Jorge Luis Borges/Campos Entardecidos

9 comentários:

  1. "No ouro sem fim da tarde morta,
    Na poeira de ouro sem lugar
    Da tarde que me passa à porta
    Para não parar,"
    (...)

    Fernando Pessoa

    Que bom vir aqui ver a tua passagem para a noite!

    Um beijinho, Teresa :)

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    1. "Meto-me para dentro, e fecho a janela.
      Trazem o candeeiro e dão as boas-noites,
      E a minha voz contente dá as boas-noites.
      Oxalá a minha vida seja sempre isto:
      O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
      Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
      A tarde suave e os ranchos que passam
      Fitados com interesse da janela,
      O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
      E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
      Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
      Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
      E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme."

      Uma boa-noite com a voz contente, Miss Smile. :)

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  2. Querida Teresa, que poema tão lindo! Gostei muito. (e eu os poemas nem sempre falamos a mesma língua)
    E vou dizer-te mais: adoro o teu sentido de humor. É absolutamente brilhante, para além de revelar uma inteligência que dá gosto.
    Um beijo todo repenicado (é Natal, por isso acho que posso, não é?)

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    1. Demorei a recuperar...

      Há aqui duas vaquinhas com Patrimónios ao pescoço, (sabes Susana, aqueles sinos que a Humanidade pôs ao pescoço das nossas vaquinhas de há uns dias para cá), e elas ficaram vaidosas, e a fazer mais Muuuuuuu, mas acho que é também por causa do Natal, uma delas quer dizer-te qualquer coisa, eu traduzo: chama-se Flor, e vai florir outra vaquinha na próxima Primavera. É um bom presente de Natal, não é?

      Pronto, agora já tenho um presente para ti, com um grande laçarote, [e um chocalho :)], mais um beijo todo repenicado de volta e Muuuuu...iitass mais coisas lindas, sendo que a primeira és mesmo tu. :)

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  3. E é à noite que passo em visita e me acomodo neste recanto de palavras e imagens luminosas. Está-se bem, aqui!

    Desde a Aurora
    Como um sol de polpa escura
    para levar à boca,
    eis as mãos:
    procuram-te desde o chão,

    entre os veios do sono
    e da memória procuram-te:
    à vertigem do ar
    abrem as portas:

    vai entrar o vento ou o violento
    aroma de uma candeia,
    e subitamente a ferida
    recomeça a sangrar:

    é tempo de colher: a noite
    iluminou-se bago a bago: vais surgir
    para beber de um trago
    como um grito contra o muro.

    Sou eu, desde a aurora,
    eu — a terra — que te procuro.

    Eugénio de Andrade

    Beijos, Teresa, e uma "noite de sonhos voada". :)

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    1. "Não é verdade tanta loja de perfumes,
      não é verdade tanta rosa decepada,
      tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
      tanto relógio, tanta pomba assassinada

      Não quero para mim tanto veneno,
      tanta madrugada varrida pelo gelo,
      nem olhos pintados onde morre o dia,
      nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

      Amanhece.
      Um galo risca o silêncio
      desenhando o teu rosto nos telhados.
      Eu falo do jardim onde começa
      um dia claro de amantes enlaçados."

      Eugénio de Andrade

      Maria, é quando te sentas por aqui à noite que reparo na minha janela muito mais iluminada.
      Já te disse que és uma mulher das arábias?
      Um beijo, Maria Gaivota.


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  4. Teresamiga

    É a primeira vez que por aqui passo - e gostei; gostei muito!

    Deparei-me com Jorge Luís Borges que tive a sorte, o privilégio e honra de conhecer em 1983 em Genebra. A vida de jornalista é dura, mas também têm momentos de felicidade. Conversei com ele quase duas horas e - talvez não saibas - era um poliglota. Por isso falámos em Português com muitas desculpas dele quando sentia que tinha dito qualquer expressão menos bem...

    Estava definitivamente cego que me explicou que a sua cegueira tinha sido progressiva: Homem de sensibilidade que lhe saía dos poros e com um alegria de espantar. Guardo na memória essa experiência e na minha biblioteca o Ficções naturalmente autografado.

    Muito obrigado pela transcrição de Borges e pelo blogue.

    Qjs = queijinhos = beijinhos do Leãozão

    henrique20091941@sapo.pt

    http://atravessadoferreira.blogs.sapo.pt Fico à tua espera...

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    1. Que maravilhoso comentário, Henrique. Imagino a sensação de poder estar à conversa com um homem tão erudito como era Borges. Infelizmente as minhas Ficções não estão assinadas por ele... Obrigada eu, por esta partilha tão feliz que veio (H)enriquecer o post. A minha ideia de blogue passa exactamente por isto.
      Um abraço, e até breve.

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