Atalhos de Campo


3.12.15

Oiça lá, isto é alguma xácara?

(...)
Se bem que não haja um só espírito que se desenvolva com romances. O prazer que nos oferecem em certos momentos paga-se muito caro: acabam por desgastar o carácter mais firme. Aprendemos a identificar-nos com todo o tipo de pessoas. Uma pessoa apanha o gosto por esse vaivém perpétuo e confunde-se com as personagens que lhe agradam. Qualquer ponto de vista parece concebível. Lançamo-nos com deleite atrás de objectivos alheios e perdemos de vista os nossos. Os romances são como lanças que o escritor, esse histrião da caneta, vai cravando na hermética personalidade dos seus leitores. Quanto melhor calcular o tamanho das lanças e a resistência a vencer, mais dividida deixará a sua vítima. O Estado deveria proibir os romances.

Elias Canetti/Auto-de-Fé

(...)
Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublinha, que está precisamente aí onde tu não estás - é o começo da escrita.

Roland Barthes/ Fragmentos de um Discurso Amoroso
Inexprimível Amor

6 comentários:

  1. É muito comum esta tendência para a falta de comunicação que, por vezes, assola os amantes de livros que, depois, pensam que o resto do mundo, obviamente ignorante, não merece aceder aos tesouros que a sua prateleira guarda. Ou, no caso dos escritores, que a sua caneta de escrita fina imprime. Não estou nada de acordo com isso. A ilusão que dos livros advém é um ar absolutamente respirável. Não abdico.

    A Teresa [não confundir com a governanta e depois esposa de Kien :) ] não sabe, mas o Auto-de-fé de Canetti é um dos meus livros favoritos.

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    1. A Teresa, de Kien, é um trambolho, uma mulher horrível, uma ignorante, e porque carga de água há-de vencer Kien, um homem letrado, e um coleccionador de livros? Fica-se a cismar desde o princípio com nisto, é um romance, mas penso que seria possível, dado o desfasamento da realidade em que Kien vive. É claro que o título do post é dela :), mas a provocação é minha. E sim, sei perfeitamente que este livro é seu favorito, uma vez que o aconselhou, e eu estou a lê-lo, (já a mais de metade) porque acredito no seu bom gosto literário. Também não concordo com bibliotecas mortas, por isso aqui está este diálogo entre Canetti e Barthes, para que possa ser discutido, se assim o quisermos.

      Um abraço

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  2. O que eu penso é que escrever é dar-se ao desejo - é desejar e querer ser desejado, lido e compreendido pelo outro. Um texto inaugura sempre um diálogo entre quem escreve e quem lê. E a escrita é uma segunda pele que procura o contacto e o toque do outro através das palavras. O leitor, respondendo a esse apelo, reescreve o texto com a sua própria “chave”. Por isso, quanto menos revelador for um texto, mais possibilidades de contacto haverá. O prazer do texto assenta sempre no desejo do outro e na sua abertura ao diálogo. Quanto mais insinuante for o texto, mais o leitor se poderá identificar e envolver com ele. Talvez as personagens dos romances não nos façam dispersar, mas, antes, consolidar e firmar o nosso eu. Descentramo-nos para nos voltar a centrar. Desejamos porque queremos ser desejados.

    Miss Smile, de sorriso fragmentado :)

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    1. Há uma diferença entre "rimance"(xácara) e romance, e é claro que eu não concordo com a ideia implícita no primeiro texto, ("de que o Estado deveria proibir os romances") mas acho-a bastante pragmática e até possível em ficção científica :), dependendo de -o carácter do Estado- e até divertida, vindo do pensamento de quem vem, Kien, um misantropo insuportável, que vive entre personagens e não entre pessoas. É claro que o romance nos deslocaliza da realidade e nos leva a mundos inventados ou reinventados, fragmentando-nos, ou não. Ao avançar na leitura deste livro vou concluindo que teria feito muito bem a Kien se tivesse lido o Auto-de-Fé antes de se meter nele, ou seja, também é verdade que o mundo registado nos romances é um não mais acabar de experiência vividas, mas nunca possíveis numa vida, e que traz grandes ensinamentos, por exemplo, como evitar as teresas parecidas com "a Teresa."
      Quanto ao segundo texto, Barthes tem razão ao afirmar que quem exulta "de Amor", será um incompetente para escrever sobre esse amor, afirmando que, "Apenas o Outro poderia escrever o meu romance."; pelo menos enquanto eu o estiver a viver (aqui já sou eu a falar).

      Quanto à tua resposta, é claro que quem escreve um romance escreve para o outro, mas para um outro imaginário, se possível o leitor
      perfeito; quem faz um blogue gostará de encontrar também o maior número de pessoas que a apreciem, que sejam seus seguidores, que voltem, que comentem, e aí está a mestria de quem escreve, :), de quem consegue tornar esse texto insinuante como dizes. Já quem escreve um diário, ou envereda pelo estilo confessional precisa sobretudo de se encontrar a si próprio na escrita, embora a possa ou não partilhar com outros, o que envolve filtros.

      Gosto muito de dialogar contigo, querida Miss Smile, conquistaste-me, e isso deve-se, sem dúvida, à tua capacidade de comunicação, e ao amor que se sente naquilo que escreves.
      Um beijinho, e obrigada pelo teu comentário.

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  3. Querida Teresa Borges do Canto,
    Sendo certo que a empatia é uma das capacidades que muito valorizo e que encaro a escrita como meio de comunicação, não poderia discordar mais dos textos supra. Ainda assim, de tão bons de ler, não me desgostam. Lá diz o povo que todo o burro come palha, basta saber dar-lha... assim servida, é quase uma tentação.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Deus me valha!
      Dr. Outro Ente, vou já arranjar-lhe uma posta mirandesa.
      Uma vénia.

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