Atalhos de Campo


1.12.15

O Palácio da Princesa das Águas Correntes

Esperámos, e depois esperámos. Então a rapariguinha de cabelo curto e de olhos muito escuros, que pareciam duas pequenas asas negras num rosto assustado, disse, esperem, que eu vou saber se a visita já começou, e desapareceu, a voar pelos corredoresMas a visita guiada ainda não tinha começado. Por uma porta insignificante, tão modesta como a porta de serviço de uma casa muito antiga, saiu um homem aprumado que nos cumprimentou. Suponho que enquanto esperávamos estaria a ajeitar o nó da gravata, a passear um pente pelo cabelo grisalho, a refrescar o rosto, e a verificar se o seu casaco 100% lambswool não teria uma única ruga suspirando à superfície, como a água parada num lago onde a primeira folha de plátano do Outono ousasse fazer o mínimo arrepio ao tédio. Simpatizou, suponho, com a ideia da heterogeneidade do trio, e foi abrindo a torneira antiga das palavras, devagar porque a água estava fria, pausadamente para se fazer entender, polidamente para que não salpicasse, e depois, à medida que a torrente foi fluindo e o discurso aquecendo, lavou nela ambas as mãos com critério e pormenor. E a água, essa musa do palácio que viera do Rio da Prata, era agora cuidadosamente captada por ele e aprisionada, primeiro numa torre de menagem como sempre se fez, ou ainda se faz, às princesas indomáveis. Exigia para isso o enorme esforço de pás de carvão e fuligem da casa das máquinas da Recoleta, onde hoje se passeia, sem esforço, entre Manets, Monets, Picassos e Goyas. A impiedosa epidemia de febre amarela de 1871 a isso obrigou, dizimando milhares de portegños das zonas baixas, e levando a nobreza a refugiar-se no alto da cidade, dizia o nosso anfitrião, enquanto nos fazia passar com naturalidade para um bunker colossal, por uma porta tão exígua como a primeira por onde aparecera. Mas a jovem princesa estava impura, contava embaraçado compondo os punhos da camisa sob as mangas do casaco de malha, embora fosse de boa linhagem, parecia querer dizer com o gesto sóbrio, de um rio de prata só pode ser das melhores proveniências, pensava eu. E foi com urgência que, ali mesmo, no alto do Bairro da Recoleta, trataram de a preparar para o trono, (tenho quase a certeza que foi isto que o ouvi dizer). Achei estranho entrarmos num palácio pela casa de banho, entre exposições e modelos de torneiras, sanitas, bidés, banheiras, cifões, contadores, embora hoje me pareça que não, desde que o palácio seja dedicado à água. À medida que a história avançava a partir de um água vai!-(tão português)-fomos percebendo a importância do saneamento numa cidade mártir de pestes e guerras, que continua a guardar, religiosamente, as suas vítimas mortais, em cemitérios tão acarinhados. E espantoso é terem sabido, tão bem, construir-lhe um palácio no Bairro do Congresso, para a armazenar em enormes cofres de ferro fundido, a ela que era o único tesouro possível para tornar a cidade viável, e escondê-lo, venerando-o ao mesmo tempo, sob um segundo edifício de revestimento magnífico, um trompe l'oeil sumptuoso de peças em terracota que encaixam como um puzzle, um vestido feito por medida, importado da Grã-Bretanha, de propósito para a coroação. Hoje é um museu e um arquivo da cidade, com um curador, que como um monge já velho e cansado e solitário, ainda acredita na sua doutrina. E sai-se dali ofuscado para a luz da rua, com a impressão de que actualmente seria absolutamente inviável esculpir-se com tal ênfase um palácio para milhões de litros de água no centro de uma cidade, com o perigo que isso poderia representar, apesar de se saber avaliar tão bem, e de se poder praticar ainda melhor, o culto e o respeito pela água. 

Divagação histórica sobre uma visita guiada ao Museo del Agua e de la Historia Sanitaria/ Palacio de las Aguas Corrientes, Buenos Aires.      

2 comentários:

  1. É incrível esta história. Nunca imaginei que pudesse existir um palácio que alberga milhões de litros de água no centro de uma cidade. Gostei desta tua visita guiada.

    Um beijinho

    P.S: A entrada pela casa de banho recordou-me uma fotografia :)

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    1. Agora é apenas um museu e um arquivo, e com muitos bidés :) peça hoje em desuso nas casas de banho modernas...mas que parece ter sido, e quanto a mim bem, pioneira em Buenos Aires.
      E já que vem a propósito, quando é que uma boa conversa entre mulheres não começa pela casa de banho?

      Um beijinho, sorridente, Miss usurpadora de sorrisos.

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