Atalhos de Campo


17.12.15

O envelope

A minha mãe tinha preparado um envelope para cada filho. Estávamos os quatro,(é raro encontrarmo-nos todos), porque era a festa dos cinquenta anos do meu irmão mais novo. Abri o meu, com alguma curiosidade sobre o que a minha mãe teria achado relevante, entre o que eu deixara para trás, para me entregar. Dentro do envelope estava uma história. A história tinha dois desenhos feitos na escola primária: num deles, a figura central é a minha mãe a cortar a relva no jardim. A minha mãe tem olhos cintilantes e azuis como a água da fonte que está desenhada do lado direito, e como o telhado da casa, que também está pintado de azul. Há canteiros de flores emoldurando o desenho, um Pastor-alemão no canto inferior direito, e uma árvore, com uma caldeira bem desenhada, à esquerda. Não há céu. No verso está escrito, para a Mamã com muitos beijinhos da sua filha, Teresa, sublinhado duas vezes, e no topo um sino vermelho e um azevinho. O outro desenho, que parece ser anterior, representa um moínho de água e um saco de farinha, uma capoeira, dois cães rafeiros, um preto e um castanho, um lago, um touro, uma vaca malhada e um bezerro, uma carroça, uma plantação de milho, pássaros voando entre as nuvens do céu, várias árvores e montes ao fundo, por entre os quais passa um rio. O sol nasce. É igualmente dedicado à minha mãe. Há também uma fotografia minha com o cão Pastor-alemão pela trela, outra com os meus dois irmãos nascidos, a que falta o mais novo, o aniversariante, com a Emília, a nossa empregada, e a filha dela. Passo os Santinhos com dedicatórias, e detenho-me no convite para a Profissão de Fé do António. Fui hoje à procura do António no Facebook, e encontrei só uma pessoa com o apelido invulgar que ele tinha, mas não reconheci nem um traço do rosto daquele que tinha sido a minha paixão de infância. Arrepiei-me com a hipótese de já ter morrido, e desisti de procurar mais. Pego no postal, escrito aos meus pais em Novembro 1971, Via Lourenço Marques, e penso que só voltei a vê-los em 1974. Depois desdobro uma folha recortada de uma revista, e sorrio, quando me aparecem catalogados vários tipos de homem: Os Eternos Amores, António Fagundes, Paul Newman, Marcelo Mastroiani e Frank Sinatra; Os Grandes Baixinhos, Dustin Hoffman, Al Pacino, Woody Allen; Os que entendem as mulheres, Miguel Paiva, Chico Buarque, Djavan; Os novos Gatos, Tom Hanks, Tom Cruise, Maurício Mattar, Michael J. Fox; Os novos Amores, Andy Garcia, Daniel Day Lewis, Almir Sater; Os feios Adoráveis, Émerson Fittipaldi, Nicolas Cage, Gérard Depardieu. É escusado dizer que a revista é brasileira. Não me lembrava de ter deixado entre as minhas coisas nada parecido. Primeiro penso que se enganou. Procuro uma data, encontro 1991, e concluo, com outro sorriso, que a minha mãe, nalgum cabeleireiro, tenha retirado aquela folha e guardado, para mais tarde me oferecer. 

E, por fim, pego num pequeno bloco, que não conhecia. A capa é dura, de tecido, e tem manuscrita,(a letra desenhada entre colunas gregas e arranha-céus traçados à mão, dispostos como ameias de uma fortificação), a palavra - APONTAMENTOS -. Sinto que está prestes a desmanchar-se, e folheio com muito cuidado, emocionada, enquanto vão surgindo belos desenhos de jóias feitos a lápis pelo meu avô paterno, folha após folha: alfinetes de gravata, brincos, pregadores, pormenores dos fechos, a ouro finíssimo, e pedras preciosas.     

10 comentários:

  1. Que maravilha, Teresa, um envelope com tanta gente dentro!
    E que bonito o gesto da tua mãe. Adorei a inclusão da folha recortada da revista com os vários tipos de homens catalogados. Uma delícia! Eis uma catalogação que podia dar pano para mangas. Pode ser uma ideia para um post :)
    O desenho do teu avô é de um pregador? Revela tanto amo ao detalhe. Agora já sei a quem foste buscar o teu jeito para a pintura :)

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    1. A minha mãe tem vindo a fazer isto, envelopes que nos fazem chorar, a todos. É uma pessoa muito especial. Agora, que está sozinha, devolve-nos o passado, esse passado que incluía já as linhas mestras das nossas vidas, e que prova que desde o início estava lá tudo, mesmo o que já tínhamos até esquecido.
      A catalogação é fantástica, podendo sofrer uma actualização até 2015...e um ou outro reajuste. :)
      Penso que é um pregador, sim. Esse meu avô era um homem de detalhes. Um dia foi a um otorrino e sabia toda a anatomia do ouvido, o que espantou o médico. Ele e o meu pai desenhavam muito bem, muito melhor do que eu. :)

      Um beijinho amigo, Miss Smile.

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  2. eu costumo dizer, Teresa, que não quero que me lembrem o que já esqueci. agora acho que posso mudar de opinião.
    obrigada! bom dia :)

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    1. Querida ana, acho que posso dizer assim, nós somos passado, o passado são os nossos alicerces, a nossa fortaleza, a nossa história. Projecta-se em cada gesto, a cada passo que damos, em cada opção que tomamos. Somos o que fizemos e aprendemos. Poderemos fechar algumas gavetas, mas elas não deixarão de existir por causa disso, e há um dia, com surpresa, que ao reabri-las percebemos que tudo teve um sentido, a nossa hipótese de caminhar, rir, chorar, errar, sofrer, vencer, construir, sentir, amar, enfim ser-se ainda mais humano, neste mundo.
      Obrigada eu, e um bom dia para ti, ana. :)

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  3. eu sei Teresa, eu sei... mas eu sou tão boa no esquecer, que pensei que fosse uma bênção divina...:)

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    1. ...pode ser ana, mas lembrar também é. hoje lembrei-me muito do meu pai.

      um bom dia para ti, ana, com um sorriso :)

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  4. Que emoção poder olhar para um projecto pensado há décadas, pelo avô. Não conhecia.
    Naquele grande e estreito corredor, como são os de todas as casas antigas, havia do lado esquerdo uma "Descida da Cruz" da sua autoria, em claro-obscuro. Fixei-o desde criança. Da pintura à joalharia, passando pela Astronomia, Astrologia e Ocultismo, o avô afigurava-se-me um personagem de respeito, alguém de universo cheio. Observava-o à distância e no meu estado imberbe da primeira infância, o nosso avô paterno apresentava-se-me inatingível.
    Mais tarde, após a sua morte e ainda naquele mesmo corredor ao fundo à direita, olhei um dia de soslaio entre a fresta do seu quarto-estúdio, quase sempre lacrado. Vi um grande planisfério de constelações de fundo azul-marinho, a sua cadeirinha verde cor de relva queda e "muda", e um grande telescópio apontado à janela. Não vislumbrei a sua boina preta à espanhola, senão tê-lo-ia visto.

    Pelos atalhos da memória, com um beijinho memorável para a prima Teresa

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    1. Sempre tive um fascínio pelo avô, que mal conheci. O teu comentário tão bonito veio completar o pequeno bloco que recebi de presente. Foi também um presente saber-te pequena e fascinada com aquele universo tão complexo do avô, atrevo-me a dizer, quase tão misterioso como o de Pessoa. Que bom termos dado este passeio juntas, Madalena, para assim nos recordarmos dele.

      Um beijinho encantado.

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  5. Teresa... agora só consigo dar-te um beijinho, mas com sabor a sal:(
    :)

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