Atalhos de Campo


15.12.15

O carrapito

Tudo terminara, mas o quadro permanecia impassível, pendurado no mesmo sítio, sobre a escrivaninha antiga. Um carrapito. Mãos hábeis, dedos longos, tinham esculpido e entrançado o tempo. Chegaria aonde? Passava a cintura, pela certa, as pontas claras desfiavam vários anos, lá no alto a raiz encanecia. Fitando-nos, o carrapito impunha-se, sobrevivera, sobreviveria aos tempos. Amanhecera solto. Escovado, primeiro do lado direito, depois do lado esquerdo, todo brilho, todo electricidade estática relinchando lima e alfazema, sacudido num gesto rápido para a frente, e depois noutro gesto rápido para trás, e depois cuidadosamente dividido por meadas, trabalhadas com destreza e domadas como crinas rebeldes, mechas presas apressadamente com ganchos como bridões, frenando a rédea livre do sonho. E era aqui, no último relance do olhar furtivo contra o espelho, que entrava a mão que fixara o gesto, já pronto. Um simples carrapito. Tinha sido tão fácil, mas nós não conseguíramos fazê-lo, não conseguíramos ultrapassar a paixão de o ver galopar. Por amor. 

Sobre um quadro de Graça Morais.  

2 comentários:

  1. Tão bonito o teu texto. Gosto de pensar na memória como um carrapito que se enrola e ordena em círculos.

    Um beijinho (com duas bolinhas de Natal nos "i")

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    1. Tal como se mede a idade das árvores, pela contagem dos anéis de crescimento...
      E já são tantas, as voltas!
      Boa imagem essa, Miss Nuthatch :)
      Um beijinho

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