Atalhos de Campo


28.12.15

mar-de-gente

(...)
A literatura é combater o lugar-comum, a associação previsível. Eleger palavras é perigoso, mas a primeira função do escritor é partir as palavras. Individualizá-las. Os lugares-comuns. Mar de gente: é bonito. Era tanta gente que era um mar. Mas a certa altura transforma-se num casamento eterno. O trabalho de um escritor é separar mar, separar gente, pô-los em circulação e pô-los disponíveis para fertilizarem com qualquer outra palavra. Esta disponibilidade amorosa das palavras dá o tom da escrita.
(...)
Mar de gente devia ser escrito com hífen no meio.
(...)
Gonçalo M. Tavares, em entrevista à Ler; Inverno 2015/2016 
(por Anabela Mota Ribeiro)

4 comentários:

  1. Usar a capacidade amorosa das palavras não é para qualquer um. Aqui sente-se!

    Beijos, Teresa. :)

    ResponderEliminar
  2. Abaixo-assinado – Pelo amor livre das palavras

    Eu, abaixo-assinada, proprietária de um requintado Salão de Chá e costureira de palavras nas horas vagas, venho requerer de V.S.ª que

    - Se desamigue todas as palavras que se colam umas às outras pela força do uso
    - Que se formem novas uniões perigosas e escaldantes
    - Que se evitem alianças monogâmicas, bênçãos vitorianas e o sacramento do matrimónio
    - Que se realizem mais divórcios
    - Que se fomente o amor livre das palavras, sem posses e controlos

    Para o bem da polissemia, é preciso que haja mais promiscuidade.
    Em razão disso, solicitamos de V.S.ª o máximo empenho para solucionar esta situação.

    Miss-Smile (agora, também, com hífen no meio, pá)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu, abaixo assassinado, dono de uma tasca e moço-de-recados nas horas mortas, venho dar-lhe satisfações do seguinte:
      - que aqui as palavras já perderam a vergonha e se fartam de cuspir sílabas para o chão;
      - que a marmelada nos cantos escuros até me faz cair nas travessas o cabelo;
      - que não temos vistas panorâmicas, mas até formam filas indianas, e isto parece um manicómio;
      - que os ministros aqui fazem consórcios;
      - que não há mesas marcadas, nem carta dos doces e protocolos.

      Para o bem desta mercearia, é preciso que haja mais sanidade.
      A bem da nação, e com muita paciência, vou ver se me contenho, pá.
      Hífen.

      Eliminar