Atalhos de Campo


23.12.15

historinha de Natal com Menino Jesus

























Agora que passaram anos, bastantes, talvez mais de vinte, fico a pensar na minha reacção, na altura. Bem sei que o stress era muito, que a minha vida era uma ebulição, que por isso me era dado o direito de às vezes me saltar a tampa, mas hoje só posso sorrir e talvez até achasse alguma graça ao que aconteceu. Não é verdade que tudo perde importância com o tempo, o que se passa é que com o tempo há uma inversão de importâncias. Naquele caso o assunto era sério, muito. Eu tinha encomendado um presépio à minha irmã. Sonhava com imagens em blanc de chine mas deixei-a decidir em tudo, sugerindo apenas simplicidade. Queria figuras de tamanho médio, vidradas a branco leitoso, a Sagrada Família, um burro, uma vaca. Um presépio minimal, portanto. Esperei. Eu sei que os artistas têm as suas idiossincrasias, e o direito à inspiração, por isso só a um mês do Natal é que lhe comecei a lembrar que ainda não tinha presépio e que esperaria por aquele, com alguma ansiedade. Nada. A uma semana do Natal relembrei que o nascimento estava próximo e que era melhor que o São José, dada a sua provecta idade, e o teimoso meio de transporte que usava, se apressasse a chegar ao destino, não fosse haver o azar de a criança nascer no caminho. Que sim, que só faltava mesmo o Menino Jesus. Está certo, pensei, ainda não nasceu, mas apressa lá isso. Que sim que ia fazê-Lo nessa noite. Silêncio. Comecei então a ver estrelas, não só uma, a Estrela, mas várias. Quando, finalmente, o presépio chegou, era véspera de Natal.

Ana Canto

Abri a embalagem com expectativa e fui desembrulhando as figuras, lindas, uma a uma, encantada com a juventude e radiosa felicidade da Nossa Senhora, com a preocupação e as barbas do São José, apoiado no seu cajado, com a vaquinha deitada placidamente, com o burrinho cansado, a fazer-lhe companhia. Por fim, enlevada com a beleza das figuras, que repousavam sobre a mesa com uma harmonia extraordinária, e quase dando um suspiro de alívio, surge o Menino Jesus. Eu sei que as crianças não nascem lindas, que são enrugadas, vermelhuscas, oblongas, franzinas. Aquele Menino Jesus era tal e qual, e mais, via-se logo que não era da família. Pensei que estava a sonhar, que aquilo não me estava a acontecer, peguei no telefone e num acesso de zanga ouvi-me dizer, mas o que é que aconteceu, o Menino Jesus parece um tição, nem forma tem, vou-te dizer o que parece, parece...parece...uma pila! Recuso-me a pôr este Menino Jesus no Presépio, ficas já a saber que és responsável pelo presépio ficar incompleto! E ficou. Passaram mais de vinte anos, o presépio é o mesmo, e já teve, que me lembre, pelo menos três Meninos Jesus: um em barro quase do tamanho dos pais, tal e qual um cuco, outro em louça, e este, o terceiro, é, há já vários anos, uma figura de presépio convencional.


         

6 comentários:

  1. Ninguém entende os artistas! :P Um menino diferente, original, e deu zanga! :P

    Festas Felizes, Teresa, rodeada de sorrisos e carinho. :)

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    1. digno de um show erótico...:)

      Beijos, Maria Rabina, Um Natal "muito afinado" para ti!

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  2. Maria e José estão a contento, sem dúvida, mas, vá lá saber-se o porquê, falta a foto do Menino "tição". :)
    Quem sabe se, nessa natividade, não se augurava o futuro da espécie humana? É que Jesus, ao fim e ao cabo, veio ao mundo para unir, não para alimentar desavenças. :)
    Gostei, pois é claro, do ar que por aqui se respira.

    Um Feliz Natal, com, ou sem, Menino a contento! :)

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    1. AC, sem dúvida que o Menino tição era futurista, mas pouco fotogénico! :)
      As "desavenças" é claro que acabaram em grande gargalhada, e ficou assim, uma espécie de prova de que há muitos meninos que podem ser Jesus. Talvez seja desta que O receba de presente...

      Um Feliz Natal, AC, e obrigada pelo divertido comentário. :)

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  3. Uma linda história de Natal, Teresa. E real. os santos da casa não fazem milagres e a tua irmã que o nome de uma das minhas é portanto uma santa da casa. E fez um presépio lindo! infértil, mas lindo.
    Pode ser que um dia... quem sabe.
    Feliz Natal outra vez, querida Teresa. Obrigada por tudo. :-)

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    1. É uma santa da casa, sim Susana, e se juntarmos que em casa de ferreiro...admitamos que a ausência de milagre conferiu singularidade ao presépio. Quem sabe um dia...
      Obrigada muito, por esta mensagem. Feliz dia de Natal, Susana querida. :)

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