Atalhos de Campo


19.12.15

historinha de Natal com amarelo limão

Quando o arroz já estava frio ia fazer companhia aos outros doces de Natal que não paravam de chegar da azáfama na cozinha: pratos de fatias douradas, sonhos vários, entorpecidos na sua cama de açúcar, tâmaras cuidadosamente colocadas em pratinhos de porcelana, o bolo-rei de olhar cristalizado, emproado no seu prato de pé alto enfrentando taças com ameixas, passas, e pinhões, fios de ovos a desmaiar de cansaço sobre mousse de chocolate, broas de mel muito aconchegadas, de pele envernizada. Era então que o meu pai se sentava com um pires de canela ao lado, e com a mesma paciência do geómetra que desenhara mapas durante noites a fio ao estirador, se debruçava agora sobre as travessas, e , perante o nosso espanto, ia fazendo surgir um desenho preciso ao deixar cair, do aparo que eram os seus dedos, linhas perfumadas sobre a superfície daquela pele acetinada e doce. E surgiam palmeiras e coqueiros vergados sobre o mar, céus estrelados de constelações, sóis que pingavam luz em raios ínfimos que se esgotavam nas margens dos pratos, azevinhos que emolduravam sinos que chamavam para a Missa do Galo, velas incandescentes que emergiam de pinhas e laços farfalhudos, a lua mergulhada nos seus quartos escuros de canela espreitando do céu dourado, perfumado com casca de limão. Noutros Natais ganhava asas o desenho geométrico, e triunfavam Amadeos, Almadas, Mirós e Kandinskys. Durante a sobremesa fazia pena encetar aquelas obras de arte elaboradas com esmero e que eram alvo do espanto geral, quando toda a família se reunia para almoçar. A memória que me causará sempre nostalgia do Natal tem a ver com o aconchego e a paz que emanava desses desenhos, porque à medida que a surpresa era riscada pela mão habilidosa do meu pai, e ganhava interjeições de alegria com os nossos oito olhos pousados sobre os seus gestos, a sua figura benevolente ia firmando consistência no estirador do tempo, projectando-se no futuro. E quando terminava, o que mais queríamos era que continuasse a desenhar em infinitas travessas de arroz doce, com aquele suave e inesquecível travo a limão. 

Mantendo a tradição tento desastradamente imitá-lo, rabiscando qualquer coisa que faça jus, como ele fazia, a esse creme divino cuja receita vem de uma bisavó açoreana. Este Natal pediram-me que desenhasse um carrapito.


(Outras historinhas: historinha de Natal com azul Klein; historinha de Natal com Aloe Vera, 2014)

7 comentários:

  1. E as tuas memórias de Natal são tão precisas como os desenhos do teu pai perfumados a canela. A tua história respira o calor e a paz de Natais anteriores.
    Tenho a certeza que vais conseguir desenhar o carrapito com a mesma dedicação e amor do teu pai.

    Um beijinho, querida Teresa

    P.S. A tua árvore de Natal é a mais bonita de todas. É uma espécie de árvore da vida. Dá limões, é certo, mas podemos fazer tantas coisas com eles. A arte está em saber adoçá-los no ponto certo para não enjoarmos ou andarmos de cara franzida :)

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    1. Agora é um Natal cortado às fatias...sendo inteiro apenas com as memórias. Achei a ideia do carrapito boa, vou tentar desenhar um. :) O meu pai acharia deliciosa, (tirando os cabelos verdadeiros, claro...).

      Qualquer árvore pode ser de Natal; é só querermos, não é? Para mim, é esta. Para o ano escrevo uma carta ao Pai Natal para não se esquecer de distribuir melhor os limões.

      Um beijinho, querida Miss Smile, perfumado de limão.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. As recordações dos Natais de outrora são sempre carregadas de nostalgia. E da falta que nos fazem aqueles que se ausentaram.

    Beijos com sabor a canela, Teresa. :)

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    1. É verdade Maria, nesta altura as recordações fortalecem os elos com os nossos entes queridos, que já desapareceram.
      Obrigada pelo mimo.
      Beijos de volta, perfumados com canela.:)

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    1. Obrigada, Manel (bonzinho), a quinta dos suspiros deseja-lhe um Feliz Natal, enfeitado no arroz doce.

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