Atalhos de Campo


18.12.15

Da afeição

Ofelinha:
(...)
Quanto a mim...
O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca - nunca, creia - nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse. Não sei o que quer que lhe devolva - cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão. Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.
(...)
Fernando (Pessoa)
    

6 comentários:

  1. Teresinha:
    (...)
    Quanto a mim...
    Há afetos que não passam. Mas, caso passem, conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca - nunca, creia - nem a sua inteligência, nem a sua sensibilidade, a sua simpatia, o seu humor adorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão virtual; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse. Se tal acontecer, não sei o que quer que lhe devolva – os comentários e os poemas que me deixou ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas palavras como memória viva de um passado que renasce permanentemente, como todos os passados (…) Fiquemos uma perante a outra, como duas conhecidas desde a infância, que, embora nunca tenham brincado juntas quando meninas, partilham agora, na vida adulta, algumas afeições e caminhos, conservando sempre, num escaninho da alma, a memória profunda da sua estima antiga e frutuosa.

    Miss, smile :)

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    1. Miss Smilenska:

      Já não era sem tempo que viesse a publico agradecer tudo o que tenho feito por si. Cultivámos um passado de flores e borboletas, conversámos e desconversámos, foi madrinha dos dois rapagões apardalados que por aqui voam. Deu-me a beber muitas chávenas de chá, e partilhámos também muita zurrapa lá naquele saloon, onde apareceu debaixo da colcha de patchwork que tanto a caracteriza. Por si criei o homo hilaris, um portuga que não sabia existir em mim. Agora roubou-mo e levou-o para a Sibéria, de onde veio a ouvir ininterruptamente música francesa de proveniência duvidosa. Jogámos muito ténis e muito xadrez, houve rodopios de livros, de poemas, houve sem pios, piadas, e piadolas. Não quero que me devolva nada, antes que se apresente ao serviço aqui na quinta, hoje já é sexta, porque o caso das osgas foi finalmente encerrado, e é preciso comemorar. Nunca conheci ninguém que entrasse tão genialmente por todo o lado, sempre com imensa classe, e estilo, género gargantilha e vestido comprido e assiduidade e prontidão, equilibrada nos seus saltos de 11 cm, com os gémeos da hidroginástica em riste. Também já arregaçámos as mangas e talvez tenhamos feito manguitos em surdina; somos boas meninas para isso. Mulheres feitas, colheres de tudo, até de óleo de castor, pauzinhos de perlimpimpim, palavras atiradas para o ar em queda vertiginosa no sítio certo. Pode acontecer que a vida nos afaste da internáutica, já perdi de vista algumas amigas, como sabe "sou de poucos amigos", por isso cada vez mais sei dar valor às perdas imperdíveis. Que nunca haja uma lágrima pronta, um sorriso sério, um consolo desconsolado, ou sim, que haja isso tudo. Fique sabendo que não lhe devolvo nada, e que isto que por aqui deixou vai passar a fazer parte do património da humanidade. E ah, assumo que tenho mau feitio, que gostava de ter as pernas mais magras, e os olhos espectaculares da minha mãe. Quanto ao resto parece-me bem. Tire-me lá essa fita azul de cima, que já nem me consigo mexer, de tanta voltinha. E diga Cheese, para a fotografia. Gosto muito do seu sorriso.

      P.S.

      É favor devolver o Manuel Hilário, que me dá imenso jeito agora no Natal. Deixe lá de o drogar com essas lamechices na língua do Boaparte, que até parece mal.:)

      Teresola

      [(DELICIOSO, MISS SMILE. OBRIGADA)]

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  2. Teresinha, tenha tudo a postos para a nossa chegada. Prepare-se para nos ver descer da camioneta de braço dado - eu, envolta na minha colcha de patchwork e, o Manel, de lacinho a condizer (eu mesma recortei uma tirinha de tecido lá do meu blog – espero que o blogger não dê pela falta – para lhe costurar este belo acessório). Peço-lhe encarecidamente que arranje um esconderijo para o Manelinho até termos a certeza que este affaire des Osgás está realmente encerrado. Não sei que esconderijo tem em vista, mas talvez uma guarida junto dos pavões não fosse má ideia. O Manelinho está a precisar de confraternizar. Sabe, lá na Sibéria, só me tinha a mim. Não aprendeu russo, mas veio de lá com um excelente vocabulário amoroso em francês. Nem imagina, ando nas minhas sete quintas. Com a sua, já são oito! Entretanto, nós as duas aproveitamos para fazer o nosso jantar de Natal no saloon logo à noite. Não conheço outro local que faça tanta justiça ao espírito natalício como aquele. Levamos também a Flor e a Mimi. O que acha? Olhe, estamos já a transpor o portão norte da sua quinta. Só preciso da sua password para enviar a mensagem.

    https://www.youtube.com/watch?v=tWs1E2BfNZE

    Até já!

    [SUBLIME. MUITO OBRIGADA. GOSTEI DA NOSSA TROCA DE GARGANTILHAS]

    P.S.: Eu acho os teus olhos bonitos :)

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    1. Cruzes, credo! Aquilo...ali para cima, é UM BOCADO LOIRO, Smilenska, a menina anda por cada saitji! :)
      A password é "do meu segredo", Smilenska, não se lembra querida, o nome de guerra da flor, a chefe de segurança da quinta, à sexta!
      Arranjámos o quarto do Homo hilarius num cantinho do galinheiro. Os pavões dormem pendurados nos eucaliptos, não me pareceu que ele fosse gostar...assim sempre acorda com as galinhas, amanhã, Sábado.

      Até já!

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  3. Fiquei maravilhada, desde a correspondência afectiva que Fernandinho mantinha com a sua querida Ofelinha, até as vossas deliciosas trocas de "gargantilhas"!
    Beijo para ambas :)

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    1. Isto é uma saga, Sandra, vai andando ao sabor da imaginação. Também acho uma maravilha, ao que as palavras nos levam, tão rápidas como a luz e o pensamento.
      Beijo para si também. :)

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