Atalhos de Campo


12.12.15

A esmola

Era aos Sábados de manhã que à nossa porta desfilava o cortejo de miséria e desgraça. Velhos andrajosos, descalços, homens semi-paralisados agarrando fortemente um cajado, cegos apoiando-se no braço de alguém tímido, de olhos postos no chão, doentes ofegantes de peito tísico e olhar fundo, gente magra, esquálida, a que há muito desaparecera a massa muscular pela fome, curvada perante si própria e subjugada pela doença, iniciava cedo a ladainha, Bom diá sinhóra!, e estendia as mãos secas e nodosas, agradecida por qualquer coisa, um bocado de pão, uma conserva, farinha, dinheiro. Esperavam, de olhar vazio, o tempo que fosse preciso, tempo que era uma espécie de pressão silenciosa, quase uma ironia. Eu tomara a cargo as esmolas, e corria entre a casa e o portão para trazer mais qualquer coisa, uma moeda, roupa usada, uns sapatos. Havia a taça das moedas com o orçamento do dia que ia gerindo ao longo da manhã, mas a certa altura o dinheiro acabava, e eu corria para pedir mais. Tive ao longo da minha vida muitas saudades desses pobres, da sua dignidade, da sua delicadeza. Como criança que era, temia-os, porque, sem saber ainda, temia sobretudo a sua pobreza, a sua má sorte, o seu soçobro. Um dia disseram-me que teria que ir estudar para muito longe, para outro continente, para um continente em que as suas mãos estendidas não teriam cabimento, e eu nesse dia soube que haveria uma manhã de Sábado em que eles apareceriam como sempre, e depois de esperarem se iriam embora, e que talvez ainda voltassem uma ou duas vezes, até que desistiriam, sem uma palavra, sem um lamento, com a mesma parcimónia com que um dia tinham aparecido. 

4 comentários:

  1. Um texto do outro mundo. Em vários sentidos.

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  2. Em casa da minha avó, havia uma malga própria de cada pobre. Alinhavam-se na cozinha, para encher de sopa, todas com dono...

    Boa noite, Teresa, e um beijo. :)

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    1. É alegre, e triste, e triste e alegre.
      Agora dou-te um beijo. Boa noite, Maria da avó boa. :)

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