Atalhos de Campo


30.12.15

a cidade das flores e dos frutos



Buenos Aires será sempre a cidade das flores e dos frutos, a minha cidade de 2015. Mirei-a acima do chão, acima das ruas escalavradas como os meus joelhos de infância. Fitei-a com o olhar selectivo de ver; contemplei-a pelo coração de Borges. A miséria é estática, faz pose, é fotogénica, transitória, espelha-se em montras de botas floridas, casacos de pele de todas as cores, carteiras de luxo, perfumes exóticos. Teria sido fácil prová-lo, mas era também uma intrusão e uma deslealdade. Por isso encarei Buenos Aires como se olha para um livro que é preciso desvendar, e a li como se lê um longo poema de nobres e velhas palavras onde já todos estamos mortos, e onde jardins ondulantes de árvores seculares nos ultrapassarão para sempre. Como um sem-abrigo recente, que quase pisamos, adormecido a meio de um passeio da Recoleta, e outro, que junto aos contentores mexe no lixo espalhado pelo chão, anestesiada com a forte atmosfera impossível de respirar, entro em apneia até chegar a um quiosque de flores onde se detém uma bela rapariga reflectida num ramo de prímulas. E o jovem mendigo, que dorme alheio à sua própria beleza, esqueceu-se do olhar entreaberto, e do intenso cheiro a urina que o envolve e que se agarra às pernas nuas que lhe passam ao lado, evolando-se, por direito próprio do desamparo, nas ondas de um cabelo negro e brilhante. Aqueles continuarão a ser os passeios que Borges pisou, aquelas as casas que sabia de cor, aquele o tango saído de alguma viela, de algum fado já extinto, para que tudo isto se possa passar agora, no momento em que um portegño, numa esquina movimentada, faz um castelo de morangos, com as mãos a cheirar a fruta.



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