Atalhos de Campo


4.12.15

A ameba

Conheci-a em 1971 numa ampliação de dez. Mesmo assim não lhe ficava nada mal, fazia do corpo o que queria. De um momento para o outro fabricava um pé como se fosse um dedo da mão e propulsionava toda a célula, nadando pela água estagnada entre os vidros do palco-aquário, ou fabricava quantos pés fossem precisos para paulatinamente capturar e envolver alguma presa, sai uma paramécia à la minute, por favor. Eu ficava horas fascinada a ver aquela dança de pseudo-pés que lhe nasciam e desapareciam constantemente do corpo hialino, tudo concentrado numa identidade mínima, tudo a funcionar na perfeição desde há vários milhões de anos. Até que um dia se escapou da preparação, escorregou pelo microscópio abaixo e deslizou através da bancada como se fosse um bocado de massa crua a aumentar de tamanho a olhos vistos, tacteando até apanhar qualquer coisa mais substancial que estivesse no seu trajecto lento e voraz. Como um polvo gigante punha em acção os seus mecanismos de captura, envolvia as presas entre os tentáculos, e depois de as pulverizar digeria-as devagar, armazenando-as no interior de bolhas dispersas pelo citoplasma. Aterrada, ainda tentei escapar e escondi-me o melhor que pude, mas foi em vão, pois nesse mesmo dia me fagocitou. Quando me arrependi por ter menosprezado a sua capacidade para o fazer já era tarde. Agora pertenço ao reino dos protozoários, até ao meu desaparecimento total. 

2 comentários:

  1. Fujamos delas, das amebas! São do mais perigoso que há!

    Beijos, Teresa, e um dia feliz. :)

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    1. Fujamos, Maria. Eu vou tentar reunir os bocadinhos... :)

      Beijo, Maria Feliz.

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