Atalhos de Campo


14.12.15

«A água em todas as fontes»























Nítido e leve ramo de oliveira:
Rijeza firme do tronco
As pálidas folhas como ponta de lança
E o pequeno fruto negro
Compacto e brilhante

Sophia de Melo Breyner Andresen/ 
Sobre um Desenho de Graça Morais


 

2 comentários:

  1. "Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. (…) Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela vê, só ela vê."

    Eugénio de Andrade / As Mães

    Um post bem temperado!

    Um beijinho, querida Teresa :)

    ResponderEliminar
  2. Esse texto é lindíssimo, e é interessante verificar que é à roda da azeitona que as mulheres, do Alentejo a de Trás-os-Montes, se assemelham tanto, tudo por estes campos fora é aroma e cor, mesmo que a cor seja o negro brilhante de um lenço de seda, ou o pequeno fruto maduro de uma oliveira.

    Um beijinho, querida Miss Smile.

    ResponderEliminar