Atalhos de Campo


31.12.15

2000+15

Quinze anos a mais tornam uma pessoa irreconhecível. Passa-se a linha dos cinquenta e começa-se devagar a peneirar o tempo. Decorreram quinze anos sobre 2000 e sobre mim. O mundo já não é o mesmo, está incompleto, é servido como um prato reaquecido. Isolo-me mais agora, para pensar. Mudei de vida. Gosto do campo. Gostaria de continuar assim, de fazer uma viagem por ano, de visitar a cidade apenas para me abastecer de livros e de música. Escrever é para mim guardar as memórias e esperar que alguém as encontre. Gostava que fosse um neto, uma bisneta. Presentemente ninguém que conheça se interessa muito por isso. Os nossos amigos querem estar connosco, não querem ler-nos. A nossa família também. Escreve, ou publica, quem gosta ou quem precisa de estar sozinho. Parece-me que é isso que nos une a todos, essa vontade de partilhar o que se faz em silêncio. Fazemos diários online, às vezes escrevemos textos preciosos que se perdem rapidamente no tempo. Contrariamente ao que acontece com um livro, um post prescreve quando não é lido quase imediatamente. É essa a ironia dos blogues em relação aos livros, a última página escrita deixa drasticamente de interessar. Um blogue pode ser também um precioso boletim meteorológico: pelos atalhos à chuva percebo que estes dois últimos anos foram de seca. Não me sinto com capacidade para dar o exemplo de nada, apenas porque fui muito mais uma observadora, e me sinto apenas isso, uma espectadora interessada pela minha própria vida.  

12 comentários:

  1. entendo-a. sinto-me próxima das suas palavras. agradeço-as.

    um abraço, bela Teresa.

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  2. as vezes bate uma melancolia, existe um tempo para isso também
    abraço

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  3. Há uma idade em que nos deixamos ficar a observar. Reflectimos mais. Talvez seja bom.
    Só que, de vez em quando, vem aquela melancolia...

    Beijo,Teresa.:)

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    1. É Maria Próxima, uma gaivota solitária.

      Beijo, bom. :)

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  4. Não sei ao certo quantas horas passaram desde que escreveste este post, eu acabo de o ler e estou certa de que nem agora nem nunca ele se tornará obsoleto.
    Como te compreendo! Penso até que muitos de nós começam a escrever para poderem comunicar aquilo que não conseguem fazer com as pessoas que os rodeiam. E ainda bem que assim é, para nos termos aqui uns aos outros e nos deleitarmos a ler coisas como este texto tão belo que escreveste.
    Aproxima-nos, embora nunca nos tenhamos visto, torna-nos mais reais.
    E acrescento: gosto muito de ti. Por isso te desejo um 2016 nutritivo, que a seca dos anos anteriores acabe e te nasçam mais flores no coração. Como aquelas que semeias por aqui.
    Um abraço emocionado, minha querida Teresa.

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    1. O teu comentário podia ser um post que completa este. Sabemos bem que muitas destas palavras que por aqui vamos deixando escritas e que nos arrasaram, e nos consomem, não interessam nada à maior parte das pessoas. Felizmente que, como dizes, nos temos uns aos outros, que entendem isso, que sentem isso, que deixam uma palavra de conforto, longe do ruído, da felicidade ruidosa. E é assim, querida Susana, que a seca deu uma lágrima, e que vou pensar muito nisto, neste presente maravilhoso, quando no meu coração começar a despontar uma flor.
      Um belo ano para ti, Susana, tão magnífico quanto uma magnólia, tão encantador como as suas flores.

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  5. se chuva for necessária, posso tratar disso... nã é por acaso que me chamam Trovisco :D
    bom ano Teresa, beijos

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    1. ontem já choveu o dia inteiro...obrigada Trovisco!

      Bom ano, Manel, com boas abertas nesse mau tempo.
      Beijos

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  6. A ler, como num espelho.
    Bom Ano, Teresa! :)

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    1. Somos muitos, nesse espelho...podíamos até fazer uma fotografia de grupo :)
      Bom ano, luisa!

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