Atalhos de Campo


27.11.15

*Uma despedida*

A tarde que minou o nosso adeus.
Tarde acerada e deleitosa e monstruosa como um anjo escuro.
Tarde em que viveram os nossos lábios na intimidade nua dos beijos.
O tempo inevitável transbordava sobre o abraço inútil.
Na paixão fomos pródigos, não para nós, mas para a solidão já próxima.
Rejeitou-nos a luz; a noite chegara com urgência.
Fugimos prà cancela com a gravidade da sombra que uma estrela alivia.
Como quem volta de um perdido prado voltei do teu abraço.
Como quem volta de um país de espadas voltei das tuas lágrimas.
Tarde que dura, vívida como um sonho
no meio das outras tardes.
Mais tarde fui atingindo e transpondo
noites e singraduras.

Jorge Luis Borges/ Uma despedida
Lua defronte;Obras Completas I



2 comentários:

  1. Que fotografia!!! Adoro as tonalidades da água e o pequeno barco todo, o grande a anunciar-se (ou será a despedir-se e eu estou a confundir a proa com a popa?).
    Bom fim de semana, Teresa.

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    1. Bem visto Susana, como era de esperar de ti...dúvida pertinente. É a popa, está a despedir-se, leva a amada para longe, e o pequeno, a remos, afasta-se depois da despedida, vagaroso e desconsolado. É também o poema, em fotografia, pelo menos foi assim que eu vi. :)

      Bom fim-de-semana, Susana, ainda bem que gostaste!
      Um beijo.

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