Atalhos de Campo


16.11.15

Oração

Ó árvores da vida, oh, quando inverna?
Não somos unos. Não nos coordenamos
como aves migradoras. E assim, tardos,
impomo-nos aos ventos de repente
e caímos nas águas impassíveis.


Florir, murchar, a um tempo é-nos consciente.
E inda há leões algures e não sabem,
enquanto majestosos, de impotências.
(...)


(...)
E ela guia-o de leve através da vasta paisagem dos lamentos,
mostra-lhe as colunas dos templos ou as ruínas
desses burgos, de onde os príncipes do lamento outrora
sabiamente dominavam o país. Mostra-lhe as altas
árvores das lágrimas e campos de melancolia em flor
(os vivos só as conhecem como suave obra da folhagem);
mostra-lhe os animais de luto, pastando, - e às vezes
um pássaro assusta-se e traça, em voo raso ao olhar deles,
até longe a imagem escrita do seu grito solitário.
(...)

(...)
E nós, que pensamos na ascese
da felicidade, sentiríamos a comoção
que quase nos consterna
quando uma coisa feliz cai.


Rainer Maria Rilke/Elegias de Duíno- Quarta e Décima 
Eagles of Death Metal/Duran Duran- Save a Prayer

4 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    Bem regressada seja.
    https://www.youtube.com/watch?v=E_WMgEu63FA
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. «Now all, all must change.»
      Que os vales consigam florir neste inv(f)erno.

      (E que música maravilhosa para presente de regresso!)
      Uma noite feliz.

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  2. "Não é Deus que nos deve explicações. Nós é que lhas devemos a Ele. Sei o que ainda nos pode esperar (...) Deus não nos deve explicações pelas coisas sem sentido que fazemos. Somos nós quem tem que dar explicações. Já morri mil mortes em mil campos de concentração, sei de tudo, nada novo me pode angustiar. De uma forma ou de outra, sei de tudo. Mas porém acho que esta vida é bela e plena de sentido. A cada instante."

    Etty Hillesum

    Que bom que estás de volta, querida Teresa :) Tens feito muita falta (o Manuel Hilário tem andado inconsolável).

    Um beijinho

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    1. "Já vi matar um homem
      é terrível a desolação que um corpo deixa
      sobre a terra
      uma coisa a menos para adorar
      quando tudo se apaga
      as paisagens descobrem-se perdidas
      irreconciliáveis

      entendes por isso o meu pânico
      nessas noites em que volto sem razão nenhuma
      a correr pelo pontão de madeira
      onde um homem foi morto

      arranco como os atletas ao som de um disparo seco
      mas sou apenas alguém que de noite
      grita pela casa

      há quem diga
      a vida é um pau de fósforo
      escasso demais
      para o milagre do fogo

      hoje estive tão triste
      que ardi centenas de fósforos
      pela tarde fora
      enquanto pensava no homem que vi matar
      e de quem não soube nunca nada
      nem o nome"

      José Tolentino Mendonça

      A banalização da morte, acaba por criar defesas contra o horror da morte violenta, em quem a presencia. Acho mesmo que é uma forma singular de se conseguir sobreviver a um campo de concentração. Mas quando a morte é única pode marcar profundamente quem a testemunhou, e transforma o desaparecido num símbolo poderoso de encarnação da própria morte, de todas as mortes, vividas de uma forma intensa nessa única pessoa, (nesse desconhecido de quem nem sabemos o nome), contrastando dramaticamente com o sentido e o valor da vida. Nunca li nada da Etty Hillesum, mas sei da grande admiração de Tolentino Mendonça por ela. Fiquei com muito interesse em a ler, depois dos textos que publicaste.

      Uma noite com sentido para a vida.

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