Atalhos de Campo


18.11.15

O violinista que suava das mãos


Foi entre Brahms e Berlioz, no foyer do Teatro Colón. Tomávamos 
um café. Na altura estava sozinha, a uma mesa alta, e redonda.
Saboreava os pequenos golos ainda de violino, aromatizados 
com o bulício em volta, quando passou por mim uma senhora 
à procura de apoio, equilibrando a chávena. 
Percorreu toda distância até ao fundo da sala com o meu 
olhar pousado no seu casaco escuro, e quando voltou para 
trás e passou novamente por mim, num aceno de cabeça e num 
gesto de cortesia, indiquei-lhe que ali tinha lugar. Pareceu-me 
aliviada, e em silêncio fez-me companhia. Os momentos que se
seguiram foram deliciosos. O marido chegava também com uma 
chávena de café, e parecia nem ter reparado em nós os dois, tal
era o seu entusiasmo. Enquanto falava com a mulher sobre a 
performance de Gluzman, os seus olhos brilhantes descreviam
arcos no ar, como se as notas ainda ali estivessem, e pudesse
ainda agarrá-las, até que começou a trautear a música, sublime,
entre frases que indicavam espaços musicais inquietantes e 
plenitudes, geridas com gestos emocionados. E quando a mulher
se afastou para ir à casa de banho, pareceu então dar por nós.
Gostaram, perguntou, e perante a nossa afirmação, começou por
dizer que aquilo a que tínhamos assistido era de um grau de 
dificuldade extremo. Há certos trechos da música em que 
a entrega é total, e extenuante, e as mãos, as mãos, repetiu
elevando-as para as mostrar, começam a suar, e isso é de 
evitar a qualquer preço, porque o violinista deixa de poder 
tocar com a mesma precisão... e laivos de tristeza perpassaram 
pelo seu olhar ao mesmo tempo que eu lhe perguntava, é
violinista...?, sim, toquei violino em música de câmara e 
em concertos para orquestra, por isso sei avaliar, Vadim Gluzman 
é maravilhoso. 

Agora pego no programa para o abrir na página do Concerto para
Violino, e volto a ler o comentário que começa exactamente com
uma frase do próprio Brahms: Hay tantas melodías en la obra,
flotando aquí y allá, que es preciso prestar atención para no
pisarlas.    

4 comentários:

  1. A mim o que me faz suar as estopas, de tantas melodias que deixa soltas no ar, é Tchaikovsky para violino e orquestra. E nunca pus as mãos num violino. :)

    Abraço, (bem regressada) Teresa.

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    1. Amo esse concerto, principalmente porque o associo ao filme "O Concerto", e tenho-o, claro :), tocado pela Julia Fischer...
      Um abraço, bem regressado JM.

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  2. Estive a ouvir deliciada as pétalas musicais de Gluzman. Sublime!

    Um beijinho, Teresa

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    1. Querida Miss Smile, sinto-me uma sortuda por poder ouvi-lo de novo. Vivemos numa época tão conturbada quanto maravilhosa, cuja tecnologia permite isto, entre tantas coisas más...

      Um beijinho.

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