Atalhos de Campo


19.11.15

Assassin's Tango



Já livre da memória e da esperança,
quase futuro, ilimitado, abstracto,
não é um morto, o morto: ele é a morte.
Como esse Deus dos místicos,
de Quem devem negar-se os predicados,
o morto ubiquamente alheio
é só a perdição e ausência do mundo.
Roubamos-lhe tudo,
não lhe deixamos uma cor nem uma sílaba:
é este o pátio que os seus olhos já não partilham
e aquele o passeio onde perscrutou a sua esperança.
Até o que pensamos poderia pensar;
repartimos por nós como ladrões 
todo o caudal das noites e dos dias.

Jorge Luis Borges/ Remorso por qualquer morte

4 comentários:

  1. Estava eu aqui cheia de vontade de abrir um dos meus Borges e encontro este poema lindíssimo.
    Nada pode correr mal num fim de tarde assim.

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    1. Que bom Cuca, só mesmo uma pirata poeta consegue roubar um poente e deixá-lo intacto.

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  2. https://www.youtube.com/watch?v=aiXsMlouW74

    Que viva el tango!

    Um abrazo de passo longo, de rosto virado

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    1. Emocionante, querida Miss Smile. O que aqui faltava para que tudo fosse perfeito.

      Um tango, ao luar!
      (adoraria saber dançá-lo...mas só de o ver dançar renasço).

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