Atalhos de Campo


27.11.15

amanhecimento

O sol está por trás de uma nuvem branca iluminada. O livro à minha esquerda é O Fazedor. Comprei-o em Outubro de 1984 (está escrito na folha de rosto, com a minha assinatura) talvez na livraria do Apolo 70, não me lembro bem, custou 480 escudos, e mudou entre cinco e sete vezes de casa. Não tenho ideia de o ter lido logo, mas sim de o ter procurado ao longo destes trinta anos por várias vezes, como se ele fosse uma enorme cidade, apenas visitável de metro, e cada texto um cogumelo emergente e perfeito, como um bairro calcorreado a pé entre fronteiras, sem no entanto haver uma ideia do todo, do conjunto que faz, por exemplo de Buenos Aires, uma cidade de quarenta e oito bairros, unida pela mesma memória forte dos seus mortos e heróis, pelos mesmos hábitos nos cafés dos quarteirões, pelos pátios herdados de velhas aristocracias, pelas acácias rubras misturadas com jacarandás azuis, pelo tango dos arrabaldes que lateja nas ruas do centro quando a Avenida de Mayo irrompe pelo Café Tortoni, pelo Teatro Colón onde a ópera é a rainha da América latina, e a Praça de San Martín desemboca na Avenida Maipú 994, e no mundo, porque desta porta, numa manhã qualquer, do outro lado do hemisfério do Outono, Borges saiu de casa para se encontrar com Delia Elena San Marco. E numa das esquinas do Once, no Bairro de Balvanera às cinco horas de uma tarde, dessa tarde qualquer, Borges voltou-se para olhar de novo para Delia que se tinha voltado também para lhe dizer adeus com a mão. Delia e Borges não se viram mais, porque Delia morreu um ano depois, mas Borges sabia, ou suspeitava, que a encontraria de novo. Por isso, muitos anos mais tarde, atravessou a mesma rua e esperou na mesma esquina até Delia Elena aparecer, jovem e bela como da última vez em que a vira, com o seu vestido fresco de flores. E foi nesse momento que confirmou com nitidez a sua suspeita, de que a morte fora afinal e apenas uma longa e única noite, que habitara por muito tempo as águas fundas do Aqueronte. Parece que nunca mais ninguém vivo soube deles.
                             
                                                   ***
Despedir-se é negar a separação, é dizer: Hoje fingimos que nos separamos, mas ver-nos-emos amanhã. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingentes e efémeros.

Jorge Luis Borges/ Delia Elena San Marco 

4 comentários:

  1. Vemo-nos aqui, como de costume!

    Beijos, Teresa.

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    1. Maria, amanhã vamos lanchar a uma das esplanadas de Puerto Madero, qué dices?

      Beijos, Maria "Mujer" :)

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