Atalhos de Campo


3.11.15

agora, noutro lugar, noutro silêncio

Na noite de luar o avião passa como um prodígio
Rápido inofensivo e violento
envolto num lençol de cal duas cintilações

Ele enche de clamor o sossego branco dos muros onde moro
sobre as pálpebras húmidas e um ardor perfura
a noite onde uma ponte atravessa um rio
Ele enche de espanto
O halo azul da noite exterior

o voo é demorado
Mas depressa passa o pássaro vibrante
ficaste a saber que nem deus é eterno
desfez-se no erro daquilo que criou perdeu-se
De novo tomba a lua sobre as flores
E o cipreste contempla o seu próprio silêncio
nas suas imperfeições e certezas

Porém noutro lugar noutro silêncio
Bandos passam em voos de terror
agora
pela janela do avião vês como tudo é mínimo
lá em baixo - quando a oriente da loucura
a mão cinzenta do inverno perdura no rosto
E a morte nasceu nos ovos que deixaram

A lua não encontrou depois as flores
Ninguém morava dentro dos muros brancos 
daqueles que sonolentos viajam dentro
E a noite em vão buscava o seu cipreste
deste pequeno túmulo de serenidade

Sophia de Mello Breyner Andresen/ Os Aviões
Al Berto/ Avião 

3 comentários:

  1. Na pauta, que é a página branca, versos escritos a quatro mãos dão-se e entrelaçam-se, como uma trepadeira que quer espreitar a lua.
    Excelente orquestração, Teresa :)

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    1. e como a alma voa com eles...

      Hoje quando vir passar um avião, qualquer um, pense em mim.
      Até à volta, para nos rirmos, nos desafiarmos, nos interpretarmos, sempre com a boa companhia de um chá, de uma tisana, ou de uma zurrapa lá do sallon, e da nossa flor, e da Milu, acrescentando cowboys animados, galináceos e hilários, e "whatever" aos nossos delírios.
      Gosto muito de si. Até breve.

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  2. errata: coloque-se a 2ª pessoa do singular em todo o lugar em que estiver acomodada a 3ª ; incomode-se mesmo essa pessoa :)
    é difícil tratar uma Miss desta qualidade por tu, lá diria o Manuel Hilário.

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