Atalhos de Campo


22.11.15

a rua é um tango

(...)
A luz já raia o ar.
Os meus anos percorreram os caminhos da terra e da água
e só te sinto a ti, rua dura e rosada.
Penso se as tuas paredes conceberam a aurora,
armazém que no extremo da noite és tão claro.
Penso e faz-se-me voz perante as casas
a confissão da minha pobreza:
não pude olhar os rios nem o mar nem a serra,
mas foi minha íntima a luz de Buenos Aires
e forjo os meus versos de vida e de morte com essa luz de rua.
Rua grande e sofrida,
és a única música da minha vida.

Jorge Luis Borges/ Rua do armazém róseo




4 comentários:

  1. Dois corpos com o mesmo tango nos corações. Que maravilha poder viajar contigo por Buenos Aires :)

    Um beijinho, Teresa

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    1. Comovente, com dançam por todo o lado, nos cafés ao entardecer, em shows pela rua, corpos delgados e perfeitos, vestidos compridos e brilhantes, saltos altos impossíveis, peles acetinadas, sensuais, homens lindos, sedutores e inclinados, que mal tocam nos pares rodopiando fatalidades renascidas, e depois o amor, esse amor da entrega de muitas milongas e lágrimas, dançado ali mesmo, um exemplo. Já não me safo mais disto, deste reviver em Borges a sua querida Buenos Aires, as ruas, a luz, os pátios, os passeios.

      Um beijinho, Miss Argentina :)

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  2. ...o Tango, para mim, será sempre o meu pai. dançava divinamente.

    fico feliz que tenha voltado (e com tanta coisa boa para partilhar). um abraço, querida Teresa.

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    1. "Veja só
      nem todo mundo
      tem a possibilidade de ver
      entrar em sua família
      um dançarino suspenso
      um dançarino su-suspenso
      constantemente suspenso
      entre o rochedo & a flor"

      Matilde Campilho

      Um abraço feliz, querida flor dos rochedos.

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