Atalhos de Campo


30.11.15

Passagem para a noite (7)



























Quantos anos tem Novembro?
Pablo Neruda

em corpo e água


                                                                                                                                                           
                                                                               

desmame

Continua o balido das ovelhas pela noite fora; 
foram separadas hoje dos borregos, e choram como 
mulheres a quem tivessem arrancado os filhos dos
braços. Eles respondem do ovil qual coro de anjos, 
mas é sobretudo impressionante e comovente ouvir 
estas fêmeas que não desistem de chamar pelas crias, 
gritando na planície gelada, até à exaustão.

Que nome tem a tristeza
numa ovelha solitária?
Pablo Neruda

29.11.15

Columbinas

Columbina talpacoti


























Uma variedade de rola em "miniatura" de extrema beleza habita a cidade de Buenos Aires. Vêem-se por todos os parques, debicando nos relvados à procura de alimento, sozinhas ou em pequenos bandos, parecendo não dar conta da nossa presença, e aproximando-se sem medo. Contrariamente ao que seria de esperar tal não acontece no campo, principalmente porque na relação com as espécies cinegéticas impera uma certa agressividade. O acordar hoje ao som dos tiros das caçadas em volta como despertador, em vez do habitual concerto dominical dos pássaros, trouxe-me ao pensamento esta pequena rola que fotografei aos meus pés há pouco mais de uma semana, num parque cheio de gente. No silêncio que se abateu depois, povoado de ressentimento e desconfiança, recordei-me de uma cena de caça com os meus dois irmãos rapazes, ainda adolescentes, que revela o atavismo que há em qualquer caçador. O mais velho teve de presente uma espingarda de pressão de ar, dada pelo meu avô. Ambos foram brincar às caçadas. O mais velho caçou um coelho que ele depois viu que estava com mixomatose, e apareceu em casa a chorar, porque tinha atingido um animal doente.       

um dia qualquer



"Se por algum desígnio voltar a esta terra amada
gostava de ser uma árvore visitada por aves no verão
e por onde se passeassem os esquilos, onde escrevessem no
casco pequenos nomes humanos apaixonados. Uma árvore
de uma floresta do norte onde no inverno cai a neve
e há aquele silêncio que tudo guarda. E que depois 
fosse cortada por um lenhador, pai de uma família
grande e saudável, e que parte de mim fosse logo
queimada, o seu calor cozendo a comida de todos e que
com a melhor madeira se fizesse uma mesa onde alguém
um dia escrevesse uma carta a alguém que estivesse longe
para lhe dizer que a amava."

Poema: Mario Benedetti, poeta uruguaio
Texto: Pedro Paixão/ E nos teus braços morreríamos
Sam e Frank

Com um especial agradecimento a Miss Smile, por me ter
feito reler este livro.

28.11.15

um adeus português









































































































































































































Cidade de Colónia do Sacramento, fundada pelos portugueses em 1680, como 
Colónia do Santíssimo Sacramento. 
Centro Histórico com influência portuguesa(Património da Humanidade)
Uruguai, margem Norte do Rio da Prata.

27.11.15

*Uma despedida*

A tarde que minou o nosso adeus.
Tarde acerada e deleitosa e monstruosa como um anjo escuro.
Tarde em que viveram os nossos lábios na intimidade nua dos beijos.
O tempo inevitável transbordava sobre o abraço inútil.
Na paixão fomos pródigos, não para nós, mas para a solidão já próxima.
Rejeitou-nos a luz; a noite chegara com urgência.
Fugimos prà cancela com a gravidade da sombra que uma estrela alivia.
Como quem volta de um perdido prado voltei do teu abraço.
Como quem volta de um país de espadas voltei das tuas lágrimas.
Tarde que dura, vívida como um sonho
no meio das outras tardes.
Mais tarde fui atingindo e transpondo
noites e singraduras.

Jorge Luis Borges/ Uma despedida
Lua defronte;Obras Completas I



amanhecimento

O sol está por trás de uma nuvem branca iluminada. O livro à minha esquerda é O Fazedor. Comprei-o em Outubro de 1984 (está escrito na folha de rosto, com a minha assinatura) talvez na livraria do Apolo 70, não me lembro bem, custou 480 escudos, e mudou entre cinco e sete vezes de casa. Não tenho ideia de o ter lido logo, mas sim de o ter procurado ao longo destes trinta anos por várias vezes, como se ele fosse uma enorme cidade, apenas visitável de metro, e cada texto um cogumelo emergente e perfeito, como um bairro calcorreado a pé entre fronteiras, sem no entanto haver uma ideia do todo, do conjunto que faz, por exemplo de Buenos Aires, uma cidade de quarenta e oito bairros, unida pela mesma memória forte dos seus mortos e heróis, pelos mesmos hábitos nos cafés dos quarteirões, pelos pátios herdados de velhas aristocracias, pelas acácias rubras misturadas com jacarandás azuis, pelo tango dos arrabaldes que lateja nas ruas do centro quando a Avenida de Mayo irrompe pelo Café Tortoni, pelo Teatro Colón onde a ópera é a rainha da América latina, e a Praça de San Martín desemboca na Avenida Maipú 994, e no mundo, porque desta porta, numa manhã qualquer, do outro lado do hemisfério do Outono, Borges saiu de casa para se encontrar com Delia Elena San Marco. E numa das esquinas do Once, no Bairro de Balvanera às cinco horas de uma tarde, dessa tarde qualquer, Borges voltou-se para olhar de novo para Delia que se tinha voltado também para lhe dizer adeus com a mão. Delia e Borges não se viram mais, porque Delia morreu um ano depois, mas Borges sabia, ou suspeitava, que a encontraria de novo. Por isso, muitos anos mais tarde, atravessou a mesma rua e esperou na mesma esquina até Delia Elena aparecer, jovem e bela como da última vez em que a vira, com o seu vestido fresco de flores. E foi nesse momento que confirmou com nitidez a sua suspeita, de que a morte fora afinal e apenas uma longa e única noite, que habitara por muito tempo as águas fundas do Aqueronte. Parece que nunca mais ninguém vivo soube deles.
                             
                                                   ***
Despedir-se é negar a separação, é dizer: Hoje fingimos que nos separamos, mas ver-nos-emos amanhã. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingentes e efémeros.

Jorge Luis Borges/ Delia Elena San Marco 

25.11.15

22.11.15

a rua é um tango

(...)
A luz já raia o ar.
Os meus anos percorreram os caminhos da terra e da água
e só te sinto a ti, rua dura e rosada.
Penso se as tuas paredes conceberam a aurora,
armazém que no extremo da noite és tão claro.
Penso e faz-se-me voz perante as casas
a confissão da minha pobreza:
não pude olhar os rios nem o mar nem a serra,
mas foi minha íntima a luz de Buenos Aires
e forjo os meus versos de vida e de morte com essa luz de rua.
Rua grande e sofrida,
és a única música da minha vida.

Jorge Luis Borges/ Rua do armazém róseo




como pão para La Boca














































































































































um Domingo colorido


Feira de San Telmo, Domingo 8/11/2015
Buenos Aires

a cidade das mulheres



Porque detesto as cidades 
com cheiro a mulher e urina?

Pablo Neruda/ Livro das Perguntas

21.11.15

troféu


























Como quem percorre uma costa
maravilhado com a abundância do mar,
excitado de luz e de pródigo espaço,
eu fui o espectador da tua beleza
durante um longo dia.
Despedimo-nos ao anoitecer
e em gradual solidão
ao voltar pela rua cujos rostos ainda te conhecem,
a minha felicidade ensombrou-se, pensando
que de tão nobre acervo de memórias
iriam perdurar escassamente uma ou duas
pra decoro da alma
na imortalidade do seu rumo.

Jorge Luis Borges/ Troféu
Fervor de Buenos Aires



20.11.15

a ponte é uma mulher

Ponte da Mulher / Santiago Calatrava
Puerto Madero . Buenos Aires


     

              * * *
Tu
que ainda ontem eras só toda a beleza
és agora também todo o amor.

Jorge Luis Borges/ Sábados                                                                        

o triunfo das azedas
























Enquanto o jardineiro viaja
em busca da Monstera deliciosa
no jardim triunfam azedas



19.11.15

Assassin's Tango



Já livre da memória e da esperança,
quase futuro, ilimitado, abstracto,
não é um morto, o morto: ele é a morte.
Como esse Deus dos místicos,
de Quem devem negar-se os predicados,
o morto ubiquamente alheio
é só a perdição e ausência do mundo.
Roubamos-lhe tudo,
não lhe deixamos uma cor nem uma sílaba:
é este o pátio que os seus olhos já não partilham
e aquele o passeio onde perscrutou a sua esperança.
Até o que pensamos poderia pensar;
repartimos por nós como ladrões 
todo o caudal das noites e dos dias.

Jorge Luis Borges/ Remorso por qualquer morte

Tempos de caça


























tempo de caça, tempos de caça
perdizes felizes
cantamos
corvos, gralhas
negras, negros 
tempos.
verde, verdes 
trilhos.
farejam narizes
meias vermelhas
veias 
nos valados nevoeiro,
nevoeiros 
brilhos 
camufladas dianas.
pegadas em dias de cauda curta 
de cauda longa, pegas, noites compridas
ruas
quintas, montados, madrugadas, 
drogadas chacinas
investidas
pelas feiras ladram
peles curtidas
às esquinas feridas
montarias 
ao ouro velho encapuzadas. 
triunfo da mal passada
carne vermelha branca dourada em sangue
crua fraca
rola escondida, a primeira
pura mata
piscos pousados na árvore nua o céu
chapins posados no tiro a olho nu armado
fuga, fuga, folha caída
estalido
emergência
sem saída.
da mira em ponto
de queda livre
em crawl voando
de amora a nódoa
no vestido amarelo
ao zelo pontaria.
tordos nas nuvens
de peito feito
e jogo de cintura
à cintura os primeiros.
fogo
pardais espantados em bando
criaturas
estampidos
em estranho rodopio
obedecem ao mando 
de jovens ímpios implodidos,
pressões de ar envergando
gritos.
grito,
com as mãos nos ouvidos.
olá, passarinhos fritos, letreiro
acabaram-se os patos,
no prato,
mas há faisões em Janeiro 
todos reais.
verdadeiras realezas 
servidas em bandejas, narcejas 
fatais virgens estufadas, cervejas
rolas em banho turco são canja
a fumegar sobre as mesas.
risos, rios ribeiros, naturais belezas
ribanceiras duquesas
de parar, falcões sem lucro
falcoeiras
estupro.
tiro aos sonhos
nos sobros
aos tentilhões a cantar
pombas de tombar
na paz das oliveiras.
lutos, luto
azar dos estorninhos 
aos ninhos sorte
ardem   
nas lareiras azinhos
pão e vinho
tinto o Domingo
frutos do fruto 
a festejar
a morte.